DEU NO JORNAL

Maria Lucia Victor Barbosa

Luiz Inácio da Silva, que adicionou ao seu nome o apelido Lula, pelo qual era conhecido nas lides sindicais e que serviria como traço populista aos seus futuros eleitores, certa vez se declarou uma metamorfose ambulante. Entretanto, será que ele mudou realmente?

De todo modo, segue a campanha baseada nas possíveis mutações de Lula trabalhadas pelo marketing. Ele é santificado. Sua imagem de “Lulinha Paz e Amor” é restaurada. Por um passe de mágica é agora um homem de centro-direita, praticamente um neoliberal. Um estadista a nível internacional. Comove por ser uma piedosa criatura de comunhão diária, que arrasta os joelhos nos confessionários. Contudo, corre atrás dos evangélicos além de ter apoio de grande parte da Igreja católica.

Mas voltemos ao tipo de metamorfose de Lula, que permite não mudanças normais de convicções, mas inconsistências, incoerências e camuflagens verbais. Tomarei alguns poucos exemplos baseados em fatos abundantemente conhecidos e divulgados à época.

Começo com um tema altamente complexo por suas implicações morais, religiosas e sociais: o aborto, que aqui não discutirei como questão em si, mas a partir das atitudes e pronunciamentos do candidato petista ao longo do tempo:

No início desta campanha Lula se manifestou a favor do aborto. Posteriormente, imagino que por correção do seu QG partidário, ele adoçou o tema que reaparece como política social. Ficou meio nebulosa a opinião do candidato, a qual é importante para conservadores, especialmente religiosos como os evangélicos. Façamos, então, uma pesquisa arqueológica às tumbas da história.

Em 1989 assistia-se ao final do governo Sarney, onde conforme expressão do sociólogo Hélio Jaguaribe, era evidente a “canibalização do Estado brasileiro”. Destacavam-se as performances dos Poderes Executivo e Legislativo para a formação de uma opinião pública capaz de vincular à classe política, de modo geral, antivalores como desonestidade, irresponsabilidade, corrupção, parasitismo e incompetência.

Dentro dessa conjuntura processou-se uma eleição para presidente da República, na qual concorreram vinte dois candidatos, excesso permitido por uma legislação pródiga em liberalidades para a formação de partidos. Entre os numerosos candidatos estavam Fernando Collor de Mello (PRN) e Luiz Inácio Lula da Silva (PT).

Collor vinha entre os últimos colocados na corrida eleitoral quando lançou mão de um expediente que até hoje deve ser considerado com revolta pelos adeptos do petista, mas que na época confrontou valores que, ao contrário de hoje, existiam.

O que aconteceu é que, ao se defrontar na TV com Lula, Collor o acusou de ter tido um caso com uma senhora, a qual engravidou e posteriormente mandou abortar. Ela confirmou o fato, mas se negou a fazer o aborto. Em que pese posteriormente Lula ter reconhecido a criança o escândalo na época gerou seus efeitos.

Em 17 de dezembro. Lula beijou a cédula na hora de votar, fez declarações de vitória e partiu num helicóptero para lugar ignorado onde pudesse aguardar o resultado das urnas. Nas ruas seus adeptos festejaram prematuramente sacudindo bandeiras vermelhas e emitindo o grito de guerra: “Lulalá”. Toda euforia, porém, se transformou em frustração, em amargura, em luto diante do resultado: Collor ganhou a eleição. E agora, Lula é contra ou a favor do aborto?

Não creio que naquela época a maioria das mulheres tenham ficado satisfeitas com a atitude machista do candidato. Dizem que atualmente o sexo feminino o adora. Mas não sei se por ato falho, por arroubo de campanha, por aceitar a violência contra a mulher, o petista disse com todas as letras o seguinte dando de novo trabalho ao seu comando partidário:

“Mão de homem foi feita para trabalhar, fazer carinho em quem ama, nos seus filhos, não para bater em mulher. Quer bater em mulher. Vá bater em outro lugar. Mas não dentro de sua casa ou no Brasil, porque nós não podemos mais aceitar isso” (Veja, 31/08/2022, nº 34). Pergunto: então, fora do Brasil pode?

Existem muitas outras metamorfoses ou mutações que vão e vêm, e que em outros artigos será interessante esmiuçar para entender se Lula mudou mesmo ou contínua igual a outros tempos. São temas relativos aos sem-terra, democracia, ideologia etc. Até o dia 30 deste mês dá tempo de examiná-los. Acredito que conhecer bem um candidato faz parte do ato de votar.

Um comentário em “METAMORFOSE AMBULANTE

  1. Eu já disse aqui e repito, o Cafajeste só tem compromisso com uma coisa: ele mesmo.

    Para atingir o poder, Elle faz qualquer coisa, passas por cima de quem quer que seja.

    Não existe caráter ou honestidade mínima que resista para alcançar aos seus objetivos.

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