Uma pequena tragédia banânica em estupidilhões
Em Banânia, país de geografia generosa, memória curta e vocação incurável para o disparate, governava um homem cujo nome parecia ter sido escolhido por uma comissão parlamentar depois de três meses de investigação e uma década de ressaca: Mula, o Pulha. Mula não era propriamente um estadista. Era uma ocorrência. Um acidente administrativo que, por alguma dessas perversidades que a democracia ocasionalmente permite, havia adquirido palácio, comitiva, discurso oficial e uma esposa que confundia a proximidade do poder com a imortalidade histórica. Sua Excelência tinha uma concepção bastante peculiar da República: o Estado era dele, o erário era dele, as instituições eram dele e, por uma extensão filosófica que faria corar os maiores pensadores da humanidade, o próprio povo também lhe pertencia.
Os cidadãos, por sua vez, podiam conservar a ilusão de que eram donos do país, desde que não ultrapassassem os limites da propaganda oficial. A democracia, para Mula, era uma coisa extraordinária. Servia para elegê-lo, legitimar-lhe as vontades e oferecer-lhe, de tempos em tempos, a oportunidade de explicar por que a culpa de tudo era dos outros. Quando funcionava contra ele, porém, transformava-se imediatamente numa conspiração de inimigos, ressentidos, desinformados e pessoas que insistiam, inconvenientemente, em ler os números.
Os números, aliás, constituíam sua maior inimizade. Mula possuía uma relação afetiva com o dinheiro público. Tratava-o com a intimidade de um velho amigo, a generosidade de um mecenas e a discrição de quem não deseja que terceiros façam perguntas desagradáveis. O dinheiro dos trabalhadores, dos aposentados e dos contribuintes em geral parecia-lhe uma espécie de herança ancestral, embora ninguém conseguisse identificar o testamento. Onde terminava a despesa legítima e começava a locupletação, ninguém sabia ao certo. As investigações, quando surgiam, eram recebidas com discursos indignados, declarações solenes e uma quantidade monumental de adjetivos.
Em Banânia, a indignação oficial era inversamente proporcional à disposição de prestar contas. E, quando o dinheiro não bastava, Mula descobria uma solução admirável: comprar apoios. Deputados, senadores e outras criaturas parlamentares, dotadas de coluna vertebral predominantemente decorativa, passaram a gravitar em torno do governo com a fidelidade de girassóis diante de um sol particularmente generoso. Havia os que apoiavam por convicção, os que apoiavam por conveniência e os que apoiavam porque a convicção, afinal, também precisava pagar as contas. Naturalmente, ninguém comprava ninguém. Eram apenas coincidências republicanas, afinidades programáticas, convergências de interesses e outras expressões delicadas que a língua portuguesa oferece àqueles que preferem não chamar certas coisas pelo nome.
O Congresso banânico converteu-se, assim, num estabelecimento de comércio político em que os princípios eram vendidos por atacado, as consciências vinham com desconto e a oposição, quando não conseguia impedir o negócio, exigia participar da comissão de vendas. Mula, satisfeito, contemplava a paisagem. A República funcionava. Ou, pelo menos, funcionava para ele. As instituições judiciárias também mereciam sua atenção especial. O presidente nutria por elas um interesse quase paternal, desde que aceitassem a paternidade. Gostava de magistrados previsíveis, decisões convenientes e interpretações constitucionais suficientemente elásticas para acomodar as necessidades do poder sem provocar hérnias na lei.
Não precisava, evidentemente, ordenar que tudo se curvasse. Bastava cultivar as circunstâncias adequadas, estimular as fidelidades certas e tratar como inimigo institucional qualquer um que confundisse independência com independência. A Justiça, em Banânia, continuava de olhos vendados. O problema era que, às vezes, alguém parecia segurar-lhe o braço e indicar-lhe discretamente o caminho. Enquanto isso, a primeira-dama vivia o seu próprio conto de fadas administrativo. Deslumbrada com a pompa, as recepções, os retratos, os títulos honoríficos e a proximidade dos grandes acontecimentos, caminhava pelos corredores palacianos como se a História tivesse sido criada para lhe fornecer iluminação favorável. Seu talento consistia em transformar a banalidade em solenidade e a solenidade em espetáculo.
Onde havia uma cerimônia, enxergava uma consagração; onde havia uma fotografia, vislumbrava a posteridade; onde havia dinheiro público, parecia existir uma fonte inesgotável de oportunidades para que o poder se contemplasse no espelho. Os dois formavam um casal admiravelmente compatível: ele julgava possuir o país; ela parecia convencida de que o país existia para ornamentar a biografia de ambos. Nenhum dos dois, entretanto, parecia ter percebido que a posteridade costuma ser uma senhora muito menos impressionável do que os bajuladores do presente. Foi então que a conta chegou. Não uma conta comum, dessas que um cidadão recebe ao final do mês e paga com o dinheiro que efetivamente ganhou. Banânia não tinha tamanha simplicidade contábil.
Era um rombo estupidilionário, uma cratera fiscal de proporções tão extraordinárias que os economistas precisaram convocar matemáticos, astrônomos e um exorcista para verificar se o déficit não havia ultrapassado os limites do universo observável. O Tesouro estava vazio, as despesas caminhavam de cabeça erguida e as receitas, coitadas, já não sabiam a quem recorrer. O governo havia conseguido a proeza de gastar hoje o que arrecadaria amanhã, comprometer o depois de amanhã e deixar aos netos uma fatura acompanhada de uma mensagem presidencial sobre a importância da esperança.
