CORRESPONDÊNCIA RECEBIDA

O ROGACIANO LEITE QUE EU CONHECI

Eu estava na porta de entrada da velha Gazeta de Notícias, (vibrante jornal editado em Fortaleza), quando, de súbito, chega Rogaciano Leite. Metido num elegante terno azul marinho, os óculos escuros protegendo-o da intensa claridade da manhã, o poeta, ainda do meio da rua, acenou para mim, convidando-me para assistir à morte de um gigante. Ao meu lado estava Lêda Maria, repórter como eu. Magricela, quase uma criança. Na verdade, uma agulhinha de gente. Lêda também foi convidada por Rogaciano e, assim, os dois, eu e ela, seguimos o poeta em direção ao gigante, que, segundo ele, agonizava. Confusos com aquela estranha história, fazíamos um tremendo esforço para acompanhar as passadas apressadas do poeta.

A Gazeta ficava ali no comecinho da rua Major Facundo, número 85, a dois passos do Passeio Público, também conhecido como Praça dos Mártires, alusão aos revolucionários da Confederação do Equador, executados naquele local, em 1825, pelas tropas imperiais. São estes os heróis republicanos tombados naquela longínqua data: Azevedo Bolão, Feliciano Carapinima, Francisco Ibiapina, Padre Mororó e Pessoa Anta. Esses personagens viraram nome de ruas e avenidas famosíssimas de Fortaleza. Cada rua, uma saudade. Cada saudade, uma volta ao passado. São lembranças marcantes que me acompanham desde os tempos de minha meninice. Voltemos à história do gigante.

O Passeio Público é um lugar belíssimo, divinamente arborizado. Fica numa parte elevada da cidade, de onde, à época, podia-se ver nitidamente a imensidão do Atlântico lá embaixo. Quando estávamos passando pela praça olhei fixamente para o mar e notei que Deus acabara de estender sobre as ondas encrespadas uma gigantesca esteira de rendas alvíssimas. As escumas saltavam sobre a crista das ondas azuis tingidas de sol. A mistura das cores explodia com a força frenética de um poema de Baudelaire ou de um galope à beira-mar improvisado pelo próprio Rogaciano. Diante de tanto alumbramento cheguei a imaginar por alguns instantes que o bramido das ondas era o grito do gigante se afogando nas profundezas do mar.

Meu amigo poeta tomou o rumo da Santa Casa de Misericórdia, deixando para trás a pequena floresta erguida ao longo da praça. As sombras dos baobás centenários e frondejantes se alongavam por quase todo o logradouro e por alguns instantes serviram de guarda-sol para nossas cabeças. Quando, enfim, chegamos à Santa Casa encontramos o gigante prostrado numa cama velha de ferro, estreita, desconfortável, que mal cabia seu corpo. Até aquele momento Rogaciano não havia nos revelado nada sobre a identidade do gigante. Ah, ia esquecendo de um detalhe importante: no trajeto para a Santa Casa, enquanto caminhávamos, o poeta falava que o gigante estava morrendo à míngua. E que iria fazer uma matéria denunciando o descaso das autoridades, exatamente pelo fato de elas terem deixado o gigante abandonado, em total estado de penúria.

Na Santa Casa já nos esperava o Eusélio Oliveira, nosso amigo e talentoso cineasta. Em dado momento Rogaciano mirou as feições moribundas do homem prostrado na cama e disparou: eis aí o gigante. Eis aí o Cego Aderaldo, o maior poeta popular do Brasil. O homem era mesmo grandão, gigante no tamanho e no talento. Tombado sobre aquela cama de ferro, ele trazia pelo corpo alquebrado e inerte a mão da morte preparando-lhe a extrema-unção.

Sua tez era pálida como um girassol machucado caído ao rés do chão. Respirava com dificuldade e não dava conta de nossa presença. Estava em estado vegetativo. Nós nos posicionamos na beira da cama. E ali permanecemos por muito tempo a refletir acerca da longa vida do poeta cego. Durante toda a sua existência de bardo repentista ele enxergou o mundo com os olhos afiados da alma As imagens daquele histórico momento iriam ficar registradas para sempre em minha mente. Rogaciano lembrou que era também importante registrá-las na memória de sua ágil máquina fotográfica. Uma maquinazinha chique, automática, avançadíssima para a época. Ele a pegou com bastante carinho e a colocou delicadamente em cima de uma mesa próxima à cama onde estava Cego Aderaldo.

Em seguida, correu para se juntar a nós: eu, Lêda e Eusélio. Clic, clic, solitária no seu canto, a máquina ia trabalhando soberbamente. Rogaciano pediu para eu segurar um dos braços de Aderaldo. Além de inerte, o braço estava frio como uma pedra de gelo. Antes de fazer as fotos, o poeta/jornalista teve o cuidado de colocar os óculos escuros para proteger os olhos cegos do poeta. Depois de uns dias recebi as fotos. Um monte delas. À medida que o tempo passava a coleção ia emagrecendo, pois toda vez que alguém me pedia uma cópia eu jamais negava, até que um dia vi que não tinha mais uma só foto em minhas bagunçadas gavetas. Isto me machucou muito.

