CARLOS EDUARDO SANTOS - CRÔNICAS CHEIAS DE GRAÇA

Rua do Bom Jesus, pavimento com pedras holandesas

Do Recife altivo de ontem sempre haverá de partir um grito de guerra ou de rebeldia. Afinal somos o “Leão do Norte”. A revolta parece que está na alma das pessoas. Mas, creio que no espírito do recifense está a mania de recordar e louvar pessoas, fatos e os cantos da cidade.

Pelo menos, há sempre alguém com a força da palavra escrita, para mostrar que permanecem na memória dos livros e dos jornais independentes, não só os personagens notáveis, mas os modos e feitos de seus heróis sociais. Não me refiro aqui, desta feita, às nossas guerras de defesa, mas ao modelo de vida da distante época de 1930, a exemplo.

Na barra de rolagem de minha privilegiada memória vão surgindo lembranças de vários tempos. Mesmo antes do meu nascimento ocorreram coisas interessantes, bem diferentes do hoje.

Ouvi falar num Recife onde se chamava “Arrecife dos Navios”; da Casa de Banhos, da cidade cheia de palmeiras imperiais, da bucolicidade, de ruas estreitas e sem pavimento, dos sítios que se tornaram arrabaldes e hoje são bairros elegantes, aproximados pelos rápidos meios de transporte.

Percorrendo os tempos de ontem, lembro-me que havia hábitos interessantes. Nos restaurantes populares as pessoas saiam pela rua com um palito na ponta do beiço, após as refeições.

Os carros de aluguel, encontrados em várias praças da cidade, acertava-se o preço da corrida antecipadamente. Os paletós masculinos possuíam ombreiras. Havia camas-de-lona, dobráveis, também chamadas “camas de vento”.

Os dentes de ouro eram instalados com o nome de “coroas-de-jaqueta”. Os alfaiates modelavam as roupas no corpo das pessoas. Tudo sob medida. Havia lojas chamadas camisarias.

Lembro-me das pedras de pavimento vindas de Portugal e da Holanda, aqui chegadas como lastro dos navios, fixadas nas ruas do Riachuelo, Bom Jesus e várias outras. Retiraram os bondes mas deixaram alguns trilhos nas ruas para ativar nossas saudades.

Nos subúrbios distantes as “vendas” substituíam as lojas, apresentando vários produtos de uso doméstico, inclusive aviamentos, porque as costuras de roupas simples eram feitas em casa.

As lojas só eram encontradas no Centro da cidade e vale recordar seus nomes: “Regulador da Marinha”, especializada em joias e relógios; Joalharia Krause, Loja Sloper, Camisaria Aliança, Casas Ferreira, Casa Clark Calçados, Mesbla, Casas José Araújo, Casa Costa Campos, As Nações Unidas Tecidos e Casa Viana Leal.

Aos domingos era costume as famílias fazerem passeios pelas ruas Nova e Imperatriz, por ser um divertimento agradável ver as majestosas vitrinas das lojas mais “chics”. Na PRA-8, Rádio Clube de Pernambuco era bacana ouvir todas as tardes o programa “A “Hora Azul das Senhorinhas”, momento cultural dirigido pelo maestro Nelson Ferreira.

Os carros tinham pneus faixa-branca. As crônicas mais famosas dos jornais era assinadas por de Altamiro Cunha, Guerra de Holanda, Jorge Abrantes, Esmaragdo Marroquim, Valdemar de Oliveira, Dias da Silva, Isnard Moura, Dinah Silveira de Queiroz. Mário Melo e Paulo Malta.

A cada amanhecer escutava-se a “Ginástica no Lar”, pela PRA-8, aos toques do Piano de Antônio Paurílio. Quando as tardes iam embora as famílias católicas se concentravam para ouvir pelo rádio a: “Hora do Ângelus”, na voz de Abílio de Castro.

A cola de grude e goma-arábica eram os produtos para colar papéis, inclusive as máscaras para o carnaval, as quais se confeccionavam em casa. Os sapatos de duas cores, eram os preferidos pelos homens elegantes. Haviam pérolas nas gravatas e lenços perfumados nos bolsos dos paletós.

As Livrarias mais completas eram a Ramiro Costa e a Livraria Moderna. As propagandas – que chamávamos reclame – apareciam nos bondes. Algumas se tornaram inesquecíveis: “Vanadiol, o pleno vigor para seu corpo”; “Pílulas de Vida do Dr. Ross”, pequeninas, mas, resolvem”. .

O Vereador Alcides Teixeira, conhecido pelo seu programa de Rádio dirigido às vovozinhas, conseguiu licença provisória da Prefeitura e construiu o “Teatro de Emergência Almare”, que era todo de madeira e foi edificado na atual Av. Dantas Barreto.

Havia movimentadas disputas náuticas, aos domingos, na bacia do Capibaribe. Os relógios mais populares eram de algibeira e funcionavam sob corda. Os homens costumavam usar suspensórios nas calças. Os padres se apresentavam sempre de batinas pretas. Alguns homens elegantes usavam chapéus e bengalas.

As bocas-de-calça dos homens eram dobradas. Dos ternos brancos que faziam mais sucesso eram confeccionados com tecidos de linho irlandeses, marca “York Street”. Os ordenados dos funcionários das grandes empresas eram contabilizados pelo sistema “Holerite”. As cuecas eram costuradas em casa e se chamavam “samba-canção”. Os sutiãs eram conhecidos como “porta seios”.

Os vendedores de rua ofereciam pirulitos, confeitos de malva-rosa, doce-japonês e Bolinhas de Cambará.

Que Recife! Tranquilo, bucólico, cheio de sítios e arrabaldes, onde se chegava em bondes dolentes, que cantavam as rodas nos trilhos da Tramways. A maioria das pessoas se conheciam. Todos eram gentis. Polícia só funcionava como Delegacia, para registrar pequenos roubos. Não havia carros de Radiopatrulha nem crimes violentos.

O meu Recife se foi deixando apenas lembranças!

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