CORRESPONDÊNCIA RECEBIDA

VIDA LONGA AO ESCOLHIDO!

Quanto mais eu me esforço para entender o comportamento dos povos que habitam este lado do planeta, mais me convenço de que quando o Criador expulsou o diabo do Paraíso, como retaliação o coisarruim estabeleceu um universo paralelo batizando-o de América Latina e Caribe. Ali criou seu império e o cobriu de trevas e, de lá, tem infernizado sua gente, sem trégua.

Tinhoso por natureza, tem como diversão essencial zombar da capacidade de reação dos latinos-americaribenhos e, de tempos em tempos, prepara um de seus emissários para assombrar alguma nação dotando-o de carisma envolvente, retórica fluente e falta de caráter indecente, traços predominantes da escória do caudilhismo populista que tem exercido ao longo de décadas intermináveis o mais absoluto, e aterrorizante, domínio sobre a região.

Pouco dados a fraquezas como a sensibilidade, por exemplo, seus missionários da redenção subjugam os órfãos da esperança e os reféns da necessidade recitando com raro talento a poesia libertária inspirada na promessa fraudulenta de vida farta que arrebata e encanta. No entanto, deixam-se possuir por um ódio incontrolável quando são confrontados com o poema rude da realidade crua cujas estrofes denotam num lamento triste o retrocesso inexorável que garante a certeza de uma morte lenta que humilha e desespera.

Como que catapultados das profundas da desolação, esses arautos do apocalipse surgem do nada espargindo a aura de redentores dos fracos e explorados, trazendo no afago premeditado a índole oportunista que os caracteriza e, no sorriso largo, a estreiteza da verdade que os fortalece. Manipuladores da emoção, seduzem as consciências, esvaziam as almas, ressecam a compreensão.

Nesse mercado de patifarias, sempre são pai de alguma coisa, depende do gosto do freguês.Tem o dos pobres, o dos descamisados, o dos expropriados e por vai. Nunca são filhos. Ainda bem, pois eu poderia ser acometido de uma súbita crise de descompostura e baixar o nível.

Infelizmente, essa tem sido a sina perversa desse pedaço de chão ao longo de sua história macabra, marcada pela ascensão de líderes opressores e sanguinários que têm na miséria social e na indigência intelectual do povo que oprimem a certeza do sucesso e da consolidação de suas vidas nababescas.

Tomo por óbvio que denunciar os efeitos devastadores da ação temerária de tiranetes que não desistem de nos aterrorizar, sempre será umdos recursos mais eficazes no combate a esses crápulas. Mas, que sempre fica a sensação de que tem ao menos o dedinho do cramunhão por detrás dos acontecimentos que incendeiam o centro e o sul do continente americano, isso é inegável, se não, vejamos:

A história tem nos mostrado que ao ditador, seja ele canhoto ou destro, comunista ou capitalista, o que importa é manter-se no poder e, de quebra, perpetuar-se como divindade no imaginário popular. Porém, quando, apesar de toda a pressão, repressão e perseguição, ainda assim a situação começa a sair do controle e, bafejada pelos ventos da democracia acena com o repúdio como desfecho ou descamba para o caos eleitoral, eis que sempre surge das catacumbas do insondável a figura do “acaso” para socorrê-lo. A ele, ou à sua causa. No mais das vezes, a ambos.

No Brasil do século passado, Getúlio Vargas despencava ladeira abaixo na credibilidade popular e a possibilidade de exilar-se no ostracismo era bastante palpável. Uma única bala foi suficiente para reconduzi-lo à galeria reservada aos imortais. Foi-se o homem, mas permaneceu intacto o “getulismo”. Na Argentina contemporânea de Vargas, configurou-se praticamente a mesma trama. Oferecer Evita em sacrifício não foi o bastante. Juan Domingo Perón precisou morrer para que o “peronismo” não perecesse. À sombra de Perón, floresce a não menos ordinária dinastia Kirchner.