Durante minha longa travessia de repórter entrevistei muita gente, algumas pessoas até muito conhecidas, como Pelé, Zagallo, Nilton Santos, Zé Keti, Dercy Gonçalves, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Luiz Gonzaga, Valdick Soriano, Ulisses Guimarães, Marco Maciel, Antônio Carlos Magalhães, Teotônio Vilela, o Menestrel das Alagoas, dentre tantas outras figuras. Confesso, entretanto, que não tenho comigo uma única imagem ao lado dessas criaturas. Guardo apenas uma ou duas fotos em que apareço ao lado de Patativa do Assaré e Orlando Tejo, meus velhos e estimados amigos. E tenho até uma certa frustração de nunca ter tirado um retrato com Luiz Gonzaga nas entrevistas que fiz com o Rei do Baião.

Mas essa foto com Rogaciano e o Cego Aderaldo é uma relíquia. Faz 53 anos que a perdi. Virei o planeta pelo avesso para tê-la de novo em minhas mãos. Falei com Deus e o mundo. Até com o Miguel Ângelo de Azevedo, o Nirez famoso, dono de um dos arquivos mais completos do país, eu falei. Mas tudo em vão. Contudo, eu nutria uma vaga esperança. Algo me dizia que a Helena Roraima, filha do Rogaciano, tinha essa foto. Mas como falar com a Roraima? Soubera que ela estava morando fora do Brasil, e assim, a cada dia, a cada hora, a cada segundo, as expectativas iam virando pó.

Falando outro dia pelo telefone com o meu amigo e poeta Vinícius Martins, que mora em Teixeira, na Paraíba, ele me contou que familiares do Rogaciano Leite (1920-1967) estavam participando de eventos por todo o Nordeste e outras partes do país em comemoração ao centenário de nascimento do notável jornalista e poeta. Perguntou se podia passar meu contato para a Roraima. Claro que pode, lhe respondi. Dia seguinte, 6 de novembro de 2020, a Roraima me ligou de Madri, a bela capital da Espanha, onde ela mora desde 2007. Foi uma conversa longa e emocionante. Durou 3 horas e ainda achei pouco. Ela agora é minha vizinha, pois estou ruminando as saudades do Brasil vivendo aqui na cidade do Porto, Portugal, terra de Almeida Garret e quase também do Eça de Queiroz, posto que o Eça é daqui de perto. O autor de O Crime do Padre Amaro, A Relíquia, Os Maias, e de outras obras essenciais, nasceu em Póvoa do Varzim, a um estalar de dedos donde moro. Aliás, o romance Os Maias, obra-prima do autor, foi publicado pela Livraria Lello & Irmãos aqui do Porto, em 1888. A Lello existe até hoje.

Roraima é uma doçura de pessoa. Engenheira civil, estudou cálculos, matemática, física, mas, retrato do pai, é apaixonada pela poesia. Ela traz viva na memória toda a extraordinária história do ilustre poeta e jornalista. Vamos relembrá-la um pouco? Lenda viva da Cantoria do Repente, Rogaciano nasceu poeta (1920-1969), na cidade pernambucana de São José do Egito, região do Pajeú das Flores, berço eterno da poesia. Aos doze anos já cantava em roda de amigos com os maiores poetas da região: Antônio Marinho e Severino Pinto. Atrevido, desafiou Amaro Bernardino. Tomou gosto e cedo, aos 14 anos de idade, pisou a estrada pelo sertão do Nordeste, mostrando a sua poesia. Depois de percorrer todo o Nordeste, com sua turnê de recitais, Rogaciano chegou em Fortaleza, onde se formou em Letras Clássicas pela Universidade Católica de Filosofia do Ceará em 1949 e virou jornalista de grande projeção. Vencedor de três prêmios Esso de reportagem, Rogaciano Leite é autor de Carne e Alma, clássico da chamada poesia erudita. É autor também de um clássico da MPB, Cabelos Cor de Prata, musicado por Sílvio Caldas.

Uma das principais avenidas de Fortaleza leva o nome do poeta, que está recebendo neste ano de 2020 inúmeras homenagens em comemoração ao centenário de seu nascimento. Roraima e seus dois irmãos, Roberto e Ricardo, estão preparando uma edição especial de Carne e Alma, obra original lançada em 1950 e Coração Sertanejo, com poemas inéditos. Muitas peças escritas por Rogaciano Leite, como, por exemplo, reportagens, crônicas, livros e poemas poderiam hoje estar totalmente desaparecidos não fosse o empenho e o carinho de uma pessoa muito importante em sua vida. Refiro-me à Senhora Maria José Cavalcante Leite, a dona Mazé, esposa do poeta. “Minha mãe era uma deusa. Ela passava horas a fio organizando tudo que se referia a papai. Eram recortes de jornais, fotografias, os livros, as poesias, as reportagens, tudo”, conta, emocionada, Helena Roraima.

