CORRESPONDÊNCIA RECEBIDA

Caro Berto, boa tarde.

Tenha uma excelente semana, meu caro amigo.

Para quem já leu, serve como releitura. Para quem não conhece:

Conheça Ribeirão dos Pradas, antes que acabe!

Decepcionado com a bandalheira política e institucional que tomou conta do País, busquei refúgio nos grotões jamais palmilhados de minha insanidade. Lá, descobri Ribeirão dos Pradas, onde, vez ou outra, me recolho à procura de um pouco de paz e da ingenuidade perdida.

Conheça Ribeirão dos Pradas, antes que acabe!

A cidade de Ribeirão dos Pradas não consta nos mapas. Mas, segundo os pradaenses, há documentos comprovadores de sua existência. Suas autoridades têm se manifestado, indignadas, sobre essa injustiça.

Nesta Antares mais recatada, o insólito dita a regra.

Embora já apresentando sintomas da decomposição social imposta pela modernidade, como toda cidade interiorana tradicional a minha amada Ribeirão dos Pradas ainda cultiva as tradições e não enterrou por inteiro a simplicidade quase ingênua e o profundo apego à religiosidade de seu povo. Nem a indigência moral de seus políticos. Por lá, ainda existem pessoas que ousam ruborizar-se.

Talvez devido a uma falha geográfica, suas latitudes e longitudes são bastante distintas: de dia limita-se mais para o sul com um município rico e desenvolvido polo metalúrgico, conhecido como a terra das oportunidades, ou berço dos oportunistas. Aí é uma questão de ponto de vista. À noite, mais ao nordeste, confronta-se com um município famoso por produzir mães dotadas de pouco estudo. Essa condição diferenciada ainda gera muitas dúvidas quanto a origem do sotaque nativo. Uns juram que é do sul do Rio Grande do Norte, outros sustentam que é do norte do Rio Grande do Sul.

O total de sua população é desconhecido e a riqueza de seus políticos sempre esteve concentrada na exploração da boa fé da população. Politicamente moderno, às vezes tem eleições para prefeito e vereador e a educação de suas crianças é garantida por um complexo de duas unidades escolares. Pode residir aí o motivo do complexo de analfabeto que persegue os pradaenses. O serviço de saúde é prestado por três farmacêuticos autodidatas e um curador muito conceituado. Suas garrafadas fraudulentas mantêm sua vida nababesca.

Seu prefeito, que está no quarto mandato consecutivo, é o Comendador Pedro Mula Prada, que por conveniência eleitoral adicionou ao seu nome o apelido Mula, adquirido ainda na sua mocidade quando liderou uma meia dúzia de sindicalistas pouco dados ao hábito de trabalhar. É sucessor de seu pai, que foi sucessor de seu avô, que sucedeu seu bisavô, Coronel Boanerges, fundador do município de Ribeirão dos Pradas. Até hoje permanece o mistério acerca do passado e da origem do sobrenome do coronel.

Existe uma versão não oficial e sigilosa, afirmando que há mais de 150 anos o deus das cores escolheu o ribeirão que corta o município para ser a nascente do arco-íris e como medida de segurança enviou um duende para proteger o pote de ouro. Para alimentá-lo, mandou também uma vaca. Sozinho naquela vastidão, o guardião da panela dourada começou a sentir-se incomodado com o sacolejar provocante e o peitoril de quatro pontas de sua companheira de vigia. Embora tenha lutado desesperadamente, sucumbiu aos instintos carnais. Numa estrelada noite de lua cheia acercou-se sorrateiro e empurrou a oferecida da vaquinha para o primeiro barranco que enxergou. “Tudo bem que eu sou um gnomo, mas ninguém é de ferro!”, justificou-se. Vencido pela lascívia, sapecou a coisa.

Depois de dois anos de gestação, em seu último suspiro de vida a pervertida expeliu o fruto do pecado que habitava suas entranhas corrompidas, livrando-se daquilo que viria a ser o fundador do município de Ribeirão dos Pradas. Irado com a luxúria dos seus enviados, o senhor dos vitrais determinou que aquele pobre inocente jamais soubesse que era o resultado do cruzamento de uma vaca despudorada com um anão tarado, abandonando-o à própria sorte. Especula-se que foi adotado por uma família cigana que lhe deu o nome Boanerges. Adulto, encantou-se por um indiazinha muito dadivosa de nome Irirí, filha do temido Índio Ota, chefe da tribo dos Irarás, dando início à sua prole degenerada.

Segundo historiadores renomados, o sobrenome Prada foi anexado à família somente depois que Prosdócimo, o filho primogênito do fundador, juntou seus trapos com a dona da Companhia Prada de Diversões, uma espécie de bordel itinerante. Sabe-se apenas que seu nome de guerra era Pedra. Seu nome de batismo nem ela mesma jamais soube, até porque nunca fora batizada.

