CORRESPONDÊNCIA RECEBIDA

A IGUALDADE, SEM COR NEM IDEOLOGIA

Dia desses, ao vasculhar meus guardados reencontrei um texto tratando de um vídeo publicado no Jornal da Besta Fubana em 2014, se não estiver enganado, dando conta da opinião corajosa de um jovem negro extravasando sua indignação com o indisfarçável viés eleitoreiro do programa de cotas nas universidades que, segundo autoridades federais de então, beneficiariam os brasileiros afro-descendentes. Minha alma se encheu de júbilo e eu tive a certeza de que nem tudo estava perdido naquele Brasil devastado por quase uma década e meia pelo advento do lulopetismo. Ainda havia luz a clarear nossa trajetória rumo ao aprimormento da igualdade social e suficientemente capaz de não permitir que caíssimos definitivamente no obscurantismo político e ideológico que nos atormenta desde a “redemocratização” do Brasil.

Sinceramente, eu ainda não consegui entender a criação daquele preconceituoso ministério da igualdade racial, órgão governamental disfarçado de secretaria que trazia no próprio nome a chaga do racismo, pois se partíssemos do pressuposto de que haviam raças a serem igualadas, mesmo que inadvertidamente estaríamos concordando que ao menos duas raças distintas conviviam em solo brasileiro. Presumindo-se que uma delas fosse a humana, permaneceria a pergunta inescapável: qual seria a outra a ser equiparada? A resposta, eu nunca soube. Talvez as ex-ministras Matilde Ribeiro e Luiza Bairros(in memorian) soubessem. O que eu sempre admiti como verdade é que sou branco por pura casualidade e brasileiro por mero capricho geográfico. Mas sou humano por imposição da raça. Da única raça. A humana!

Não podemos deixar de destacar, também, a pouca vontade de evitar um recrudescimento no relacionamento entre brancos e negros de duas personagens que chefiaram aquela Pasta.

Sem importar-se com as consequências, a então ministra Matilde Ribeiro não se constrangeu nenhum pouquinho ao afirmar que “não é racismo quando um negro se insurge contra um branco. Racismo é quando uma maioria econômica, política ou numérica coíbe ou veta direitos de outros. A reação de um negro de não querer conviver com um branco, ou não gostar de um branco, eu acho uma reação natural”. Engatinhava o preconceito do bem.

Já Luíza Bairros não deixou por menos e disparou: “Isso [ocupação de espaço pelos negros] provoca reação. Para muitas pessoas, parece perda de espaço. Isso demonstra como ser branco, na sociedade brasileira, implica em determinados privilégios em detrimento dos direitos dos negros em geral”. Por mais que eu procure ser isento, me parece, no entanto, que as declarações infelizes dessas duas senhoras denotavam a vontade de, antes de promover a igualdade, exercer a vingança. Mesmo que sem querer, a ministra se colocava à frente do seu tempo e dava início à sinistra prática do racismo reverso permitido.

Talvez premidas por contingências políticas e eleitorais, se viram obrigadas a amenizar a fúria que exalava de suas declarações e dar um tom menos provocativo às suas ações; no entanto, ainda assim era possível perceber o ranço racista que embasou a atuação daquela Secretaria desde a sua criação. Foi assim, tanto com Matilde Ribeiro que exortava o negro a se insurgir contra o branco, quanto com Luíza Bairros que conseguia enxergar padrões diferenciados de atrocidade na mesma miséria que flagela e mata os dois, sem distinção. E, pelo entrosamento entre o ministério e a presidência da República, tudo indicava que assim seria enquanto o PT estivesse no poder. E assim foi, aumentando o vazio social que segregava e humilhava não pela cor da pele, mas pela falta de moradia digna, pela ausência de uma educação de alto nível que privilegiasse o saber e dignificasse o mérito, pela devastadora falência do sistema de saúde.

Acredito que teria sido bem mais produtivo se as ex-ministras(secretárias) tivessem se despido de suas fantasias de justiceiras irrevogáveis e concentrado toda energia e recursos financeiros na promoção da igualdade social como único instrumento capaz de reparar distorções evitando, desta forma, que erros do passado pudessem justificar um acerto de contas no presente, com repercussões catastróficas no futuro .

Ao criar um ministério racista a partir da sua nomenclatura, segregacionista na ação e eleitoreiro na filosofia, o governo petista deu início a uma viagem insólita trafegando perigosamente pela contramão do bom senso. Flertou de modo perigoso com o imponderável, pois a igualdade, do modo que se propunha, poderia fugir do controle e transformar-se em núcleo oficial do ativismo racial.

Obstinado a perpetuar-se no poder a qualquer preço, não percebeu que o que os negros, e os brancos, menos precisavam era da fabricação em série de mitos de araque que só se sustentavam na propaganda oficial regada a bilhões de reais e cuja sobrevivência estava condicionada à intensidade da miséria que prostra e alicia, nem do surgimento de heróis de última hora em busca de notoriedade. Preocupado em aparelhar a máquina estatal não se permitiu enxergar que os brasileiros necessitavam era de um governo mais compromissado com a garantia de uma educação de qualidade que nivelasse por cima a garantia de oportunidades iguais, sem o cancro do paternalismo eleitoreiro nem, menos ainda, a chancela preconcebida da inferioridade intelectual. Os brasileiros clamavam era por um governo menos alinhado à bandalheira e distante da corrupção. Clamores ao vento.

Apesar do empenho, as ministras em tempo algum conseguiram colocar sobre meus ombros o peso de uma tragédia cuja responsabilidade nunca foi minha, menos ainda me transformar em cúmplice da insensibilidade que sempre foi delas. Jamais fizeram me sentir constrangido por ser branco, quanto mais envergonhar-me dos negros, e negras, que eu tenho a honra e o privilégio de ter como amigos, que, ressalte-se, não se permitem afastar um milímetro sequer das suas raízes, mas não abrem mão do talento natural que os identifica e ultrapassa em muito as fronteiras do business pigmentado da consciência companheira e se complementa por inteiro no orgulho de serem brasileiros. Todos os dias. Tampouco irão persuadi-los de que sou eu o inimigo a ser abatido.

Passados todos esses anos, seus argumentos vazios ainda são incapazes de me convencer que minha tez mais aclareada me faz diferente de outro patrício. Continuo acreditando que o que nos diferencia é o caráter, pois a retidão não é exclusividade nem do branco, nem do negro. Minha fé inabalável na possibilidade tangível de um futuro mais venturoso é saber que nesse quesito o povo brasileiro, desprezada a inútil relevância da cor, é infinitamente mais confiável do que aqueles que o governa.

Sob a mesma bandeira que dá guarida à nossa brasilidade, saberão conviver em paz brasileiros de todas as cores e crenças. Apesar das Matildes, das Luízas e dos Luizes!

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