CORRESPONDÊNCIA RECEBIDA

FORA, PEDRO MULA!

Dia desses, fui surpreendido por uma correspondência que eu jamais imaginei que receberia. O remetente era ninguém menos do que João Loco, o terror dos animais e o amansador de político corrupto de Ribeirão dos Pradas. Não me perguntem como ele conseguiu o meu endereço. Como eu já disse, o ribeirãopradaense é mestre em desmoralizar o crível.

Entre outros assuntos, na missiva João Loco faz questão de afirmar que está preocupado com o meu sumiço de Ribeirão, fala de sua tristeza pelo fim da amizade com seu compadre Ado, do clima tenso da política local e da saudade das domingueiras futebolísticas. Impossibilitado momentaneamente de realizar outra expedição pelos meandros do imponderável que rege o cotidiano de Ribeirão dos Pradas para atender os reclamos do meu amigo, publico a íntegra de sua carta.

“Reberão dus Prada, hoji.

Prezadu prefessô Mauro Perera, tá grandi u falatóriu aqui em Reberão sobri u seu sumissu. Uns tão dizenu qui u sinhor levô grana du prefeitu Pedru Mula prá num vortá mais aqui i pará di pegá nu pé deli. Otros, tem certeza qui u sinhor afinô feiu prá prefessora Paula da Mata Barata. Eu aquerditu qui num é nenhuma coisa nenhotra.

Eu tô muitu tristi, prefessô. Num gostu nem di sialembrá, mais acunteceu uma fatalidadi qui mi dexô abatidu purdimais. U sinhor si alembra du meu cumpadri Ado? Intão, nóis era amigu desdi criançinha, inseparáver. Duma ora prá otra ele desatô a amizadi cumigu. I eu num tivi curpa, prefessô, eli qui é um lesado das idéia e malagradicidu.

É u siguinti: O Ado si inscreveu nu concursu organizadu pela prefeitura prá contratá umas pessoa prá sê pulicia secreta. Aí, intão, eli pidiu prá eu ajudá. Cumbinamu qui nu dia du exami nóis ia usá um daqueis apareius qui sempri tem nus firme di pulícia secreta, qui coloca um escutadô bem piquinininhu nuzovidu e fala nu relógiu. Eli ia falandu as prigunta i eu ia pesquisá no Gugo prá passá as resposta. Ia sê moleza i meu amigo Ado ia sê o premeru puliciar secretu de Reberão. O únicu pobrema é qui Ado é muito mais anarfabetu e lesadu das idéia du qui eu. Ispia só, prefessô, u qui acunteceu nu dia da prova:

Ansim qui entrô na sala, Ado disfarçô i si comunicô pramodi di testá us apareius.

– Alô cumpadri Juão, vosmissê tai?

– Alerta i vigilanti, arrespondi.

– Intão, pesquisa aí a premera prigunta: “Quar é a capitar da Ucrânia?

– Pesquisei, e rapidinhu retornei prá eli. “É Kiev, Ado”. Eli iscreveu na foia di resposta:

– É qui é, viado!

– Tá respondidu, cumpadri, dissi eli tudu alegri. Agora vai a segunda questão: “Iscreva argu sobri sua vida pessoar”.

– Essa num careci di pesquisá, falei preli. Iscreva sobri a Ana, ocê ta namorandu cuela, num tá? Capricha na iscrita e fala tamém da sua irmã Juliana, prá dá um crima di famía, isso amoleci u coração dus examinador.

– Grandi idéia, cumpadri. Feis posi di intelectuar, capricho na grafia i sapecô:

– Namorada de Ado, Ana mora na morada de Ado. Irmã de Ado, Juliana mora na morada de Ado. Ana e Juliana moram na morada de Ado.

– Todu cheiu di prosa pur iscrevê suzinhu aquela coisa doida sobri sua famiagi, Ado dispensô minha ajuda na prigunta siguinti.

– Cumpadri, essa eu num pricisu di vossa ajuda. É fácir.

– A prigunta era anssim: Acrescenti sua opinião pessoar à frase “Um coração imaculadu qui si abre para uma aventura nova jamais será u mesmu”. Sem perdê tempu eli mandô vê:

– Um cu tamém!