Caminhando pelas estradas sinuosas desse raciocínio, não posso deixar de atribuir à eventualidade misteriosa a oportuna morte do ex-presidente venezuelano Hugo Chávez. Era visível o desgaste político do seu governo. A vitória apertada de seu lacaio Nicolás Maduro, apesar do uso inescrupuloso do aparato governista durante a campanha, da intimidação dos eleitores como forma de persuasão e até mesmo da fraude eleitoral, deixou evidente que o carisma do grande condutor dos latinos-americaribenhos rumo às maravilhas do bolivarianismo demonstrava claros sinais de saturação. Coincidência ou não, mais uma vez a casualidade se manifestou e o chavismo foi preservado e, para o delírio da patuléia, Hugo Chávez mumificado viverá pelo resto de sua morte.

Quanto à Cuba, tudo indica que essa entidade diabólica subestimou a vocação caudilhesca e a capacidade de resistir ao tempo de Fidel Castro e quando se deu conta do cochilo o domínio castrista sobre a ilha havia se consolidado de tal forma que dispensava sua intervenção para eternizá-lo como “pai da pátria”. Será que nesse universo nebuloso onde nenhuma possibilidade deve ser descartada, o insólito faz morada e a utopia nos convida ao desvario, o império indestrutível do homem que enganou o próprio senhor das trevas e esmagou o violento e poderoso Fulgêncio Batista estaria predestinado a conhecer o início do seu armagedon na arenga liberticida da dócil e frágil Yoani Sánchez? Esperto, o coizarruim não quis esperar para ver se surgiria mais algumas Yoanis e, adepto do risco desnecessário, levou “El Comaandante” para sua morada eterna. É mais seguro um pai de alguma coisa na mão, do que duas Yoanis sobrevoando.

Realmente, divagar num mesmo parágrafo sobre Fidel Castro e o diabo, o flerte com o delírio é inevitável.

Ainda por definição, parto do pressuposto que no Brasil o advento do lulismo só encerrará seu ciclo pernicioso com uma derrota fragorosa e definitiva nas urnas. Precavido com o surgimento de um certo Capitão Messias, o acaso, sempre ele, já deve estar se esgueirando sorrateiro pelas frestas das alternativas em busca do seu candidato a herói e tudo indica que não hesitará um minuto sequer em oferecer o escolhido à imolação caso o desenrolar político sugira uma derrocada eleitoral devastadora e sem volta. Posso estar enganado, é óbvio, mas tudo indica que neste Brasil, nas últimas três décadas moldado à bolsas e doutrinação, parte considerável da população, vítima de um ensaio de lavagem cerebral coletivo disfarçado de governo popular, já escolheu a quem reverenciar, se necessário.

Há que se ter um mártir à disposição para que a causa não pereça e o mito não caia no esquecimento. Este tem sido o roteiro perverso encenado nos palcos desse enorme teatro das lamentações chamado América Latina e Caribe cujo enredo narra a ventura poderosa de alguns e a desventura dolorosa de milhões. Alternam-se os atores que dão vida aos personagens, mas mantém-se intacto o script asqueroso que humilha e escraviza a platéia.

Entretanto, ainda que demande uma quadra de tempo mais dilatada, chegará o dia do ajuste de contas e as mesmas sociedades que induzidas ao engodo elegeram aqueles que se tornaram seus mais impiedosos algozes, cuidarão de apeá-los – a eles ou aos seus herdeiros políticos -, do poder encerrando definitivamente a longa trajetória atribulada de um conceito de governança promíscuo e corrupto assentado em um estado violento e autoritário que se tem notícia, remetendo-o à vala rasa da desimportância.

Aqui pelas bandas do Sul, pelo menos no Brasil a maioria demonstrou nas eleições presidenciais de 2018 que não tem tempo a perder com a perenização de mitos pré-fabricados, nem, muito menos, alimentar o oportunismo de mártires de ocasião. Que a saúde seja sua companheira, companheiro.

Vida longa ao escolhido!

1 pensou em “MAURO PEREIRA – ITAPEVA-SP

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