RODRIGO CONSTANTINO

A PEC vendida como conquista social pode elevar custos e reduzir empregos. Na disputa eleitoral, o populismo transfere a conta à sociedade.

A aprovação da PEC que veta a escala 6×1 no Senado, por 75 votos a 1, é o retrato acabado do populismo eleitoral brasileiro. A proposta reduz a jornada máxima semanal de 44 para 40 horas, garante dois dias de descanso remunerado e proíbe qualquer corte de salário. Soa generosa. Na prática, ignora o que entidades do setor produtivo vêm alertando há meses: o custo será alto, e quem paga é o conjunto da economia.

A Confederação Nacional da Indústria (CNI) estima que a mudança pode elevar os custos de produção em R$ 267,2 bilhões e pressionar os preços ao consumidor em 6,2%, em média. Roupas, calçados e itens de supermercado ficariam mais caros; o PIB poderia recuar cerca de 0,7%.

A Confederação Nacional do Comércio (CNC), federações estaduais da indústria e associações do varejo e de bares e restaurantes repetem o mesmo diagnóstico: sem ganho proporcional de produtividade, o efeito é compressão de margens, alta da informalidade, risco maior para micro e pequenas empresas e, no limite, menos emprego formal. O Congresso optou por não ouvir. Preferiu a narrativa do “tempo para viver”. Alcolumbre se gabou de ter conseguido aprovar a medida eleitoreira que ajuda Lula.

O governo petista transformou a pauta em bandeira de campanha a onze dias do segundo turno. Transformou um tema trabalhista complexo em armadilha política. Flávio Bolsonaro, que meses atrás classificava a iniciativa como oportunista e defendia liberdade de negociação e remuneração por hora, acabou votando a favor. Não houve alternativa eleitoralmente viável. A pressão popular era real; o custo de se opor, em plena reta final, seria ainda maior. Lula preparou a sinuca de bico e assistiu ao adversário ser forçado a endossar a proposta que o governo apresentava como conquista histórica.

A resposta veio no mesmo dia. Rogério Marinho, coordenador da campanha de Flávio, apresentou emenda à PEC da Segurança Pública — texto de origem governista — para reduzir a maioridade penal de 18 para 16 anos como regra geral e para 14 anos em crimes hediondos, tortura, tráfico, terrorismo e participação em organização criminosa. A medida retoma proposta antiga de Flávio e goza de amplo apoio popular. Agora é o governo que se vê encurralado: rejeitar a emenda expõe a contradição com o discurso de combate ao crime; aceitá-la afronta a base ideológica do PT. A sinuca mudou de lado.

A emenda de Marinho mostra que o jogo de aprisionar o adversário com pautas populares ainda não acabou. O risco, para o país, é que a manobra petista deixe para depois das eleições a conta que já está sendo apresentada por quem produz e emprega.

Nunca antes na história deste país se viu um presidente usar tanto a máquina estatal para comprar votos. Se Lula perder mesmo assim, será a maior humilhação já vista a um político. O povo cansou do PT, eis a verdade. Esse populismo irresponsável compra um ou outro voto, mas engana cada vez menos gente, ciente do custo para a própria sociedade.

No desespero para se manter no poder, a quadrilha petista faz o diabo, hipotecando assim o futuro do povo brasileiro. Lula armou uma verdadeira bomba-relógio, deixando uma herança maldita para o próximo governo. Se for o dele mesmo, então a explosão poderá ser fatal; se for a turma liberal e reformista que cerca Flávio Bolsonaro, teremos a chance de mitigar estragos e recolocar o país nos trilhos. Faltam apenas dez dias para descobrirmos se o eleitor quer cometer suicídio coletivo ou salvar o Brasil.

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