CORRESPONDÊNCIA RECEBIDA

CHUPA, MAURO PERERA!

Determinado a encontrar um lugar onde não prosperasse a caça ao presidente da República patrocinada por grande parte da mídia, da justiça, da intelectualidade, dos políticos brasileiros, me aventurei por grotões nunca dantes palmilhados da minha insanidade. Lá, descobri Ribeirão dos Pradas, pequeno paraíso quase imaculado onde seus moradores, um tanto quanto diferentes, ainda ousam ruborizar-se, têm o analfabetismo encravado no DNA e cuja ingenuidade não os deixa perceber que são roubados há mais de 150 anos pelo clã dos Pradas, desde o Cel. Boanerges, fundador do município, até o Comendador Pedro Mula Prada, atual prefeito.

O episódio que relato abaixo, descreve a indignação da Professora Paula da Mata Barata, uma das habitantes dessa Antares mais recatada, onde o insólito dita as regras. Ainda por esses dias contarei a história de Ribeirão dos Pradas, desde a sua fundação até os dias de hoje, passando pela malta dos Pradas – fundadores da cidade – e pela imprensa, além de suas principais expressões políticas, sociais, religiosas, culturais, folclóricas e esportivas. Este é só um aperitivo do cotidiano de uma sociedade intelectualmente devastada, mas, à sua maneira, muito feliz. Conheçam um tantinho da bucólica Ribeirão dos Pradas.

Desanimado com a vergonhosa cpi da covid, criada pelo senado federal para proteger prefeitos e governadores companheiros envolvidos em denúncias de malversação de dinheiro público destinado ao combate à Pandemia, no feriado de 15 de novembro me tranquei no meu quarto, liguei minha chave de fenda sônica e me mandei para Ribeirão dos Pradas. Mal havia chegado e fui logo recepcionado com uma bateção de palmas infernal no portão. Era Samuca Chorro, um castelhano que entrega as correspondência no município. Sério, me cumprimentou.

– Tarde. U sinhor quié u tar du Mauro Perera?

– Sou eu mesmo. Em que posso servi-lo?

– Bão, pra mim u sinhor num serve pra porcaria ninhuma, mais eu tenho um biête pru sinhor. É da prefessora Paula. Sacou um envelope de dentro de uma mochila e me obrigou a assinar um recibo. Percebi uma indisfarçável hostilidade na sua resposta. Estranhei, mas preferi encerrar o diálogo e devolvi o recibo. Assunto encerrado, retornei à residência e dediquei-me à leitura da missiva da professora.

Eis o texto:

“Reberão dos Pradas, hoji.

Presadu senhor Mauro Perera.

Eu sei que cada veiz que vórta lá pro lugar daondi nunca divia di tê saídu, u sinhor isculacha cos reberão-pradaense falano prus vossus amigu qui nóis semus um povo isquisito i que aqui todu mundu é pingaiada. Gosta de falá, tamém, qui nóis é tudo anarfabeto. U sinhor divia arrespeitá mais as escôia du modivivê das pessoa qui o acoieru tão bem. Nóis semus feliz assim. O sinhor fica com sua gente disinvorvida, nóis ficamus com nossu povu feliz. Adescurpe o desabafu, mais tava intalado na minha guela.

Prá prová que nossus alunu são bastanti inteligenti, sim, eu tô ti invianu a cópia corrigida du exami finar dus alunu do 2.º grau, elaboradu por uma banca bastanti qualificada. Prá sua observação, to remetenu as prova dos quatru alunu que mais si distacaro entre os seis qui prestaru o exami e informo que todus foro aprovadu com lovor. Despois di cada resposta, (entreparentis) tem uma avaliação minha sobri o desimpenhu delis. Quarqué dúvida mi telefoni. O númuro tá no versu.

Atenciosamente

Paula da Mata Barata-Prefessora”

Meu sexto sentido ligou o sinal de alerta, mas evitando ser indelicado e, movido pela curiosidade, me inteirei de analisar o desempenho dos quatro alunos escolhidos a dedo entre os seis exaltados pela professora Paula.

Cabeçalho muito bem feito, trazia a indispensável foto do prefeito e o título:

“Exame final dos alunos do 2.º grau da rede municipal de ensino do município de Ribeirão dos Pradas”. Logo abaixo, as quatro questões selecionadas como as melhores. Porém logo de cara detectei um problema: faltava o nome de um dos alunos. Incontinenti liguei para a professora. No terceiro toque do telefone ela atendeu;

– Alô!

– É a Paula?

– Quem qui qué falá?

– Aqui é o Mauro Pereira

– Pro sinhor, intão, é Paula da Mata Barata-Prefessora. Não lhe conheçu u suficienti pra qui mi chame pelo primeru nomi. Mais fala. U que qui aconteceu?

– Calma, professora, não sei o motivo de tanta hostilidade. Eu jamais fui preconceituoso ou denegri a imagem do povo de Ribeirão dos Pradas, apenas relatei seu modo de vida diferente para os meus padrões, porém, sem jamais humilhá-lo e sempre respeitei suas escolhas. Quanto ao motivo do telefonema é que das quatro questões, a terceira está sem o nome do aluno. Por favor qual é o nome dele?

– Sá

– Só?

– Sá, surdo!

– Eu quero saber se é só Sá!

– Pois eu to ti dizeno qui é Sá só. Qué qui desenhi? Desacorçoado, agradeci, desliguei o telefone e voltei à análise das provas.

1) ALUNO: Marisol Josafá Adami

MATÉRIA: Música

P – A música que dá vida ao hino do nosso município foi composta pelo prefeito Pedro Mula e sua construção melódica original era de três notas musicais: Mi, Si e Dó. Porém, ao atribuir o valor de um tempo a mais ao Mi, que ficou acima do Si, a genialidade do prefeito Mula a reduziu para apenas duas notas, descartando o Dó. Então, como ficou configurada a nova estrutura musical do hino?