Conhecido nas redondezas como “um berreiro à procura de um sobrenome”, o primogênito do Coronel Boanerges não pensou duas vezes. Casou-se com a bem sucedida empresária do setor de costumes formando o casal Prosdócimo Prada e Pedra Prada, iniciando, assim, a saga sesquicentenária do clã que, com o decorrer do tempo, se apossaria indevidamente de mais da metade do município. Hoje, os Pradas são proprietários de praticamente tudo que dê dinheiro. Ou são donos ou têm participação. O prefeito, por exemplo, tem um grupo de empresas formado por uma funerária, uma emissora de rádio e um jornal.

Dia desses, recebi uma propaganda da casa de luto através do sistema mala direta, que na sua parte frontal exibia a seguinte mensagem: “Leia! É do seu interesse”. O teor era mais ou menos assim:

FUNERÁRIA BOA MORTE

“Seu azar, nossa sorte!”

Prezado Mauro Pereira,

Não perca a grande queima de estoque da Funerária Boa Morte!

É a quinzena Maluca do Comendador Pedro Mula Prada (santo homem)!

Caixão com três furos de cada lado, por menos da metade do preço! È isso mesmo! 70% de desconto no modelo RIP 171, com exclusivo ar refrigerado!

“Só quem já enterrou mais da metade de nossa população está preparada para oferecer carregadores de caixão vestidos de acordo com a importância do defunto e carpideiras de alta performance”.

Mas aproveite. Essa moleza tem prazo para acabar!!

OBS.: O pagamento é adiantado e em espécie. O Comendador é um santo homem mas não é otário.

Até hoje ainda guardo essa maravilha do marketing fúnebre.

A emissora de rádio e o jornal são a galinha dos ovos dourados do chefe do Executivo, pois, juntas, significam a chave que dá acesso à Tesouraria da Prefeitura.

A ZYW 17,1 e meio!, atende pela alcunha de Alvorada FM, operando em uma área de cobertura que não chega a 500 metros. Ainda bem, pois isto significa que a imensa maioria dos pradaenses está a salvo de sua programação altamente nociva à intelectualidade. Seu diretor é Maikon Chancce, irmão de Nilsen Chancce, o único locutor da emissora.

Há vários meses Nilsem Chancce anuncia a estréia do primeiro informativo radiofônico da cidade. Com sua inconfundível voz de animador de quermesse todo dia, invariavelmente, ele vocifera: “queridos ovintes, não perca. Em breve, no éter e ao vivo, pontualmente às uma da tarde, o pograma jornalístico “Notícias das Doze e Trinta”. O jornal de intregação municipal! Sob os ospícios da Funerária Boa Morte, Seu azar, nossa sorte. Caixão RIP 171, você ainda vai ter um!”

O jornal, por sua vez, sempre me deixou intrigado. Certamente é o único diário do jornalismo brasileiro que circula três vezes por semana. No alto da página, em tinta vermelha e letras góticas da família Memphys negrito, o título pomposo: “Diário do Sudoeste”. Logo abaixo, a consumação da fraude: “Circula às terças, quintas e sábados”.

A seção de classificados tem um único anúncio. O do Salão de Cabeleireiro do Cauby. Nada além de duas frases refletem a qualidade do serviço prestado:

“CAUBY CABELERERO

CORTO CABELO E PINTO”

Nunquinha que eu vou lá cortar o meu cabelo.

Apesar de um tanto quanto diferente, Ribeirão dos Pradas resiste bravamente à ação predatória de seus fundadores e mantém uma atividade sócio-cultural-esportiva bastante intensa e diversificada.

A maior expressão musical é o trio “Os Três Pamperos”, muito famoso na região. No auge do sucesso, desgraçadamente um de seus cantantes faleceu de forma trágica. Consternados com a tragédia os outros dois muares decidiram homenagear o amigo querido mantendo o nome original do grupo, transformando-o, dessa forma, no primeiro e único trio de dois que já se te notícia.

O folclore resume-se a uma única personalidade. Desses bêbados inveterados e sem moradia fixa, Malufe passa o dia andando pela cidade gritando e cantando. Na última eleição municipal foi contratado por Vardo Gringo, candidato a vereador, para fazer sua propaganda política. Incontinente, Malufe desceu a rua principal do povoado berrando: “Vote no Vardo Gringo pra vereador. Ele é um home muito bão”. No final do percurso, foi abordado por Bodão, outro postulante à vereança: “Ô Malufe, eu te pago o dobro do que o Gringo te pagô pra você vortá pedino voto pra mim”, propôs Bodão, com o sotaque caracterísco. Sem pestanejar, e com um desempenho de fazer corar qualquer ideli, o arauto das desgraceiras comunitárias retornou esguelando: “Não vote no Vardo Gringo nada. Vote no Bodão. O mão-de-paca do Gringo me pagô só déis real. O Bodão me pagô vinte. Esse sim que é um home bão”! Os dois foram eleitos e Malufe continua com sua bebedeira crônica à disposição da melhor paga.

