Maria das Quimeras me chamou
Alguém.. Pelos castelos que eu ergui
P’las flores d’oiro e azul que a sol teci
Numa tela de sonho que estalou.
Maria das Quimeras me ficou;
Com elas na minh’alma adormeci.
Mas, quando despertei, nem uma vi
Que da minh’alma, Alguém, tudo levou!
Maria das Quimeras, que fim deste
Às flores d’oiro e azul que a sol bordaste,
Aos sonhos tresloucados que fizeste?
Pelo mundo, na vida, o que é que esperas?…
Aonde estão os beijos que sonhaste,
Maria das Quimeras, sem quimeras?…

Florbela Espanca, Vila Viçosa, Portugal (1894-1930)
Maria das Quimeras era a própria Florbela.
Ergueu castelos com flores de azul dourado em telas de sonho.
Quando acordou, deu-se conta de que já não havia nada.
Ela era a Maria das quimeras, sem as quimeras.
Florbela transcende ao tempo.