MARCELO BERTOLUCI - DANDO PITACOS

Quem acompanha meus pitacos já sabe o quanto eu me espanto com gente que acredita que o governo ajuda os pobres, cuida dos necessitados e zela pelas criancinhas. Então hoje eu vou direto ao ponto.

O IBGE, que é um órgão do governo, publica estatísticas sobre um monte de coisas, incluindo a economia. Segundo ele, desde a criação do real, em julho de 1994, até o fim de 2019, o aumento médio dos preços foi de 513%, segundo um índice chamado IPCA – Índice de Preços ao Consumidor Amplo(*). Significa que se em 1994 você ia no supermercado e enchia o carrinho com 100,00, hoje para encher o mesmo carrinho você gasta 613,00.

Mas tem mais. O IBGE também mostra os dados que formam o IPCA agrupados em diferentes categorias. Há um grupo chamado “preços monitorados” e outro chamado “preços livres”.

Os preços livres são aqueles que estão sujeitos à concorrência e onde (teoricamente) o governo não se mete. Segundo o IBGE, este ítem engloba:

“Alimentos industrializados e semi-elaborados, artigos de limpeza, higiene e beleza, móveis, utensílios domésticos, equipamentos eletro-eletrônicos, automóveis, produtos de cama/mesa/banho, bebidas, roupas, material escolar, matrícula e mensalidade escolar, cursos, produtos in natura, alimentação fora de casa, aluguel, consertos domésticos, seguro de carro, conserto de carro, lavagem de carro, estacionamento, recreação e cultura, dentistas e todos os tipos de serviços pessoais.”

Já os preços monitorados são aqueles que só podem aumentar com autorização do governo, através das agências reguladoras ou do ministério da economia. Segundo o IBGE:

“Serviços públicos, taxa de água e esgoto, IPTU, gás de bujão, energia elétrica, ônibus urbano, ônibus intermunicipal, metrô, gasolina e óleo diesel, planos de saúde, tarifas de celular e de telefonia fixa, pedágios, remédios e outros produtos farmacêuticos.”

Observe que os ítens deste segundo grupo têm várias características em comum: são de consumo praticamente obrigatório; oferecem pouca ou nenhuma possibilidade de escolha; são fornecidos por grandes empresas (muitas delas estatais); e, mais importante, o governo impede ou dificulta o surgimento de novos competidores. Ou seja, estas grandes empresas desfrutam de um mercado garantido, praticamente obrigatório, e ainda podem posar de boazinhas fingindo que não aumentam os preços – é o governo quem estipula os aumentos.

No primeiro grupo os preços são definidos “pelo mercado”, o que para muitos significa que os “pobres consumidores” são explorados pelos capitalistas gananciosos. Já no segundo, o consumidor pode contar com o papai governo para lhe proteger, certo? Errado. Veja o gráfico abaixo:

Os preços livres estão em azul. Os preços monitorados estão em vermelho. Ou seja: os preços livres, sujeitos ao mercado e à concorrência, subiram 440%. Os preços monitorados, aqueles que o governo regula e onde o consumidor não têm liberdade de escolha, subiram 850%. Note que, excetuando o primeiro ano do real, quando o governo manteve os preços monitorados “congelados”, a linha vermelha sempre sobe mais que a linha azul. Repetindo: os preços que o governo “controla” sempre sobem mais do que os preços que estão sujeitos ao livre mercado (que no Brasil nem é tão livre assim).

Então, por favor, se você tem algum conhecido que gosta de repetir aqueles clichês de “se o governo não regular a economia, os pobres vão sofrer”, ou “o capitalismo precisa ser controlado pelo governo”, mostre este gráfico para ele.

(*) Obviamente, “consumidor amplo” não faz sentido. O índice é que é amplo, e deveria se chamar Indice Amplo de Preços ao Consumidor. Mas estamos em um país onde a língua culta está em extinção, e as regras gramaticais já são coisa do passado.

2 pensou em “NÃO, O GOVERNO NÃO PROTEGE OS POBRES

  1. Os preços livres estão sujeitos à concorrência, inovação, quedas de preços por melhoria de produtividade, livre escolha do consumidor, melhoria de qualidade e fiscalização pelos órgãos reguladores.

    Os em vermelho ou são monopólios estatais, oligopólios ou empresas concessionadas, que têm contratos reajustados.

    Nestas vermelhas (coincidência?) não tem concorrência, melhoria de produtividade e gravitam em torno do Poder de plantão. Seus custos só sobem e quem paga é o consumidor, sem opção.

    Paulo Guedes, o melhor ministro da economia de 2019 (globalmarkets), compara o gigantismo estatal a uma baleia, que está com uma série de arpões que devem ser retirados.

    O Sistema, que vive das tetas da baleia prefere ver uma crítica às empregadas domésticas, que ele não fez ou uma comparação dos funcionários públicos com parasitas.

  2. Sr. Marcelo gostei de suas explicações, simples e diretas.

    No seu gráfico ficou de fora as famosas loterias do cassino exclusivo da CEF.

    As apostas foram majoradas em 25% no final de 2019. As desculpas devem ser as de sempre ou seja, os preços estavam sem alteração há muito tempo. Não sei se no ramo das loterias tem aumento de “insumos” e se tem quais são.

    O mais interessante foi o estardalhaço feito pela imprensa no sorteio da mega-sena da virada do ano alegando que, o prêmio seria o maior da história, talvez sem querer esqueceram que o total foi acrecido de 25% numa canetada.

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