DEU NO JORNAL

Guilherme Fiuza

Lula mostrou desconforto na sabatina, mas a reação da grande imprensa à sua versão sobre Roberta Luchsinger foi ainda mais surpreendente

Em sabatina na Globo, Lula disse que não conhece Roberta Luchsinger. Mesmo em se tratando de Lula, foi uma declaração surpreendente. Ainda assim, o que mais impressionou foi a reação da grande mídia a essa “revelação”.

O presidente estava muito pouco à vontade na posição de sabatinado. O fato de estar diante de jornalistas que deixavam de contrapor algumas lacunas significativas das respostas não amenizou o desconforto de Lula. O que ficou evidente é que ele se desacostumou por completo ao debate, por mais suave que ele seja.

Lula mal conseguia esperar os jornalistas concluírem suas perguntas. A impaciência e as reações prévias eram visíveis e audíveis – sempre com a marca do sorriso tenso de quem não está lidando nada bem com qualquer forma de questionamento. O ponto mais visível desse mal-estar foi a atitude do presidente de dizer à entrevistadora qual pergunta ela deveria ter feito.

(Curiosamente, não houve reações em cadeia a essa atitude, nem brados feministas contra o desrespeito à mulher, nem repúdio de jornalistas contra a prepotência da autoridade, nem manifestos denunciando misoginia. A afronta à jornalista da Globo foi recebida com indiferença pela coletividade vigilante.)

O líder máximo do PT nunca teve uma relação fluente com a imprensa. Nos primórdios era o “nós contra eles”, quase uma exortação para que a militância não acreditasse no que vinha da “mídia burguesa”.

Ele sempre foi adepto das entrevistas exclusivas (e mais controláveis) em detrimento das coletivas. Outros presidentes a quem chamou de autoritários, como FHC e até Jair Bolsonaro, foram mais abertos ao convívio cotidiano com a imprensa. O que se notou na sabatina da Globo, porém, foi que nos últimos anos isso se agravou.

A realidade pessoal de Lula parece estar hoje completamente filtrada. Ele põe o chapéu panamá, vai para o auditório da vez, conta suas histórias para a claque, é aplaudido e volta para o casulo. Está tão desacostumado a qualquer contato com o mundo externo que saiu da sabatina da Globo dizendo que foi maltratado, que aquilo “parecia o Ministério Público” (interrogatório).

Talvez por isso o presidente e seu núcleo tenham resolvido adotar uma estratégia tão exótica sobre o caso de Roberta Luchsinger. Optar por alegar desconhecimento da personagem é estar decididamente apartado da realidade atual. Basta a intimidade já exaustivamente demonstrada entre a lobista e seu filho, ou mais ainda, entre a lobista e o seu chefe de gabinete, para comprometer a tese do desconhecimento.

Seria mais verossímil (ou menos inverossímil) dizer que nunca lhe pediram nada em nome dela, etc. Alegar não saber quem é foi um atestado de divórcio da realidade.

A cereja do bolo foi a reação da imprensa a essa tática radical. Ficou claro que não é só Lula e seu núcleo mais próximo que subestimam os fatos. Jornalistas experientes se prestaram a endossar a tese de que as inúmeras fotos de Lula com Roberta não querem dizer nada – porque um presidente é como uma celebridade, “tira foto com todo mundo”, etc.

Claro que o contexto das relações palacianas e familiares da lobista com o universo íntimo do presidente torna essa tese exdrúxula. E aí está a pior notícia de todas: se parte da grande imprensa no Brasil resolveu se abraçar com o cinismo é problema dela; mas se há jornalistas relevantes achando que seu público é tonto, talvez seja mais difícil do que parece superar a crise da liberdade de expressão no país.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *