CORRESPONDÊNCIA RECEBIDA

P. B. P. B. P. B.:

(Prezado, Beatíssimo Professor e Babalorixá Papa Berto)

Segue mais uma porcaria gerada pelas circunvoluções cerebrais deste desvairado filho de nordestino que lhe escreve.

Se for de sua aceitação e concordância, tal porcana poderia ser publicada em nosso elevadíssimo Jornal da Besta Fubana, mesmo sabendo da degradação que tal publicação poderia acarretar à sua reputação.

Um grande abraço,

* * *

O DESASTRE DO “DRIVE-IN”

Existem certos favores que nunca devemos pedir na vida. E, se formos solicitados a concedê-los, muito menos devemos atendê-los.

Pelo menos foi essa lição que ocorreu ao meu estimado amigo Merval L., um jovem engenheiro, contemporâneo meu nos idos de 1970 na General Motors em São José dos Campos.

Explico.

Acontece que Merval era um moço de boa aparência, um jovem solteiro na casa de seus vinte e poucos anos, mais vidrado por mulheres que políticos por dinheiro público. Fazia um sucesso enorme entre a mulherada e adquiriu a fama de contentar qualquer uma delas para bem além de quaisquer expectativas. E o merecido sucesso chegou aos ouvidos da mais cobiçada pantera do pedaço, uma musa que deixava no chinelo qualquer gata de capa da Playboy.

Portanto não foi difícil ao Merval aprochegar-se à tal beldade para, digamos, propor uma conferência tête-à-tête sobre a filosofia existencialista das belezas e dos doces potenciais da anatomia feminina. Sua fama precedeu seu ataque, e após negociações que antecederam a lenga-lenga de sempre, combinaram confraternizar e unificar seus pontos de vista em um “drive-in” que havia entre São José dos Campos e Caçapava, o primeiro da região, o ponto máximo de encontros amorosos, já que à época a febre dos motéis não existia ainda.

Só que havia um problema, não de origem psicossomática, mas técnico-econômico: nosso Merval era dono de um simples Chevette Standard, um veículo totalmente desaconselhado para essa nobre empreitada junto a uma beldade de tão elevada extração. Foi direto ao seu chefe, Sr. José R., proprietário de um Galaxie de luxo, vidros ray-ban, transmissão automática, direção hidráulica, trio elétrico, rádio estereofônico e todos os paranauês que podiam existir dentro de um veículo daquele ano.

Ford Galaxie, o maior carro produzido no Brasil

Foi dura a negociação.

O Sr. José R. tratava o carrão com todo o carinho, limpava o interior com cotonetes e não permitia que nenhum plebeu lhe pusesse as mãos ao volante. Além de tudo, poderia recebê-lo de volta com manchas suspeitas nos bancos e cabelos femininos pelo carpete, o que poderia levantar questionamentos de sua esposa sobre seu fidelíssimo comportamento.

Mas o visível desespero do jovem engenheiro e a promessa de devolver o carro impecável e cristalino amaciaram seu coração e ele concordou em emprestá-lo após Merval jurar sobre a Bíblia da família que cuidaria mais do carro do que de sua própria vida.

Bem, eis o nosso gostosão no drive-in com a musa ao lado. Estacionou o Galaxie de ré o máximo que pode para que o para-choque dianteiro ficasse dentro do espaço fechado com uma cortina rústica. Aliás, o “drive-in” inteiro seguia o estilo rústico: treliças de madeira, cobertura de palha, paredes de tijolo aparente e algumas lâmpadas no teto com pouquíssima intensidade, já que amores clandestinos não são compatíveis com muita luminosidade ambiental.

Não vou entrar em detalhes, mesmo porque não os presenciei nem me foram contados. A conta, salgada, consumiu o valor das horas extras trabalhadas na quinzena, mas valeu a pena! Tudo correu maravilhosamente bem.

Quero dizer, maravilhosamente até a hora de sair.

Merval não era familiarizado com carros de transmissão automática. Com seu Chevette era mais fácil ligar e sair: dava-se a partida e em seguida uma pisadinha extra no acelerador para o motor não morrer, engatava-se a marcha e tudo bem. Acontece que a transmissão automática tem uma sequência: do P (Parking, estacionar) a próxima marcha é o R (Ré), depois o N (Neutral) e somente depois o D (Drive, dirigir). O Merval, ainda tremendo de felicidade, seguiu o procedimento padrão do Chevette: ligou e deu a aceleradinha no motor exatamente quando a alavanca estava no R, antes de alcançar o D. O Galaxie deu um pulo para trás, derrubou a parede do “drive-in” e junto com ela o teto de palha, toda a instalação elétrica das lâmpadas e as próprias. Um efeito dominó finalizou com chave de ouro o desastre. Toda aquela ala do drive-in veio abaixo, os curtos-circuitos pipocando um atrás do outro, faíscas por todos os lados e o banzé estava feito.

Vosmecê não tem ideia do furdunço que se seguiu. Os vizinhos desesperados, sem saber o que acontecia, imaginaram que o fim do mundo havia chegado. Homens escapulindo de cuecas ainda com os fuzis assestados para a batalha, mulheres de calcinhas, com os peitos balouçantes, saindo desesperadas de dentro de Fuscas e Chevettes gritando, confraternizações interrompidas nas vizinhanças da finalização, energia elétrica interrompida, bandejas de pratos e copos pelo chão e o dono do drive-in desesperado.

Não tenho informações sobre como foi a devolução do Galaxie e as convincentes alegações do Merval, e muito menos ainda sobre a piedosa aceitação delas pelo dono do carrão. Esse capítulo da história pertence aos profundos mistérios desta vida.

Daí em diante não consegui saber de mais nada, pois o meu querido colega Merval saiu da G.M. logo após aquele inocente contratempo, desaparecendo no mundo, por razões que me fogem à compreensão.

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