Beatriz Azevedo de Almeida Santos
Os netos e bisnetos vão nascendo e nem sempre o avô vai podendo conhecê-los logo no berçário da maternidade. Alguns dos meus, só vim a conhecer depois de adultos, dado à distância dos lugares onde nasceram e vivem.
Aproveitando uma ida ao Rio, fui a São Paulo conhecer a neta Beatriz, filha de Luciene e do marido, meu primogênito, Carlos Eduardo.
Chegar em outra cidade surge logo a vontade de conhecer novos ambientes públicos, rever as ruas, dar uma olhadela nas livrarias e conhecer pessoas. Assim fiz. Aproveitei e comprei um livro.
No dia seguinte, pela manhã, reservei todo o expediente para a netinha. Pedi para assistir os noticiários da tv, enquanto minha nora e o filho foram trabalhar.
Aparelho ligado, Cid Moreira no ar, notei uma discreta conversa de Beatriz com a babá, solicitando alguma coisa que, a princípio não entendi.
Em instantes a secretária doméstica me sugeriu colocar filmes de desenhos animados. Ouvi quando a netinha pulou no sofá, toda contente, e apontou o dedinho para um videocassete: “As aventuras de Pluto”.
Pluto, o herói de Beatriz
Enquanto o desenho preferido da pequena Bia rodava na tela, aproveitei para dar uma olhadela no livro que comprei no dia anterior. Fiquei sentado no tapete e abri o livro, na maior “secura” para começar a ler a biografia de Assis Chateaubriand.
Numa folga da leitura, parei, a fim de lhe dar um beijo. Foi a senha que ela aguardava para iniciar um diálogo. E tinha razões.
Luciane me havia dito que sua filha gostava muito do cãozinho endiabrado da Disney, que fazia sua parte do universo da animação tradicional. Ele não era interpretado por um ator de carne e osso, como no cinema, mas sim por profissionais de voz, que chamamos de dubladores.
Ao longo dos anos, eles têm sido os principais responsáveis por dar vida aos sons, latidos, resmungos e expressões do Pluto. E tome prosa com netinha!
– Vovô, o senhor gosta do “Pluto”?
– Sim, minha filha, Gosto muito!
– Mas vovô, o Pluto “tá” aqui na televisão. Não “tá” no livro não!
Fiquei envergonhado. Fechei o livro e comecei a prosear com ela.
– Você gosta de morar neste lugar, minha filha?
– Gosto muito vovô. Tem até piscina! Vamos ver lá embaixo?
– Minha querida, você acha que tem alguém por lá?
– Tem vovô. Eu garanto!
Tentando escapar, argumentei:
– Mas hoje é segunda-feira, dia em que os rapazes devem estar limpando a piscina e o portão do jardim deve estar fechado.
– Mas vamos lá pra ver se tem alguém, vovô!…
Com esse povinho miúdo não se deve discutir. Fomos descendo no elevador e ela sempre se referindo ao tal Pluto. Deve ter visto o filminho tantas vezes que já estava com as histórias decoradas.
Apresentei-me ao Porteiro, informando que era avô da criaturinha. Telefonou e conferiu. Livre acesso. Abriu o portão da enorme área ajardinada onde estava a piscina. Deserto total. Nem o sol compareceu.
Seguimos para o amplo jardim próximo à piscina e depois que ela deu uma olhada geral, ficou meio desanimada ao notar que não havia pessoa alguma alí, como eu havia imaginado.
Olhou pra mim com uma carinha de desiludida e exclamou, dando um pequeno “escorrego” na língua pátria:
– É vovô, não tem “alguém” mesmo!

