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Editorial Gazeta do Povo

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Dario Durigan vem tentando convencer o mercado financeiro de que Lula não tem nada a ver com a inflação e os juros altos

Dario Durigan está em campanha – não para si, mas para seu chefe. Catapultado ao comando do Ministério da Fazenda com a saída de Fernando Haddad para disputar o governo de São Paulo, Durigan foi encarregado por Lula de fazer a interlocução com o mercado financeiro e convencê-lo de que os juros altos, a inflação persistentemente acima da meta, a explosão da dívida pública, os recordes de endividamento e inadimplência, e os sucessivos déficits primários são culpa de tudo e de todos, menos do presidente da República e de sua gastança. Uma tarefa ingrata, sem dúvida; e, ainda que Durigan acredite piamente na lorota que vem contando, aqueles que ele deveria convencer vêm mostrando que não estão dispostos a acreditar no ministro.

Poucos dias atrás, durante um evento do Banco Santander, Durigan afirmou que, “se a gente pegar todas as Leis de Diretrizes Orçamentárias desde 2023, temos projetado um caminho para o superávit fiscal, desde sempre”. Se é que esse caminho existe, no entanto, o governo se desviou dele há muito tempo, pois o Brasil só registrou déficits primários desde que Lula subiu a rampa do Planalto, e o próprio Ministério da Fazenda estima que 2026 não será diferente. E isso, recorde-se, considerando que inúmeras despesas não são incluídas para efeitos de cálculo e cumprimento da meta fiscal, o que transforma o dado oficial em ilusão pura que a maioria dos economistas já nem considera em suas análises, como afirmou em novembro de 2025 Marcos Lisboa, que trabalhou com Lula no primeiro mandato do petista.

Mais recentemente, em entrevista, o ministro da Fazenda também tirou do governo a culpa pela inflação e pelos juros altos: “não é o governo que gasta, é a guerra feita pelo governo dos Estados Unidos no Irã, apoiada pelo bolsonarismo, que está trazendo aumento de preço no país”, disse, sem resistir à tentação eleitoreira de mencionar os adversários políticos de Lula. Esta é uma tecla em que Durigan vem batendo ao menos desde julho, quando disse algo parecido em outro evento do mercado financeiro. A este respeito, no entanto, muito mais certeiro tem sido o Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central; seus integrantes (todos indicados por Lula) de fato concordam que a guerra afeta os preços, e seria insensato negar essa realidade, mas recentemente eles têm sido mais explícitos quanto aos efeitos nefastos da gastança do governo. Desde junho, os comunicados e atas passaram a mencionar, como risco de alta para a inflação, os “estímulos à demanda agregada, em particular ao componente de consumo, que tenham como resultado o crescimento da atividade econômica acima do produto potencial” – uma referência direta às bondades eleitoreiras de Lula.

Não contente em vender ao mercado financeiro uma narrativa que não condiz em nada com o presente das contas públicas, Durigan também inventa um futuro em que um Lula reeleito conduzirá um ajuste fiscal. Aqui, o ministro terá de brigar com o próprio plano de governo do presidente-candidato, segundo o qual “o resultado fiscal virá, como fizemos até aqui, da retomada do crescimento econômico, do controle do aumento do gasto primário, investindo na melhoria da eficiência e da qualidade do gasto público, da promoção de justiça tributária e do combate aos privilégios e às distorções” – o “como fizemos até aqui” importa, pois, fazendo o que fez até aqui, o governo só colheu resultados negativos e aumento alarmante da dívida pública como proporção do PIB, apesar de bater recordes seguidos de arrecadação.

A resposta da “Faria Lima” ao discurso de Durigan tem sido pragmática: “precificar” a vitória do petista, elevando juros futuros e posicionando carteiras de modo a transformar limão em limonada, na medida do possível, diante da manutenção de uma política fiscal expansionista e que reduzirá o valor da moeda brasileira. Os poucos que falam em um ajuste durante um eventual “Lula 4” o fazem não por imaginar um petista subitamente convertido à responsabilidade, mas por julgar que a deterioração será tão severa que não haverá outra opção, como Dilma Rousseff teve de fazer em 2015 ao trocar Guido Mantega por Joaquim Levy. Como aquela história terminou, todos sabemos; acreditar que desta vez será diferente é ingenuidade pura.

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