R – Mi, em cima de Si, sem Dó! (Maravia! Orguio da prefessora!)

2) ALUNO: Ciro Lappenna

MATÉRIA: Artes

P – Faça uma poesia sobre Ribeirão dos Pradas

R – Minha nossa!, to lascado! Eu nunca fiz poesia mais si eu num fazê eu ripitu di anu. Seji u qui Deus quisé.

Eu achu qui mi lasquei
Pois num sei fazê poesia
I eu nunca imaginei
Qui essi dia chegaria

Mais tem sempre a premera veiz
Si num fizé percu u exami
Poetas, relevi meu portuguêis
I discurpa si eu dé vexami

Prá poesia num levo jeitu
Pois mi farta inspiração
Meu consolo é trazê nu peitu
Meu amor pur Reberão! (Essi é u meu mininu. O futuru de Reberão ta garantidu!)

3) ALUNO: Sá

MATÉRIA: Inglês

P – Traduza para o português os três grupos de palavras abaixo

1) See You Pay Is Corn

– Seu Pai é Corno

– Né não. Eli ia sê si casassi côa viradera di borsa da vossa mãe, seu veiaco!

2) Bean Cant Do Seven The Fast

– Bem Canta Du Se vem Di Fastu

– Vô não, fio di uma jumenta. Quem vai é u bicha du matu du seu fio! Mardiçuento!

3) Wait Food Her Come Boss That

– Vaite Fod…

– Vai ocê, seu iscumungado. Canaia! I come bosta é a putaquipariu! Prefessora, tira eu dessi ixami purquê as prigunta é muito bobajenta i eu injiju respeitu! (Carma, as palavra paresqui é bobajenta mais nunsão não. A premera veiz qui eu li tamém fiquei nervosa, mais o professor zaroio falô o qui elas significa. È só um monti di palavra boba. Mais ocê tá aprovadu pur mostrá qui us nosso jovis num gosta di baxaria. Parabéns!)

4) ALUNO: Jeremia Primolatti Têxeira

MATÉRIA: Português

P) Faça uma breve redação sobre Ribeirão dos Pradas e sua gente

– Bão, vô iniciá pelu cumeçu por uma questão de principiu. Sô reberão-pradaense com muito orguio e nu tô nadica preocupadu com u que os otros pensa di nóis. Sê reberão-pradaense é privilégiu di pocos. U resto é só canela daquelis qui são obrigadu a vivê di acordu cos padrão di comportamento i di beleza qui eles inventaro i si tornaro refém. Aqui, nóis é livre prá sê o qui queremus sê i num perdemu tempu prá sabê si somus bunitu ô feio, pretu ô branco, ricu ô pobri. Só somus nóis.

Outro dia eu iscuitei nu meu radinho de pia qui lá onde vévi os inteligenti i os sabidus, o governu delis dizia qui país rico é país sem pobreza. Na minha inguinorância, eu sempri ficu cum pé atrais cos governu qui alardeia qui qué acabá coa pobreza. Nu mais das veiz elis acaba teno certeza qui são proprietário dus pobri e normarmente o qui sobra dessi teatru fuleru rechiadu di interesse pulíticu, pessoar i eleitorero é um pais pobri sem riqueza. Guverno arroganti, au invêis di acabá coa miséria, surrupia a dignidadi du miseráve. Guvernu qui conta muita vantagi du qui feiz certu, um tantinho, qué memo é iscondê o qui feiz di erradu, um tantão!

A prefessora falô qui é prá num inrolá, intão eu vô terminá. Antis, eu queria dizê qui si as pessoa do mundo desinvorvidu discarçasse as sandaias da soberba, elas ia vê qui nóis num qué sê meiór qui ninguém. Nem peor. Ia percebê, purexempru, qui felicidadi prá nóis num tem cor nem crassi sociar. Enfim, ia si dá conta qui num é nóis qui somus diferenti, elas é qui são inguar. (Aí eu chóro. Chupa Mauro Perera!)

Confesso que engolir a seco a provocação da professora foi menos sofrido do que tentar disfarçar a vermelhidão que teimava espalhar-se por todo o meu rosto. Depois de muitos anos, senti novamente minha face ruborizar-se. A única alternativa digna que me restou foi ligar para Professora Paula e falar da minha inveja de não ter nascido ribeirão-pradaense. Como consolo, fica a esperança de que o convívio mais estreito com eles me faça recuperar a simplicidade que perdi em algum ponto da minha arrogância septuagenária, e, se algum dia a possuí, reencontrar a humildade.

4 pensou em “MAURO PEREIRA – ITAPEVA-SP

  1. Mauro Pereira,

    Eis um daqueles textos que Sancho, apaixonado pelo “jogo das palavras”, lê e relê com gosto…

    E após reler e rir, aproveitei e “rerreli”, para rir mais um pouco. Genial o texto. Merece ser espalhado pelo oco do mundo, como diria Jesus de Ritinha de Miúdo.

    E o que mais dizer de tal crônica? Digo nada, apenas peço: que venham muitas mais.

  2. Pelo que vejo, até em Ribeirão dos Pradas chegou – e está atuante e soberana, gerando os seus frutos podres – a infame “pedagogia”(?) do fedorento Paulo Freire.

  3. Caríssimo Adail, estou honrado com o fato de você ter lido meu texto. Quanto a ameaça paulo freire, tenha certeza de que a professora Paula da Mata Barata jamais permitirá qualquer incursão freireana, ou similar, em Ribeirão dos Pradas.
    Receba meu agradecido e fraterno abraço.

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