Há uma coisa que aprendi muito cedo, talvez antes mesmo de compreender inteiramente o significado da palavra: a minha vida me pertence. A mim. Não aos outros. Não à multidão. Não aos costumes. Não aos tribunais da opinião pública. Não aos salvadores profissionais. Não aos profetas de ocasião. Não aos donos da verdade. Não aos homens que, investidos de alguma autoridade que ninguém lhes concedeu, imaginam possuir procuração sobre a existência alheia. Minha vida é minha responsabilidade. Minhas escolhas são minhas. E meus princípios não precisam de um dono externo. Eis uma afirmação aparentemente singela, mas que, quando levada às últimas consequências, talvez seja uma das coisas mais subversivas que um ser humano possa dizer. Porque há gente que não suporta a liberdade dos outros.
Há indivíduos que toleram perfeitamente que você respire, desde que respire segundo a cartilha deles. Aceitam sua existência, desde que você pense como eles, vote como eles, ame como eles, trabalhe como eles, eduque seus filhos como eles, conduza sua família como eles, fracasse como eles e, sobretudo, não ouse construir uma consciência que dispense a aprovação deles. É aí que começa a tirania cotidiana. Não necessariamente aquela que chega de farda, decreto ou algema. Às vezes ela chega sorrindo. Vem disfarçada de conselho. De preocupação. De amizade. De experiência. De “eu sei o que é melhor para você”. E há uma frase particularmente perigosa escondida nesse repertório: “Se eu estivesse no seu lugar…” Não está. Nunca esteve. Não conhece exatamente o peso das suas noites, a anatomia dos seus medos, a extensão das suas renúncias, as batalhas que travou em silêncio, os erros que ainda lhe atravessam a memória, nem as circunstâncias que o obrigaram a escolher entre alternativas igualmente imperfeitas. Então, talvez fosse conveniente certa humildade antes de pretender administrar a existência de outra pessoa. Há uma arrogância quase metafísica em imaginar-se proprietário do destino alheio. Como se o outro fosse uma propriedade intelectual. Como se sua vida fosse um território sem soberania.
Como se pudesse haver um ser humano suficientemente iluminado para receber o privilégio de decidir pelo restante da humanidade. Não pode. Ninguém recebeu essa procuração. E eu tampouco concedi a minha. Isso não significa que eu seja infalível. Muito pelo contrário. Já errei. E, quando errei, o erro foi meu. Não atribuo meus fracassos às estrelas, ao governo, ao vizinho, à infância, ao azar, à sociedade, à lua, ao capitalismo, ao destino ou a qualquer outra entidade convenientemente abstrata que possa servir de depositária daquilo que não quero assumir. Circunstâncias existem. Injustiças existem. Acasos existem. Há coisas que nos atingem sem que tenhamos solicitado sua chegada. Mas existe uma fronteira que considero inegociável: o que faço com aquilo que me aconteceu continua sendo responsabilidade minha. Essa responsabilidade pode ser pesada. Às vezes, é brutal. Mas também é libertadora. Porque, no instante em que compreendo que minhas escolhas me pertencem, descubro algo extraordinário: ninguém pode viver a minha vida em meu lugar. Podem aconselhar. Podem criticar. Podem tentar convencer. Podem até abandonar-me por eu não obedecer àquilo que esperavam de mim. Mas decidir? Decidir é comigo.
E aqui talvez resida uma das maiores aberrações do nosso tempo: pessoas que exigem liberdade absoluta para si mesmas enquanto reivindicam autoridade moral sobre os outros. Querem autonomia para suas próprias escolhas e obediência para as alheias. Querem ser respeitadas em suas convicções, mas tratam a convicção divergente como heresia. Querem que ninguém interfira em suas vidas, enquanto passam o dia arquitetando maneiras de interferir na vida dos demais. É uma espécie peculiar de hipocrisia: liberdade em primeira pessoa; tirania na segunda. Não me interessa. Não quero ser senhor da consciência de ninguém. E não admito que ninguém seja senhor da minha. Tenho princípios. Não porque alguém os tenha imposto. Não porque estejam estampados numa cartilha distribuída aos homens como manual universal de comportamento. Tenho-os porque, ao longo da existência, compreendi — às vezes pela razão, às vezes pela dor, às vezes pelo erro — aquilo que considero digno de preservar. E, se algum dia eu trair esses princípios, não procurarei um culpado para dividir comigo a autoria. A escolha será minha. É precisamente aí que termina a desculpa e começa o caráter. Porque caráter não é aquilo que proclamamos quando tudo está em ordem. Caráter é aquilo que permanece quando seria conveniente abandoná-lo. É escolher a integridade quando a desonestidade parece mais lucrativa. É sustentar a palavra quando quebrá-la seria mais confortável. É reconhecer o próprio erro quando seria muito mais fácil fabricar um culpado. É dizer “eu fiz” quando todos ao redor estão procurando alguém para apontar. E talvez seja por isso que tanta gente prefira a tutela. Ser responsável assusta. A liberdade é sedutora até o momento em que percebemos que ela vem acompanhada de uma conta.
Toda liberdade verdadeira cobra responsabilidade. É muito mais confortável entregar a própria consciência a um líder, a uma ideologia, a uma religião, a um guru, a uma multidão, a um partido, a uma celebridade ou a qualquer outra autoridade providencial. Assim, se tudo der certo, a glória é compartilhada. Se tudo der errado, a culpa também. Eu prefiro o risco da soberania. Prefiro errar sendo dono das minhas decisões a acertar obedecendo cegamente às decisões de outro. Porque uma existência terceirizada pode até ser longa, confortável e socialmente aplaudida. Mas não é verdadeiramente sua. E há uma coisa que ninguém poderá fazer por mim: assumir a autoria daquilo que sou. Podem tentar me convencer de que sabem quem devo ser. Podem tentar me enquadrar. Podem interpretar minhas escolhas. Podem julgá-las. Podem até condená-las. Mas há uma porta à qual não concederei a ninguém a chave: a porta da minha consciência. Ela não está à venda. Não está aberta à licitação. Não pertence à maioria. Não pertence à minoria. Não pertence ao Estado. Não pertence à família. Não pertence aos amigos. Não pertence aos inimigos. E muito menos pertence à multidão. Pertence a mim.
E se isso incomodar alguém, talvez seja uma oportunidade extraordinária para essa pessoa perguntar a si mesma: por que a liberdade do outro lhe causa tanto desconforto? Talvez a resposta seja mais reveladora do que ela gostaria. Porque, no fundo, quem precisa desesperadamente controlar a vida alheia talvez esteja tentando fugir da própria. Eu, não. Tenho uma vida para viver. Erros para assumir. Escolhas para fazer. Consequências para suportar. Princípios para preservar. E um único proprietário autorizado a responder por tudo isso. Eu. O resto é opinião.
E opinião, por mais estridente que seja, continua sendo apenas opinião.
Minha vida é minha responsabilidade.
Minhas escolhas são minhas.
E meus princípios não precisam de um dono externo.
Não é arrogância.
É soberania.
E talvez a forma mais elegante de dizer ao mundo: “Você pode caminhar ao meu lado. Pode me aconselhar. Pode discordar de mim. Pode até me abandonar. Mas não tente viver no meu lugar. Esta vida já tem dono.”
Sensacional!!!