A J. Emídio Amaro
Ó minha terra na planície rasa,
Branca de sol e cal e de luar,
Minha terra que nunca viu o mar
Onde tenho o meu pão e a minha casa…
Minha terra de tardes sem uma asa,
Sem um bater de folha… a dormitar…
Meu anel de rubis a flamejar,
Minha terra mourisca a arder em brasa!
Minha terra onde meu irmão nasceu…
Aonde a mãe que eu tive e que morreu,
Foi moça e loira, amou e foi amada…
Truz… truz… truz… Eu não tenho onde me acoite,
Sou um pobre de longe, é quase noite…
Terra, quero dormir… dá-me pousada!

Florbela Espanca, Vila Viçosa, Portugal (1894-1930)
Florbela chama a morte.
Perdeu a mãe e o irmão; as pessoas que ela mais amava.
Passou pela vida e não se fixou a ninguém nem a nada.
O poema é linda forma (se é que isso é possível) de anteceder talvez a uma tentativa de tirar a própria vida.