Mula olhou para os números. Os números olharam para Mula. Nenhum dos dois demonstrou compreender o outro: — Como vamos pagar isso? — perguntou alguém, numa reunião de emergência. O presidente franziu o cenho, gesto que em Banânia era imediatamente interpretado como profundidade intelectual: — Precisamos proteger os mais pobres — declarou. A frase foi recebida com aplausos cuidadosamente distribuídos. Era uma declaração comovente, sobretudo porque os mais pobres não estavam presentes e, mesmo que estivessem, provavelmente gostariam de saber como seriam protegidos de uma conta que não haviam feito. A solução começou a adquirir contornos previsíveis. Programas sociais poderiam sofrer restrições, benefícios seriam revistos, serviços públicos seriam submetidos a novos sacrifícios e o contribuinte seria convidado a compreender a gravidade da situação com a mesma serenidade com que se pede a um náufrago que economize nos movimentos.
A saúde, que em Banânia já não era exatamente saudável, recebeu a recomendação de fazer mais com menos. Hospitais deveriam descobrir a medicina da multiplicação dos recursos; profissionais, a arte de trabalhar sem condições; pacientes, a virtude revolucionária de esperar. A educação, por sua vez, foi informada de que precisava melhorar seus resultados. As escolas, algumas com estruturas dignas de uma escavação arqueológica, deveriam produzir cidadãos críticos, preparados e competitivos, embora lhes faltassem recursos, equipamentos e, ocasionalmente, a tranquilidade necessária para ensinar. Era uma proposta pedagógica ousada: ensinar excelência por meio da escassez e exigir resultados extraordinários de um sistema que recebia tratamento ordinário. Quanto à segurança pública, o governo preferiu não aprofundar o assunto. Em Banânia, a violência já possuía presença suficiente para dispensar apresentações. Os cidadãos aprendiam a calcular rotas, horários e riscos, enquanto os discursos oficiais calculavam índices, porcentagens e a melhor maneira de transformar a insegurança em problema estatístico.
O Estado continuava presente, naturalmente. Estava presente nas entrevistas, nos pronunciamentos, nos eventos e nas campanhas publicitárias. Nas ruas perigosas, nos postos de saúde lotados e nas escolas desassistidas, sua presença assumia formas mais abstratas, quase metafísicas. Era o Estado transcendental: ninguém o via, mas todos eram convidados a acreditar nele. Mula, contudo, não se considerava responsável pela herança que deixaria. Afinal, como poderia um homem que se julgava dono da nação reconhecer-se devedor dela? A palavra responsabilidade lhe parecia excessivamente pessoal. Preferia expressões coletivas, como circunstâncias adversas, desafios históricos, conjuntura internacional e legado de administrações anteriores. Se o problema era grande, a culpa precisava ser antiga; se a culpa era antiga, ninguém precisava estar presente para responder por ela.
E assim, entre explicações e aplausos, o presidente descobriu a mais sofisticada inovação de sua administração: era possível deixar uma herança sem possuir patrimônio, produzir uma fortuna de compromissos e chamar de legado aquilo que os herdeiros prefeririam jamais receber. A nação, essa velha senhora que pagava as despesas do próprio funeral, observava tudo com a paciência exausta de quem já ouvira promessas demais. Seus trabalhadores continuavam trabalhando, seus aposentados continuavam contando moedas, seus professores continuavam improvisando, seus profissionais de saúde continuavam resistindo e seus cidadãos continuavam esperando que o futuro chegasse sem a cobrança de juros. No Palácio do Assalto, entretanto, havia fotografias, cerimônias e discursos sobre o grande destino de Banânia. Mula ainda se imaginava proprietário de tudo. Sua esposa ainda contemplava o poder como quem contempla uma joia herdada. E o rombo, imenso, silencioso e democraticamente distribuído entre milhões de pessoas, continuava crescendo. Talvez um dia alguém perguntasse quem havia assinado aquela conta.
Talvez alguém investigasse os contratos, examinasse as decisões, rastreasse o dinheiro e distinguisse os fatos das versões oficiais. Talvez as instituições recuperassem a independência, os representantes se lembrassem de quem os elegera e os cidadãos descobrissem que uma República não é propriedade particular de quem ocupa temporariamente o palácio. Talvez. Em Banânia, a esperança era a última a morrer, principalmente porque o governo já havia contingenciado quase todo o resto. E Mula, o Pulha, ao deixar a cadeira presidencial, talvez finalmente compreendesse a diferença entre possuir uma nação e administrá-la. Mas não apostemos nisso.
Afinal, estamos falando de um homem que conseguiu transformar o dinheiro de todos em problema de ninguém e que, diante da conta, ainda procurava o nome do responsável. Procurava no Congresso, nas instituições, na oposição, na imprensa, na conjuntura, na História e até nos astros — embora, nesse último caso, os astros tivessem a vantagem de estar muito longe e não poderem convocar uma CPI. No fim, Banânia herdaria o rombo, os serviços públicos exaustos e uma coleção de pronunciamentos históricos. Mula herdaria a si mesmo: sua vaidade, suas explicações e a convicção inabalável de que fizera tudo pelo país. E essa seria, talvez, a parte mais cara de toda a herança. Porque o déficit podia ser medido em estupidilhões. A estupidez, não.
Para ela, infelizmente, Banânia parecia dispor de crédito ilimitado.