ROQUE NUNES – AI, QUE PREGUIÇA!

Tinha 1,96 metros de altura. Crioulo convicto daqueles de retinir à luz do sol. Desabusado de boca, invencioneiro e linguarudo, o povo de Currais de Dentro não via a hora dele se tornar importante, coisa de secretário municipal, ou algo mais avantajado como deputado, ou senador.

Devocioneiro de São Bartolomeu conhecia toda raça de vento e era municiado das mais variadas rezas para cortar febre palustre, ou miasmas dos pântanos que rodeavam a cidade. Nunca ficara doente, até ria, pouco casista, dos casos de doença que ouvia ter na cidade. Para cada mal tinha uma receita certeira, uma garrafada bem preparada, principalmente para as pantaneiras muito comum na cidade. Dizia que, para febre palustre, tinha uma garrafada que era pior que coice de mula. A mezinha caía no covil da pantaneira e a peçonha da febre saia nas urinas.

Para o povo atrasado da cidade, que era Currais de Dentro, Miguel Rufino era uma espécie de santo milagreiro, doutor em poções e sinapismos e benzedeiro oficial que curava espinhela caída, leiteira virada, bicho de pé. Só não curava falta de donzelismo porque dizia que isso era igual bananeira. Uma vez que deu fruto, não tinha mais o que fazer.

Era, também, conhecedor de toda raça de assombração que existia no mato. Benzia encruzilhada, ou aceiro ofendido por visagem do mato, ou mangação de lobisomem. Aliás, conhecia toda a raça desses assombrados só pela marca do pelo. Desde os tubianos nanicos, até os barrosos, de porta de cemitério, daqueles garbosos que arrepiam só com o uivo empestiado. Nunca que Miguel Rufino ia tremelicar de medo por causa de lobisomem de beira de estrada.

Mas, como nem tudo são fl ores, num domingo, que pita cachimbo, Miguel Rufino sentiu no vazio das costelas, bem lá, no miolo da lombar, uma pontada dolorosa que foi evoluindo para algo mais sério. Firmado na sua jurisprudência de medicação natural, recusou-se a buscar médico da cidade. A malina desfez de seus medicamentos e toda a sua parentagem obrigando Miguel Rufino a buscar doutor formado, já que tinha ficado mouco e perdido a capacidade de cheirar. Foi convencido pelo compadre Abelardo a procurar ajuda do Doutor Orozimbo, médico novo, desses de canudo ainda molhado pelos esforços dos exames.

Chegou ao consultório do doutor, entulhando sala e saleta e quase danifica uma teia de aranha que era da especial predileção do médico. O doutor, todo cheio de salamaleques e donzelices espantou-se com aquele crioulo de dois metros de altura entrando em seu consultório. Olhou o sarro da língua, futucou o sovaco com o apurador de febre, ponhou uns gravetos nas ventas dele e apalpou as conchas das orelhas.

– Doutor, dou duas semanas para ficar livre dessa mazela! O médico, colocou o “mata piolho” debaixo do queixo e sentenciou. É, seu Miguel. Doença cavilosa, dessas que tiram o cheirar do nariz e o escutar das orelhas, mas vou passar um remédio aqui para o senhor tomar duas colheres no depois do jantar e, em quinze dias o senhor vai estar novo e cheio de energia como aquele cabrito da Arca do Noé.

Meio descrente, Miguel Rufino pegou o papel com aquela garatuja de médico que só Belzebu consegue entender e foi na botica do Serafim preparar a beberagem, que era mais amarga que fel de sogra depois de brigar com o genro.

Duas semanas passadas e bem contadas, o doutor Orozimbo encontra Miguel Rufino todo embonecrado e cacarejoso na feira da cidade, mais falante que candidato a deputado em busca de voto. Miguel Rufino ao ver o doutor veio cambaio, com todos os dentes gozando a alegria da cura e do bom serviço do doutor médico.

– Doutor, eu tenho que agradecer a poção que Vossa Senhoria me passou. Já cheiro e escuito tudo dereito, ingual quando eu era criança e vou lhe provar. Vou soltar um peido aqui, daqueles silenciosos, mas fedido o suficiente para espantar todo esse povinho daqui da feira.

E soltou aquela bufa triunfal, certeira e convicta. Aspirou parta sentir a catinga. Viu, doutor? O povinho não ouviu nada, mas sentiu a catinga e saiu rapidinho daqui de perto. Doutor Orozimbo olhou para o céu, colocou a mão no ombro de Miguel Rufino e disse confiante: passa amanhã cedo no consultório, vamos ter que trocar o remédio para poder curar os seus ouvidos.

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