CÍCERO TAVARES - CRÔNICA E COMENTÁRIOS

Não se faz mais brega como antigamente. A criatividade na melodias e na letra deu lugar ao sentimentalismo piegas, ao namorico instantâneo, ao ficar, que o diga o crítico musical José Teles que, no seu site pessoal trás um artigo interessante sobre a diferença de interpretação entre a potiguar Idenilde de Araújo da Costa, Núbia Lafaiette, (1937-2007) e o bregadão recifense Ivanildo Marques da Silva, o Conde Só Brega, sucesso absoluto nos cabarés recifenses e metropolitanos, nos bailes interioranos e suburbanos.

“Ouço muito música brega, tosca, mal produzida, mal interpretada, a todo volume. Não em casa. De tosco pra mim já basta o mundo. O brega que ouço é tocado, o tempo todo, numa favela próxima ao meu prédio. Tocam uns bregueços curiosos. Uma cantora, que não sei quem é, canta um piseiro, sofrência, sertanejo, um troço desses, cuja primeira parte é igualzinha à melodia, complexa, de Fotografia, de Tom Jobim. E o povão gostando. Vá entender.

Aí entra o Conde, com “Se eu quiser fumar, eu fumo/se eu quiser beber, eu bebo” não sei como se chama a música, acho que Não tô Nem Aí. Os versos me levam à Núbia Lafayette, a potiguar Idenilde de Araújo Alves da Costa (1937/2007). Se cantasse MPB, Núbia Lafayette seria incluída entre as grandes vozes do país, mas seguia a linha que, no início dos anos 60, era rotulada de cafona. Seu principal fornecedor era o genial português Adelino Moreira, autor de inúmeros sucessos de Nelson Gonçalves e Ângela Maria. Tocou muito no rádio, vendeu muito LP, até a eclosão do rolo compressor chamado jovem guarda.

Voltou às paradas quando o “cafona” foi substituído por “brega”, termo que vem de xumbregar, que no Nordeste era falado “xambregar”, que deu em xamegar. Xambrega, foi abreviado pra brega, que virou sinônimo de cabaré, zona. A música que tocava no brega acabou denominada de “brega”. Origem provavelmente pernambucana (talvez alagoana ou paraibana, onde a expressão era comum).

Núbia Lafayette recuperou o sucesso, em 1972, contratada pela CBS, em que Raul Seixas era produtor, e Rossini Pinto um faz tudo, de executivo, produtor, a fornecedor de canções. De Raulzito gravou Jamais Estive Tão Segura de Mim Mesma, de Rossini Pinto, o bolero Casa e Comida, grande hit, e que deu nome ao álbum. Desse LP é Lama (Aylce Chaves/Paulo Marques), outra que foi às paradas, e virou clássico do gênero, e que abre com os versos: “Se quiser fumar, eu fumo/se quiser beber, eu bebo/não interessa a ninguém”.

A diferença entre o samba canção ‘Lama’ e a o brega do Conde é não apenas na bela melodia da primeira, como na roupagem de ambas. A do Conde é tosca, tanto, que parece até proposital, para causar. ‘Lama,’ tem a voz personalíssima de Núbia, e um arranjo requintado, de conjunto regional com orquestra, acho que do maestro Astor, que trabalhou durante anos na CBS.”

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Núbia Lafayette – Minha Sorte (Pseudo Video)

8 pensou em “NÚBIA LAFAIETTE X CONDE SÓ BREGA

  1. Caro Ciço, belas canções acima. Estas são as verdadeiras representantes da Música Popular Brasileira

    Quando quero dançar com a véia num churrasco, depois de algumas cervejas, não é o Chico que quero ouvir e sim cantores como a Núbia.

  2. Ciço, meu bom compadre: você fez uma análise precisa, realista, desse gênero de música e da cantora Núbia. Ganhei o dia com a leitura de sua crônica. Valeu! Abraços, e tenha um excelente dia cheio de saúde, paz e músicas bonitas.

  3. Caro Ciço,
    A origem da expressão “Brega” é tipicamente recifense, Começou no ano de 1666, conhecido como o Ano da Besta.

    Quando os pernambucanos expulsaram os holandeses, no ano de 1654, não puderam contar com nenhuma ajuda de Portugal, pois este passava por grandes dificuldades também.