Fervorosa, a maioria católica é representada por um padre que se notabiliza mais pela interminável reforma da paróquia e pelo apetite voraz e insaciável por carne de vitela do que pela manifestação da fé. Por seu lado, os evangélicos têm na “Igreja Quadrangular O Mundo é Redondo” seu local de oração. Esta semana o pastor iniciou uma campanha de graças e bênçãos oferecendo aos fiéis milagres em até 18 pagamentos no cartão de crédito. Sem juros!

Nos esportes, brilhou o impagável e de triste memória GEG (Gloriozo, Esportes e Globalização), o primeiro clube-empresa de toda a região. Municípios muito mais ricos não tinham esse privilégio.

O GEG criou fama ao estabelecer o inacreditável recorde de em dois anos de atividade realizar mais de 50 partidas, não conseguir uma única vitória. A escalação da vergonha municipal era a seguinte: Zé Galinha; Gertrudo, Mango, Menestrel e Garnicera; Luizinácio, Zé Pijama e Roseano. Rumenigue, Pexinho Pingaiada e Direitero.

Os destaques resumiam-se a Rumenigue, um crioulinho muito bom de bola perdido no meio da mediocridade, e Direitero. Este, não pelas suas qualidades técnicas, que eram sofríveis, diga-se, mas pela sua honestidade de princípios. Era o único canhoteiro assumidamente destro!

Não suportando mais o rosário de vexames e temendo algum processo por difamação do município, o proprietário da empresa encerrou precocemente seu projeto de time. Era o fim do glorioso Gloriozo!

Em Ribeirão dos Pradas a beleza tem um conceito nada ortodoxo. Por aqui o bonito é ser feio. E a feiura, além de dadivosa, é democrática! Compartilham igualmente dos traços pessimamente desenhados pela natureza madrasta brancos, negros, descoloridos, ricos e pobres.

Dias desses aconteceu mais uma edição do “Miss Pradaense”, cuja renda foi revertida para o Fundo Social de Solidariedade. As oito maiores beldades foram reunidas para a disputa do título de “A feia mais bela da cidade”. A mais alta não media mais que metro e meio. A mais leve não pesava menos que sete arrobas. A louvar-se, apenas o caráter beneficente daquela celebração ao desvario. Com os oito fios-dentais que as formosuras desfilaram foi possível confeccionar e distribuir cobertores para quase todos os pobres do município, garantindo o sucesso da Campanha do Agasalho liderada pela belíssima primeira dama senhora Anacon Prada. A deslumbrante Anacon, filha de um fazendeiro falido da região, fora cedida em casamento ao prefeito como pagamento de uma dívida de jogo.

A gastronomia está representada na pluralidade singular do menu de seu único e solitário restaurante que, orgulhoso, divulga as delícias da culinária pradaense: feijoada completa e sem pleta, ambas acompanhadas do exclusivo caldo verde enriquecido com pimentão vermelho!

Mestre na arte da cafajestagem e sem filhos com idade suficiente para dar continuidade à dinastia dos Pradas, Mula já lançou a candaditura de uma paraguaia esquisita – mas muito bem treinada para obedecê-lo e manter a profanação do erário – de nome Nilma Rouskoffe, que apareceu recentemente no cenário político local. Sua emissora de baixo calão e seu diário de araque são responsáveis pela divulgação de pesquisas manipuladas. O pior de tudo, é que as possibilidades da galopeira se eleger são imensas.

Composta por sete vereadores venais e pouco afeitos à moralidade, a Câmara Municipal é uma espécie de antessala do Executivo. Muito bem ensaiados, fingem que fiscalizam enquanto o prefeito faz de conta que se preocupa.

E assim vou levando minha vidinha miserável e estagnada no tempo por estas paragens esquecidas pelo fundador do mundo. Para quebrar a monotonia, dia sim, outro também, um tal de Judas dá o ar da graça para cobrar um par de botas prometido pelo prefeito, ainda no seu primeiro mandato.

Vez ou outra, tomado pela indignação, decido não mais ir para Ribeirão dos Pradas. Mas, logo em seguida, me recomponho e me pergunto. Vou pra onde?

2 pensou em “MAURO PEREIRA – ITAPEVA-SP

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