Comu o sinhor podi vê, prefessô, eu num atrapaiei in nada. Eu só quis ajudá aqueli ingratu. Atorduadu pur num passá no exami, vê só a carta desaforenta qui eli iscreveu sortandu a cachorrada toda im cima di eu:

“Ex-cumpadri Juão Locu. Num vô lhi desejá bão dia purquê já é di tardi i eu tô cum réiva du sinhor. Num cumungu mais da vossa amizadi i comu ex-comungadu, afirmu qui u sinhor é um traíra. Ficô mais qui craru qui naquela oportunidadi da prova, vossa inveja di eu sê um pulícia secretu us mau presságiu atraíra. Sinto dizê, mais u sinhor num é merecedor da minha amizadi qui era sincera i sua alegria nu finar da prova é prova di qui u sinhor a traíra. U cumpadri, meiór dizenu, ex-cumpadri, iscoieu a via da perfídia prá mi prejudicá. Ondi havia confiança só ficô decepção. Minha namorada Ana mi alertô da vossa mardade, mais só ela a via. Di uma veiz pur toda, risqui meu nomi du seu caderno, já num soporto u infernu… xepa seu, poparáporaí cuessa viadage. Tô cum cumichão dusinfernu di mandá o sinhor pra putaquipariu, mais num vô mandá im respeitu a cachacera da vossa mãe qui é finada. Otra coisa, o sinhor mi ingabelô quando mi cunvenceu que eu era intelequituar e eu, inocente, disrespeitei minha namorada e minha irmã chamandu elas di sapatão. Isso foi muita cruerdade vossa. I tem mais uma coisa. Mandei u sinhor, sim. Prontu, num passei vontadi! Num vô siqué mi dispedi, pois quem si dispédi qué vortá i iu disconjuru.

Num si fenji di surpresu. Qui si dani seu estupor. Ado”.

Mais, dexanu meus probrema particular di ladu, prefessô du céu, a coisa ta feia pru prefeitu Pedru Mula e pela premera veiz na história du municípiu us papudo dus Prada tão arriscadu di i morá na Papuda. U negóciu é u siguinti: Sob u lema “A cachaça é nossa!”, u maior orguio du nosso povu é a CAGA-DA (Cooperativa Agrícola Gotas do Alambique-Derivados Alcoólicos) qui fabrica nossa cachaça sagrada i sigundu eu fiquei sabenu u prefeitu andô fazendu umas trapaça das brava cuá impresa. Paresqui ele gastô um caminhão di dinheru púbrico num canaviar qui num valia nem siqué uma carriolinha i já si fala inté no fechamento da CAGA-DA. Eli podi robá u quantu eli quisé qui boa parti do povão num tá nem aí, mais si fartá cachaça a coisa vai fedê prus Prada, podi iscrevê! Tomara qui feda memu!

Prá terminá, inté purquê já tá duendu minha mão di tanto iscrevê, corri forti u disqui-disqui qui a Câmara Municipar aprovô a instalação di uma tar di CPI prá investigá as cagada du prefeito nas conta da CAGA-DA.

U sinhor pricisa vortá u mais rápidu prá ixpricá prá nóis u que qui significa a tar da CPI i contá detaies du resurtadu dessa isquisitissi. Eu achu qui é otro ingana troxa, mais é isperá prá vê u qui acunteci, né memu?

Inté.

Juão Locu”.

É, realmente, de acordo com as notícias enviadas por João Louco, a política está pegando fogo em Ribeirão dos Pradas. Urge que eu encontre coragem, tempo eu tenho demais, e dê uma passada por lá. Só a possibilidade de ver a rataiada se debatendo apavorada em busca de uma solução que evite impeachment do prefeito e a derrocada definitiva dos Pradas vale todo o desvario que a viagem exige.

Me aguarde, Ribeirão dos Pradas. Breve estarei por aí. Por enquanto, deixo ecoar pelas ondas extrassensoriais que me ligam aos pradaenses o meu solidário FORA MULA!

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