FERNANDO ANTÔNIO GONÇALVES - SEM OXENTES NEM MAIS OU MENOS

Numa agência bancária, onde fui fazer uma doação para ajudar os vitimados pelas terríveis enchentes gaúchas, deparo-me com o João Silvino da Conceição, que para lá tinha se deslocado com o mesmo propósito. Sobraçando, como sempre, um caderno e uma esferográfica para anotações cotidianas, ele não se esquivou de mostrar suas últimas pensações. Transcrevo-as aqui, corrigindo suas mínimas incorreções ortográficas:

– “Sempre que possível, nunca diga “não” de supetão. Diga sempre “vamos raciocinar”, favorecendo a emersão de soluções mais venturosas.”

– “Quem sabe pensar, nunca vai se afundar, nem de todo se lascar.”

– “Ainda que botando asas numa vaca, jamais ela voará.”

– “Quando não se tem intenção concreta, todo amanhã idealizado é vão.”

– “Abandonar-se é o maior defeito de um ser humano.”

– “Na escola da vida pós-moderna, professores e alunos devem postar-se sempre com intensa criticidade estruturadora.”

– “Nas tragédias urbanas, toda precaução é pouca com os vitimismos, os exibicionismos, evitando responder perguntas idióticas de repórteres sem um mínimo senso de visão comunitária.”

– “Toda vivência sadia é consequência plena de uma caminhada dotada de bom senso, solidariedade fraternal e caridade sementeira.”

– “Quem desconhece e não analisa fatos passados, compreende mal os do cotidiano e não binoculiza com efetividade os dos amanhãs.”

– “Os possuidores de parcas leituras, analisam os fatos e feitos sem embasamento, com descontrole emocional e agressividade irracional.”

– “Ou serenamente convivemos dialogando pacificamente com pensamentos contrários aos nossos ou brevemente nos destruiremos todos.”

– “O ser humano é o único animal cuja existência pacífica é um problema que ele mesmo terá que resolver.”

– “Enredos de telenovelas nada criativas geram psicopatias criminosas, além de fingimentos comportamentais altamente hipócritas.”

– “Novos conhecimentos ampliam responsabilidades solidárias e militâncias favoráveis a realidades sociais mais dignas e justas.”
– “Ser cristão é ter um profundo respeito por todas as demais crenças, religiosas ou não, sem preconceitos nem implicâncias comportamentais.”

– “Quem evita ser mentalmente bunda, tem a certeza de que nunca se comportará mal socialmente, mesmo dirigindo um Porsche.”

– “Quem pratica bandidagens nas tragédias urbanas como a do Rio Grande do Sul, merece castração física e cadeia longa, para não mais parecer ser gente.”

– “Solidariedade e fraternidade são irmãs siamesas, jamais em tempo algum devendo ser tratadas separadamente.”

– “Quem não tem solidariedade social, possui uma infantilidade cognitiva não evolucionária, rumina e dá coices.”

– “Nós existimos na Terra para sermos solidários com todos, incluindo os que discordam de nós.”

Abracei o João Silvino da Conceição, agradecendo a Deus por ter com ele uma amizade de muitas décadas, sempre ele professor e eu aprendiz, usufruindo das suas lúcidas orientações existenciais. E ainda recebi de presente, com uma dedicatória atenciosa, um livro que já comecei a digerir intelectualmente: SOBRE A ARTE DE VIVER: LIÇÕES DA HISTÓRIA PARA UMA VIDA MELHOR, Romain Krznaric, Rio de Janeiro, Zahar, 2013, 376 p. O autor é um historiador britânico, fundador da School of Life de Londres, consultor internacional e pensante século XXI. Páginas que, segundo João Silvino, muito iluminarão nossas decisões pessoais, profissionais, familiares e comunitárias.

Em troca, um livro que eu tinha acabado de comprar presentei o Silvino, ratificando nossa amizade com muitas bênçãos divinas: A SOCIEDADE PERFEITA: AS ORIGENS DA DESIGUALDADE SOCIAL NO BRASIL, João Fragoso, São Paulo, Editora Contexto, 2024, 352 p. O autor, professor titular de História, por concurso, na UFRJ, analisa com maestria, e de um jeito próprio, o Brasil como somos e por que somos detentores de uma humilhante redistribuição de renda.

No fim do encontro, cada um com seu livro, fomos tomar um caldinho de feijão com uma cerveja sem álcool, num pequeno restaurante popular das redondezas bancárias, permutando as anedotas mais recentes, inclusive as de baixo calão.

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