Rogaciano conheceu dona Maria José em 1946, ainda quando ela era estudante do 1º ano do Liceu. Depois, em 1949, foram contemporâneos na Universidade Católica de Filosofia do Ceará. Ela se formou em filosofia e ele, como frisei acima, em letras clássicas.

O poeta viveu num tempo em que a boemia era olhada como algo normal e até bonito entre as pessoas. Bardo inspirado, rodeado de amigos, muitas vezes entrava pela noite ouvindo os belos acordes de um violão e admirando a lua beijar a areia branca da velha Praia de Iracema. Isto era muito comum no tempo romântico das serenatas. Mas Rogaciano Leite era um apaixonado pela família. Os dois se casaram em 1954. Tiveram seis filhos, dos quais três faleceram: Rogaciano Filho, (1954-1992), também poeta de muito talento, Anita Garibaldi (1957-2011) e Rosana Cristina (1963-1983). Roberto Lincoln, Ricardo Wagner e Helena Roraima são os outros filhos do casal. Eles estão aí felizes da vida tocando o projeto do centenário de nascimento do pai famoso. E lembram que além da educação, receberam muito amor e carinho dos pais.

Existe um velho e sábio pensamento que diz o seguinte: “Por trás de um grande homem, há sempre uma grande mulher.” Sem dúvida alguma dona Maria José foi esta grande mulher na vida do grande homem e poeta Rogaciano Leite.

Confira, a seguir, as duas primeiras estrofes do poema inédito Idílio que Rogaciano fez para Mazé:

Não penses nunca, estrela dos meus sonhos/que este amor arrefece e diminui!/Teremos que vencer os empecilhos,/por mais que o sacrifício continue…/Nossas almas casaram-se num beijo,/como casa o luar com a lua mansa./Foi a festa da virgem com o poeta…/Foi o sonho do amor com a esperança!/ Cada dia que passa, em nossa história/cresce mais um rebento de aventuras…/pelo céu de um momento nos teus braços/eu sofrera cem anos de amarguras!…/Os teus olhos são gotas de esperanças/no cristal dos meus sonhos multicores…/No ninho dos teus seios ofegantes,/o teu poeta feliz morre de amores!…

O belíssimo poema faz parte do livro Coração Sertanejo, que será lançado em breve.

Casamento de Rogaciano Leite e Maria José, 1954

Maria José e Rogaciano Leite Filho, Rio de Janeiro, 1955

Os filhos do casal aparecem ao lado da mãe. Da esquerda para a direita: Anita Garibaldi, Rosana Cristina, Ricardo Wagner (bebê), Roberto Lincoln e Helena Roraima

Uma raridade:

A foto abaixo é de 1967. Momento de uma visita ao lendário poeta repentista Cego Aderaldo (deitado na cama), que se encontrava hospitalizado na Santa Casa de Misericórdia. Da esquerda para direita aparecemos eu, Nonato Freitas, Rogaciano Leite e Lêda Maria (Gazeta de Notícias), além do cineasta Eusélio Oliveira.

5 pensou em “NONATO FREITAS – PORTO-PORTUGAL

  1. Caro Nonato!
    Que matéria brilhante. Escrita por quem conhece do ofício, e que tem a sensibilidade de um poeta cuja raiz se aprofundou nas terras férteis do Nordeste brasileiro. Parabéns, Parabéns, Parabéns.
    Forte abraço,
    Helder Azevedo

  2. Belíssima matéria, poeta e jornalista Nonato Freitas! Ao lê-lo nos transportamos no tempo e espaço…viajando nas suas lembranças…e na sua bela prosa poética. Parabéns!!! Gratidão pelas suas palavras e por esse registro histórico de dois grandes poetas e amigos, Rogaciano e Aderaldo.
    Em nome da familia de Rogaciano, Helena Roraima
    #CentenárioRogacianoLeite

  3. Muito bom!!!
    Excelente!!!
    Que riqueza de texto!!!
    Muito leve e valioso.
    O leitor faz uma “viagem” pelo tempo e desperta muita imaginação.
    Creio que foi um tempo que merecia ser vivido intensamente.
    Acho que era tudo mais simples, sem concorrências, com mais lealdade.
    Menos disputas, menos exibições…
    Fotos de alto valor estimativo.
    Muito sentimental.
    Lembranças vivas de coração.
    Memórias afetivas.
    Abs
    Amiga, Linda Maria
    Brasília-DF

  4. Pingback: Mãos pouco confiáveis - Blog do Ari Cunha

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