    Haviam terminado de se livrar da dominação espanhola, conhecida como União Ibérica, que durou de 1580 a 1640. Começou com o desaparecimento do rei D,Sebastião, na batalha de Alcacer Quibir, quando portugal ficou sem herdeiro para o trono. Sendo então engolido pela Espanha.

    Para iniciar uma nova dinastia, portugal teve de lutar uma longa e penosa guerra. Para isso, contou com a ajuda de um general alemão chamado Shonberg. Este ficou muito famoso, principalmente por um imenso bigode.

    Um de seus auxiliares e admiradores, inclusive imitador de seu bigode, era da tradicional família portuguesa Mendonça Furtado. Quando Pernambuco se livrou dos holandeses, o novo governador que mandaram foi exactamente o Mendonça Furtado, conhecido pela irónica alcunha de “Shonberg”.

    Aqui em Olinda e Recife, o seu apelido se transformou em “Xumbrega”.

    O governador Xumbrega se notabilizou por uma roubalheira além dos limites considerados normais para a época, e por gostar imensamente de, todas as tardes, pegar um barquinho no varadouro, em Olinda, e vir para a rua das águas verdes, no bairro de São José, no Recife, conhecido centro de jogatina, prostitução e bebedeiras. Só voltava para Olinda de madrugada e trêbado, sendo carregado pelos ajudantes.

    Os pernambucanos foram se enchendo com aquilo até que, numa determinada madrugada, meteram-lhe um saco na cabeça, na rua Camboa do Carmo, quando ia pegar o barco de volta, e levaram-no até um navio onde foi posto a ferros e devolvido para Lisboa, com instruções a El Rei que mandasse outro governador.

    Foi-se o Mendonça e ficou a expressão Xumbregar, quer dizer: farra, jogatina, muita cachaça, putaria até dizer basta.

    Só sabe quem é recifense.

  4. A origem da palavra XUMBREGA está ligada entre Recife e Olinda, por onde o administrador de família portuguesa Mendonça Furtado transitou com as suas farras.

    Do sobrenome do militar alemão Friederich Hermann Schönberg, que reorganizou e comandou as tropas portuguesas na luta contra o domínio espanhol (1661-1668) e introduziu, em Portugal, diversas modas, tornando-se o árbitro da elegância lisboeta.

    Xumbrega foi genialmente traduzida para a linguagem portuguesa nordestina por Zé Dantas, que deu a ela o verdadeiro sentido brincalhão.

    Meus parabéns pela sua corretíssima interpretação do termo.

  5. Parabéns pela excelente postagem, querido Ciço Tavares!
    Sou chegada a uma dor de cotovelo…
    Sempre gostei de Núbia Lafayette, norte-riograndense, como eu !

    Algumas músicas gravadas por ela., que eu adoro.

    “Seria tão diferente”
    “Quem eu quero não me quer.”:
    “Devolvi”
    “Casa e comida”
    “A porta ainda está aberta”
    “Lama”
    “Solidão”
    A discografia dela é muito vasta (25 álbuns).
    Deixou sua marca de grande cantora romântica, e uma imensa lacuna no cenário da MPB.

    Grande abraço!

    • Obrigado, querida Violante, pelo belíssimo comentário.

      Como dizia o personagem de Chico Anísio: sou doido por essa cantora e qualquer elogio que se refira a ela eu fico no ar, como dizia Dona Canô, mãe de Caetano.

      Núbia Lafayette, cujo nome artístico foi dado pelo genial compositor Adelino Moreira, continua imbatível na sua dor de cotovelo.

  6. Caro Cícero sincero
    Não conheci a Núbia Lafayette, mas me lembro do nome famoso nas cantorias de rádio em Garanhuns, na década de 1960, quando não havia a palavra “Brega”. “Xambregar”, sim, havia muita. É um verbo bem ativo.
    Não sabia que “Xamego” também vem daí. Encontrei mais uma palavra para a coleção de etimologias interessantes.
    Depois, vem outro etimólogo, o Adonis, e conta a história do surgimento do termo.
    O Berto fala que sua gazeta é escrota. Pode ser, mas é uma escrotidão muito cultural
    Já ouvi falar em Garanhuns que xumbrega vem do nome de um alemão putanheiro.

    • O Adônis deu uma lição de história no “Xambregar”. Seu comentário enriqueceu minha crônica.

      Com o seu, agora, a lapidação fica mais erudita.

      Obrigado, mestre.

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