MAURINO JÚNIOR - SEM CRÔNICAS

Há pessoas que não conversam; catequizam; não expõem ideias: distribuem mandamentos; não debatem: evangelizam; não argumentam: recitam; não refletem: repetem. E o mais curioso é que quase sempre se imaginam extraordinariamente livres. Vivemos uma era singularmente sofisticada na arte da domesticação. Nunca se falou tanto em liberdade, autonomia, pluralidade, consciência crítica e emancipação intelectual — e, paradoxalmente, talvez nunca tenha havido tamanho culto à obediência emocional, à filiação automática e à reprodução mecânica de consensos fabricados.

O homem moderno aprendeu a trocar algemas de ferro por algemas de aplauso. Antes, a submissão vinha pela força bruta. Hoje, ela chega perfumada de virtude, acompanhada de slogans, hashtags, manifestos, reuniões enfadonhas, discursos de auto importância e uma legião de pedagogos morais improvisados que decidiram, com espantosa generosidade narcísica, ensinar o restante da humanidade a existir corretamente. Chamam isso de conscientização. Muitas vezes, é apenas catequese social com verniz acadêmico. Há uma espécie particularmente fascinante nesse ecossistema: o missionário da opinião inevitável. Ele não aceita que discordes; ele tolera tua existência apenas enquanto assumes o dever moral de concordar com ele. Caso contrário, és declarado ignorante, alienado, retrógrado, elitista, radical, ingênuo, perigoso, confuso ou — esse clássico tão elástico quanto intelectualmente preguiçoso — “problemático”.

É admirável a criatividade vocabular de quem possui tão pouca tolerância ao dissenso. O catequista social não argumenta para compreender; argumenta para converter. Seu objetivo nunca foi diálogo. Seu objetivo é adesão. Ele entra em qualquer tema com o mesmo fervor burocrático de um funcionário espiritual encarregado de distribuir certificados de pureza ideológica: Se falas de arte, ele politiza; se falas de Ciência, ele ideologiza; se falas de música, ele sociologiza; se falas de silêncio, ele suspeita; se não falas nada, ele interpreta teu silêncio como posicionamento estratégico. Nada escapa.

A chuva precisa ter narrativa, a literatura precisa ter utilidade social, a música precisa servir a alguma bandeira, o pensamento precisa obedecer a alguma corrente e até o café, se der tempo, talvez precise declarar filiação ética. Falta apenas regulamentarem o bocejo. E talvez o façam em alguma conferência internacional sobre expressões faciais socialmente responsáveis. Há nisso uma comicidade sutilmente trágica, porque os mesmos que proclamam pluralidade costumam demonstrar profundo desconforto diante da pluralidade real. Gostam de diversidade — desde que ela venha cuidadosamente domesticada, higienizada e aprovada pelo departamento central das opiniões permitidas.

Divergência, para muitos, é linda em teoria e intolerável na prática. A liberdade é celebrada com entusiasmo quase religioso… até que alguém a exerça de maneira inconveniente. A partir daí, começam os rituais: vêm os olhares escandalizados, as correções paternalistas, as aulas não solicitadas, as pregações com ar de superioridade filantrópica, as exortações performáticas e os sermões laicos de quem se imagina guardião da sensatez universal. E é curioso como certos indivíduos combatem dogmas com o fervor exato de novos dogmáticos. É simples: mudam os altares e permanecem os sacerdotes. E então surgem os devotos da coletividade obrigatória: aqueles que parecem sofrer de urticária existencial ao descobrir que alguém pensa sem consultar tribos, partidos, bolhas, cartilhas, confrarias emocionais ou assembleias de aprovação moral: “Mas como assim tu não te alinhas?” “Como assim não te identificas integralmente?” “Como assim não assumes esse pacote completo de crenças?” Como se pensar fosse um serviço por assinatura.

Como se a consciência viesse em combo promocional. Escolha o plano ouro: indignações ilimitadas, opiniões pré-formatadas e direito a superioridade moral em horário comercial. Há algo quase cômico nessa fome de alinhamento. O ser humano, esse animal capaz de filosofia, astronomia, poesia, matemática e música, frequentemente prefere a segurança infantil de repetir o que sua tribo já mastigou. Pensar exige esforço e repetir exige apenas pulmões. E há pulmões heroicamente ativos.

Não tenho paciência para catequese social porque ela frequentemente nasce de uma arrogância cuidadosamente disfarçada de benevolência. Parte do pressuposto de que o outro precisa ser ajustado, educado, corrigido, enquadrado, orientado ou resgatado de si mesmo. É o paternalismo vestido de virtude. A tutela maquiada de empatia. A vaidade intelectual usando crachá humanista. Não raro, os grandes pregadores da tolerância demonstram uma intolerância notável ao pensamento independente. Falam em escuta, mas desejam eco, falam em diálogo, mas exigem adesão, falam em consciência crítica, enquanto punem qualquer consciência que critique o próprio catecismo. É uma engenharia social de sofisticação curiosa: convencer o indivíduo de que pensar sozinho é suspeito, e obedecer coletivamente é maturidade. Recuso. Não por rebeldia teatral, não por pose contrária e não é por fetiche de isolamento, mas, porque a consciência não foi feita para funcionar como rebanho ornamental. Gosto de pessoas que discutem.

Desconfio das que doutrinam. Respeito quem argumenta. Evito quem catequiza. Admiro quem pensa. Temo, intelectualmente, quem apenas reproduz. Porque a história humana — essa coleção gloriosa e desastrosa de civilizações, colapsos, ideologias, guerras e certezas pomposamente equivocadas — já ensinou o bastante sobre o perigo de massas apaixonadas demais por unanimidades. Toda catequese começa prometendo esclarecimento e muitas terminam produzindo obedientes… ou ignorantes.

Por isso, preservo com zelo quase litúrgico meu direito de discordar, rir, recusar, duvidar, contrariar, silenciar e pensar: Sem cartilha, sem coral, sem tutor moral, sem sacerdócio ideológico e sem fila para absolvição social. Não tenho paciência para catequese social. Se isso escandaliza alguns pregadores da pedagogia universal, paciência. Ou melhor: paciência é justamente o que eu não tenho.

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