DEU NO JORNAL

Leandro Ruschel

Mais um capítulo da já conhecida novela Não Existe Esquerdista Grátis.

Desta vez, o protagonista é Wagner Moura — ator que, cada vez mais, parece confortável também no papel de militante político. Ao receber uma premiação como melhor ator pelo filme O Agente Secreto, ele decidiu usar o palco não para falar de cinema, mas para fazer propaganda política. Segundo ele, o Brasil teria vivido, durante o governo Bolsonaro, um regime fascista. Fascista, vejam só

Seria interessante, portanto, que Wagner Moura apontasse ao menos um caso concreto de censura ou perseguição política contra esquerdistas durante esse suposto “horrível regime fascista”. Um único exemplo já ajudaria. O problema é que o que se consegue demonstrar, com centenas de casos documentados, é exatamente o oposto.

Mesmo durante o governo Bolsonaro, foi a esquerda que aparelhou instituições, censurou, perseguiu e prendeu conservadores e opositores políticos. O próprio ex-presidente é hoje um prisioneiro político, acompanhado por centenas de outros brasileiros

O caso mais emblemático talvez seja o da cabeleireira Débora, condenada a 14 anos de prisão por escrever, com batom — algo que se remove com água e sabão — uma frase de protesto em uma estátua em Brasília. Uma frase irônica, sem palavrões, sem incitação à violência. Ainda assim, 14 anos de cadeia

Curiosamente, nada disso parece sensibilizar o ator. Também não houve, em seu discurso inflamado, qualquer menção ao Irã, onde centenas de pessoas são mortas e esmagadas por um regime brutal — regime, aliás, aliado do descondenado brasileiro. Descondenado este cujo governo ajudou a financiar o próprio filme, com um aporte de sete milhões e meio de reais, além de mais oitocentos mil reais liberados em janeiro para ações de promoção

Também não se ouviu uma palavra sobre a Venezuela. Nenhuma menção ao regime opressor que destrói o país. Nenhuma palavra sobre Cuba. Nenhum incentivo para que povos oprimidos se levantem contra ditaduras reais e atuais. Por que será esse silêncio tão conveniente?

Enquanto isso, Wagner Moura vive tranquilamente no “malvadão capitalista” Estados Unidos. O contraste é gritante. E o comportamento, além de cínico, além de degenerado, revela uma hipocrisia clara: a de quem se presta ao papel de garoto-propaganda de regimes autoritários enquanto posa de defensor da democracia

O ator defendeu ainda a importância de se fazer mais filmes sobre a ditadura brasileira — uma ditadura de meio século atrás. Mas fica a pergunta: não seria mais interessante, talvez até mais lucrativo, produzir filmes sobre a história recente do Brasil? Sobre um grupo político que saqueou o país, causou prejuízos bilionários e acabou amplamente anistiado pela Justiça?

Ou quem sabe um filme sobre o careca do INSS, pivô de um dos maiores roubos da história contra aposentados, desviando bilhões de reais e repassando recursos até para filhos de autoridades. Será que isso não renderia uma boa bilheteria? Ou então um filme sobre um banco responsável pelo maior rombo financeiro da história do país — mais de 40 bilhões de reais — que ainda contratou a esposa de uma das mais altas autoridades, pagando cifras astronômicas

Mas esses filmes dificilmente verão a luz do dia. Pelo menos não com dinheiro público. Porque, no fim das contas, já não estamos mais falando de arte. Estamos falando, pura e simplesmente, de propaganda política.

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