JOSÉ PAULO CAVALCANTI - PENSO, LOGO INSISTO

Nessa quarta, comemoramos mais um Dia do Advogado. E há duas maneiras de fazer isso. Uma é com a razão. Na linha de Baltasar Gracián (L’Homme de Cour), para quem “Não há vingança maior que o esquecimento”.

1. História. Fomos nomeados, os três, por OAB e ABI, com procuração para requerer o impeachment de Collor. De sexta a domingo, durante meses, nos reunimos na OAB Federal. Para redigir. O Ministro Evandro Lins e Silva, responsável na petição pela parte de Direito Penal, começou a ler o discurso que preparou para a sessão do Senado, “As relações entre Collor e PC Farias são espúrias. Um conúbio (casamento). Um contubérnio (concubinato)”. Silêncio na mesa. Ficou olhando e nós dois, parados. Fábio Konder Comparato, que redigiu as questões de Direito Constitucional, se vira para mim e diz “Fale, por favor”. E eu, que redigi o resto, protestei, “Melhor você, que é sobrinho dele”. Evandro parou de ler, indignado. “Lá vêm vocês, de novo, botar defeito no meu discurso”. “Não é isso, Ministro. Mas vai ter que escolher entre conúbio e contubérnio. Os dois, juntos, pode não”. “Mas a frase está pedindo esse reforço (repetiu, gesticulando, como se estivesse num júri). Acho que vocês nunca vão ser advogados de verdade. Que, para isso, precisam sentir gosto de sangue na boca”. Depois, mais calmo, riscou o conúbio. Collor acabou cassado. E vem à memória o último parágrafo de nossas alegações finais.

– No meio deste processo que abalou a Nação foi descoberto, no sótão obscuro da vida privada do denunciado, o seu verdadeiro retrato. Era Dorian Gray. A personalidade do jovem esbelto e formoso, de olhar altivo e gestos imponentes, apareceu na tela, pintada no seu lado moral, a horrenda figura da corrupção, do vício e da fraude. Todos puderam ver que a personagem pública era uma burla e o retrato escondido, a realidade.

2. Afetiva. Das lembranças que me voltam agora, curiosamente, nenhuma é maior que o som da frase “o pai ou o filho?”, que durante tantos anos ouvi no escritório. Em resposta à invariável pergunta, feita à telefonista, “Dr. José Paulo está?” Como meu pai já se foi, em uma clara manhã de setembro, sempre imaginei que, com ele, morreria também o som daquela pergunta singela ‒ e desde então lamentei, secretamente, não mais poder ouvir aquelas palavras. Ocorre que passou o tempo e presenciei a mesma telefonista repetindo a mesma frase – “o pai ou o filho”. Só então me dando conta de que ocupo, agora, o papel que um dia foi de meu pai. Tendo, no outro papel, meu filho José Paulo. Ouvir essa frase foi quase compreender o sentido da permanência, o curso natural do destino, e que a vida “vale a pena de viver e a dor de amar” ‒ palavras de Carlos Pena Filho (A Solidão e sua Porta). Se o destino conceder virá, depois, meu neto José Paulo. Até que, um dia, outra telefonista perguntará a outros amigos e clientes, “o pai ou filho?”. Com meu filho, então, em meu lugar. Depois, meu neto. E la nave va.

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