A PALAVRA DO EDITOR

Final da semana passado encantou-se um grande amigo meu, uma figura humana extraordinária, um sujeito excepcional.

Foi em Brasília, onde ele morava e onde começou a nossa amizade.

Passei a semana me lembrando dele e dos excelentes momentos que vivemos juntos.

Só hoje, uma semana após a sua partida, é que resolvi escrever sobre ele.

José Natanael Rodrigues de Moraes, o Natan, era uma figura que fazia parte da minha vida e pertencia ao seleto círculo de amigos que moram na minha estima e na minha benquerença.

Encantou-se jovem, com apenas 80 anos, e partiu com a mesma aparência jovial de quem sempre amou a vida e viveu intensamente.

Há 37 anos, em novembro de 1982, o grande artista Natan fez a capa do meu primeiro livro, A Prisão de São Benedito e Outras Histórias:

Na parte de baixo da capa, aí do lado direito, está a assinatura dele:

De lá para cá, o livro já teve várias outras capas, conforme escolhidas pela direção da Bagaço, que viria a se tornar a editora exclusiva da minha obra.

Em janeiro de 1983, quando comecei a escrever O Romance da Besta Fubana, me apropriei do seu nome e da sua naturalidade, abusando da nossa amizade, e coloquei-o como personagem principal do livro: General-Presidente Natanael, natural de Ingá do Bacamarte, Paraíba.

Um grande líder que viria a ser tornar o chefe inconteste da República Rebelada dos Palmares, conforme consta do meu romance.

E aprofundando ainda mais esta mistura de realidade com ficção, foi o próprio Natanael que fez, a meu pedido, as ilustrações que constam do livro, como grande artista gráfico que ele era.

Ilustrações que são partes integrantes e indissociáveis do enredo de O Romance da Besta Fubana.

Ele foi assim como que um co-autor do livro. Eu botei palavras e ele botou imagens.

Numa das ilustrações, Natanael, desenhado por ele mesmo, aparece ao lado de outra das personagens principais, a rapariga Amara Brotinho.

Os dois devidamente engalanado, ele como Chefe de Estado e ela como Primeira Dama do país dentro do qual acontece toda a trama do meu enredo.

A primeira edição d’O Romance da Besta Fubana foi publicada em 1984.

Já lá se vão 35 anos…

Leitor incansável, com uma fome insaciável de conhecimentos, Natanael dava conta da literatura do mundo todo e tinha em sua estante as obras dos grandes nomes da literatura do Brasil e do exterior. 

Um dia ele que me presenteou com os sete volumes de Em Busca do Tempo Perdido, e foi assim que fiquei conhecendo a obra do genial escritor francês Marcel Proust.

Éramos ambos, eu e Natan, cachacistas militantes, companheiros de copo e parceiros de vida.

Farreamos muito juntos, tomamos porres homéricos e juntos fizemos muitas presepadas em Brasília.

A foto abaixo é de maio de 2008, quando eu já morava no Recife e passei uns dias na capital federal, visitando meus filhos.

A última vez que nos encontramos pessoalmente foi em março de 2009, quando Natanael veio rever o nordeste e passou aqui no Recife.

Na foto abaixo, ele aparece na sala aqui de casa, brincando com o João, que tinha então 2 anos de idade.

Encantou-se um sujeito que vive lá dentro do meu coração e nas minhas boas lembranças.

Descanse em paz, seu cabra safado!

Um dia a gente volta a tomar umas bicadas aí num recanto do infinito.

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Fecho esta postagem com um texto que foi escrito por um amigo comum, o Eduardo Monteiro, e que foi publicado na página Notibras

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NATAL, IRREVERENTE, FOI MORAR COM SÃO PEDRO – Eduardo Monteiro

Natal na sua prancheta de trabalho

Brasília e o Brasil acabam de perder uma daquelas pessoas que só o tempo poderá lhe trazer os louros merecidos. O paraibano de Ingá do Bacamarte, José Natanael Rodrigues de Moraes, o popular Natal, foi reconhecidamente o que se pode chamar de artista plural. Com formação em desenho clássico, Natal transitava com desenvoltura e naturalidade desde a charge e a caricatura à mão livre, até complexos desenhos industriais, passando por técnicas como o bico de pena, aquarela e óleo sobre tela, com o mesmo indefectível talento.

Em seus 80 anos bem-vividos, dos quais 26 dedicados à Infraero, empresa administradora dos principais aeroportos brasileiros que viveu seus dias de glória até o final da década de 1990, Natal deixou sua marca. Nesse período ele desenvolveu inúmeros projetos na área de Comunicação Visual, Marketing Aeroportuário e Comunicação Social, sendo inclusive o responsável pelo desenvolvimento da logomarca original da empresa.

Intelectual polivalente, era capaz de emocionar uma plateia tanto dissertando sobre a obra de Machado de Assis ou Camões, como falando sobre as criações de Assis Valente, Vinicius de Morais ou ainda contando causos dos humoristas Geraldinho ou Mução.

O jeito nordestino ganhou tonalidades de carioca, resultado de seu estágio no Rio de Janeiro, em meados da década de 1950, quando morou na lendária Ilha de Paquetá e serviu, como militar da Força Aérea Brasileira, na Base Aérea do Galeão, e depois no antigo Ministério da Aeronáutica, localizado no Centro do Rio de Janeiro, então capital do país.

Nessa época, em suas andanças conheceu e chegou a frequentar a escola de Samba Mangueira, ocasião em que viu de perto nomes como Nelson Cavaquinho, mestre Delegado, Cartola e Jamelão, este seu companheiro eventual na barca que fazia a travessia do Rio até Paquetá, cantando a plenos pulmões sambas antigos da Verde e Rosa.

A Lapa, Cinelândia e Feira de São Cristóvão eram igualmente paradas obrigatórias em seus roteiros pelo Rio Antigo. O espírito de gozador inveterado, contrastava com a polidez de seu texto irrepreensível. Natal foi durante anos o editor do periódico Infra Informe, além de escrever artigos, editar jornais e revistas e ilustrar livros, como o consagrado Romance da Besta Fubana, de seu amigo pernambucano Luiz Berto. Ele também teve participação ativa nos três volumes do livro Memórias da Infraero, de autoria de Ottacillius Amazonas.

De gosto artístico bastante eclético, Natal lia e relia da Odisseia de Homero a Grande Sertão Veredas; ouvia de Rachmaninoff a Jackson do Pandeiro; e assistia e revia de Casa Blanca às comédias do Mazzaropi. Para completar sua polivalência, na gastronomia também não hesitava em saborear com o mesmo afinco, tanto uma suculenta rabada, como uma tradicional macarronada com frango.

Além dos livros, discos, pincéis e lápis, outro instrumento inseparável era o taco de Sinuca, seu esporte preferido – odiava quando se referiam à Sinuca como passatempo.

Quando ia a São Paulo, não deixava de dar uma passada pelo salão do mais famoso jogador brasileiro do esporte, Rui Chapéu, que em 1986 e em 1987, venceu o inglês Steve Davis, então campeão mundial de sinuca.

Natal com o campeão de sinuca Rui Chapéu

O mestre Natal, cujo corpo foi cremado nesta sexta, 30 de agosto, em Valparaíso de Goiás, deixará muitas saudades, tanto por sua irreverência e senso de humor, como pela sua incontestável bondade em repartir de graça o seu grande conhecimento em diversas áreas.

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