CORRESPONDÊNCIA RECEBIDA

LULA GOVERNOU DE VERDADE UM PAÍS DE FAZ DE CONTA.

DILMA FEZ DE CONTA QUE GOVERNOU UM PAÍS DE VERDADE.

Estava cada vez mais próximo o dia do PT completar 14 anos no comando da política brasileira. A angústia era imensa, próxima do insuportável. E tornava-se desnecessário dispensar muito esforço para concluir que o saldo registrado naquele período nebuloso era extremamente negativo.

Desde a sua fundação, o partido dirigido com mão de ferro por Lula não desperdiçou nenhuma oportunidade para alardear Brasil a fora que agasalhava debaixo do seu manto vermelho estrelado o último reduto da honestidade e que naquela flâmula que simbolizava a decência petista também fazia morada o bastião derradeiro do virtuosismo ético. A arenga petista contemplava, também, o estágio mais avançado da competência administrativa. Entretanto, instalado no poder consumiu pouco mais da metade de quatro anos para mostrar que se tratava apenas de uma das maiores fraudes da história política brasileira.

O escândalo do mensalão abalara definitivamente suas estruturas, abortando o devaneio de ser a ilha de excelência que jamais fora e escancarando a farsa que nunca deixara de ser. Aturdidos, mas sem demonstrar o menor vestígio de constrangimento, seus dirigentes perambulavam pelos escombros da supremacia petista e rastejavam entre o que havia sobrado de sua arrogância estilhaçada. Encerrava-se ali o discurso de um partido que movido pela soberba subestimara sua própria capacidade de ser corrupto.

Devastado pelos efeitos daquele que viria a ser conhecido como o pai de todos os escândalos – o Petrolão ainda estava sendo gestado -, viu na política torpe do toma lá da cá e na prática sórdida do assistencialismo paternal as armas perfeitas para o enfrentamento da crise que o consumia. A reeleição de Lula era vital para a sobrevivência do partido.

Apavorados pela possibilidade até mesmo da extinção, os próceres petistas colocaram em andamento um plano arriscado e irresponsável. Tornara-se imprescindível e imediata a criação de um mito e o personagem que mais se adequava àquele enredo sombrio era o presidente vitalício da legenda. Premidos pela eleição presidencial que se aproximava deram largada a uma desesperada corrida contra o tempo. Para assegurar o sucesso da empreitada, estabeleceram que nenhuma possibilidade deveria ser descartada, nem mesmo a mais indecente .

Era óbvio que o status de ex-metalúrgico e filho de mãe analfabeta, dissociado de um espectro mais amplo e abrangente, não sustentaria sua manutenção no posto de comandante supremo da ressurreição petista. A reeleição viraria fumaça. Foi então iniciada uma das mais insidiosas campanhas visando a mitificação do ex-presidente. Bilhões de reais foram queimados em propagandas formatadas de acordo com os interesses eleitoreiros envolvidos. Os conteúdos corrompidos flertavam despudoradamente com o embuste, facilitando o ambiente perfeito para a instalação de um dos mais sórdidos balcões de trambiques e negociatas envolvendo o governo e o Congresso.

Na orgia institucional concebida sob a égide da promiscuidade, a ordem era cooptar e, sempre às expensas do erário, estabelecer a base governista com parlamentares que estivessem disponíveis. E a disponibilidade era ampla! Quase geral e irrestrita. Visando eliminar os entraves burocráticos, descartou-se daquela seleção desqualificada qualquer restrição de ordem ética, ideológica ou moral. Lula não se tornou um mito, mas, segundo dados manipulados de institutos de pesquisa que lhe consagraram 104% de popularidade, chegou bem perto disso.

Foi reeleito presidente muito bem agasalhado nas asas da vassalagem ordinária de deputados e senadores que não resistiram ao tilintar das moedas e, principalmente, respaldado na leniente atuação de uma oposição pusilânime e covarde. Com a colaboração indecorosa de jornalistas-militantes desprovidos de ética e traidores da profissão, o lulalato proliferou. Extasiados com o resultado do pleito, petistas e associados não manifestaram qualquer intenção de ao menos dissimular a expansão vertiginosa de programas eleitoreiros escondidos por detrás de ações supostamente sociais. Era a celebração da pilantropia federal.

Determinado em mostrar aos brasileiros que quem dava as ordens no País era ele, Lula decidiu transformar em sua sucessora uma distinta desconhecida da imensa maioria do eleitorado. Porém, fazendo jus à pecha de ser um dos políticos mais ardilosos desse torrão verde e amarelo, achou melhor calçar as sandálias da precaução e não apostar todas as suas fichas somente na sua inquestionável liderança política, nem na sua insofismável capacidade de convencimento, nem, menos ainda, no seu estraordinário patrimônio eleitoral. Matreiro, usou os mesmos ingredientes de campanhas anteriores. O ódio era o combustível que impulsionava aquela nau dos insensatos.

Relembro, em detalhes, que Lula não teve gabarito nem desprendimento para conduzir aquele pleito com um mínimo de isenção. Mandando às favas a integridade, comportou-se como um mero cabo eleitoral de alta patente. Ilustre, porém, nada mais do que cabo eleitoral. Tudo teria sido perfeito se um segundo turno rebelde e intrometido não se apresentasse para desilustrar a consagração definitiva do flagelo que veio de Garanhuns. Para o delírio do lulo-petismo conseguiu eleger Dilma Rousseff. Na campanha da reeleição, se houve alguma mudança no comportamento do deus de marta, foi para pior. Em meio à denúncias de fraude, o criador reelegeu a criatura.

Quanto a Dilma Rousseff, pelo que pude observar, a presidente dedicou o seu governo para celebrar a figura do padrinho político. Submissa, jamais questionou o rito da benção. Ao longo do seu mandato e meio, aceitou passivamente os termos pré-estabelecidos do contrato de locação da base que lhe alugou a sustentação política, fortaleceu e estreitou ainda mais o relacionamento com o assistencialismo e usou o mesmo expediente de enganar a população com a veiculação de propagandas caríssimas e de mensagens conspurcadas pela suspeição. Pressuponho que o único traço perceptível de originalidade durante sua temporada no Palácio do Planalto, ficou por conta de sua oratória, digamos, um tanto quanto peculiar.

De natureza mégala, Lula se apressou em confiscar o brasil maravilha que fundou em 1.º de janeiro de 2003, trancafiando-o em algum cartório desse brasilzão de meu Deus. Foi nas profundas dessa Shangri-Lá putrefata que tornou real o sonho da alma mais honesta, viveu freneticamente a ficção do Nobel de qualquer coisa e apascentou seu ego depois de ser aclamado pela subserviência áulica da militância remunerada – reforçada pelo engajamento expontâneo de oportunistas de estimação – como o presidente inigualável.

De cognição embaraçosa, não me causaria estranheza se ficasse constatado que, mesmo fora do poder desde 2016, Dilma Rousseff ainda não tivesse se dado conta de que por mais de meia década foi Chefe de Estado da oitava maior economia do planeta Terra.

Embora democraticamente eleita e legalmente empossada, Dilma Rousseff foi a presidente que o Brasil não teve.

Passados todos esses anos, ainda acredito que a dualidade única daquele interminável período de comando petista se resume no contraditório que envolve seus dois principais representantes. Lula governou de verdade um pais de faz de conta. Dilma fez de conta que governou um país de verdade.

Deixe uma resposta