Quem, mesmo não sendo cristão de militância, já não ouviu falar em nuvem de testemunhas, expressão usada pelo apóstolo Paulo na sua Carta aos Hebreus (Hb 12,1)? Certamente já tomaram conhecimento, muito embora outros tantos ainda não estejam vocacionados para a missão mais relevante dos tempos de agora: integrar uma nuvem de testemunhas que busca proclamar as boas novas num mundo globalizado hedonista e profundamente egoísta, de pouca solidariedade, sem muita pensação e de quase nenhuma binoculização, sempre a contemplar os próprios ganhos pessoais, nunca os amanhãs coletivos já anunciados há muito tempo. Logicamente que sempre eivado de preconceitos e com um sentimento nada fraternal de ser dono da verdade, salvo as mínimas exceções, chamadas de especialistas na arte de questionar para evoluir.
Num contexto que se transmuda muito velozmente, cabe a cada cristão desenvolver sua missão evangelizadora, como minoria abraâmica, como dizia Dom Hélder Câmara (capacidade de proclamar, com efetividade multiplicadora, a Boa Nova), atentando para o aprimoramento evolucional dos seguintes atributos individuais:
a. Ser possuidor de uma autoconsciência elevada, para uma melhor compreensão dos seus pontos fortes e fracos, separando sem temor o joio do trigo.
b. Possuir um saudável hábito de solicitar avaliações periódicas e construtivas, que possibilitem a descoberta de potencialidades ainda ocultas por preconceito, frágil ousadia ou alienação ideacional.
c. Ampliar a sede de aprender, multiplicando a criatividade e o “enxergar” de novas oportunidades missionárias, sempre amplamente multidimensionais.
d. Dotar-se de um sólido respeito pelas diferenças, transcendendo bairrismos, ideologias, preconceitos sociais, ideologias de gênero, odiosidades e maniqueísmos ultrapassados, percebendo sempre a diferença existente entre casualidade (que não existe) e causalidade (sempre presente).
e. Nunca se descartar de uma visão de bailarino, de um agir pedagógico com base nas Sagradas Escrituras, sempre atento às evoluções dos seus derredores, nunca nostálgicos nem hipocritamente puritanos.
A título de simples exemplo, imaginemos alguém, em 2025, escrevendo o que foi publicado em editorial do jornal Fronteiras, logo após a primeira edição da obra germinal Casa Grande & Senzala, do notável pernambucano Gilberto Freyre: “Não sei se todos vós conheceis aquele vasto arsenal de pornografia, salpicado cá e lá de blasfêmias próprias e alheias, de blasfêmias religiosas e científicas que se chama Casa Grande & Senzala, do sociólogo bolchevique Gilberto Freyre.” Uma jumentalidade dinossáurica escrita por católicos tridentinos que buscavam urinar sempre de luvas para não tocar naquilo.
Se o editorial acima buscava preservar a pureza do Cristianismo, a denúncia feita, mesmo sob os critérios de então, estava quilômetros distanciada dos níveis interpretativos mais saudáveis, somente causando aplausos dos que não possuíam binoculidade, aquele senso de antecipação tão acentuado por Gilberto Freyre, em seus escritos notáveis.
Com os atuais deprimentes níveis educacionais brasileiros – da alfabetização à pós-graduação – inúmeros se idiotizaram como pretensos pensantes, alguns se autodenominando apolíticos, logicamente tornados mais idiotas que os demais, sem atentarem para a maior necessidade contemporânea do mundo civilizado, segundo Edgar Morin, um notabilíssimo franc~es que deveria ser mais analisado nas diversas áreas acadêmicas do planeta: “Compreender os paradigmas que necessitam ser reformados no momento atual da nossa civilização; compreender os desafios civilizacionais colocados hoje para a viabilização da vida humana no planeta; compreender a construção civilizacional.” Reflexão que provocou na Paula Stroh, Mestra em Ciências Sociais pela PUC de São Paulo, também pós-doutorada pela École des Hautes Études em Sciences Sociales de Paris, a explicitar: “A reconciliação dos humanos com a natureza física e com sua própria natureza é um desafio essencialmente civilizacional. Sua substância manifesta-se em novas exigências de reformas da própria noção de desenvolvimento, impregnada como crença no processo civilizacional moderno.”
Desenvolvimento civilizacional se faz presente com pensar crítico-construtivo, fazendo, corrigindo e sempre refazendo, para ficar cada vez melhor para todos os quadrantes. Assim não procedendo, é putaria seca, como dizia uma avó, já eternizada, de uma mulher que muito amo, presente que Deus me deu para que eu pudesse continuar a ser um aprendiz pensante binoculizante, buscando sempre superar as minhas inúmeras deficiências cognitivas.