MARCELO BERTOLUCI - DANDO PITACOS

O governo dos EUA divulgou no final do ano passado uma pesquisa sobre a situação financeira dos cidadãos norte-americanos. Alguns dados interessantes (para não dizer assustadores):

– A população na faixa etária entre 24 e 39 anos hoje é dona de 3% do total da riqueza do país.

– Quinze anos atrás, a mesma faixa etária concentrava 6% da riqueza.

– Trinta anos atrás, as pessoas entre 24 e 39 anos representavam 20% da riqueza nacional.

– A faixa entre 24 e 39 anos hoje representa 16% da dívida privada.

– A dívida média de um jovem hoje é o dobro da média de quinze anos atrás.

– É a primeira vez desde o início do século 20 que a geração entre 24 e 39 anos é mais pobre do que seus pais.

Os motivos parecem bastante óbvios: os jovens demoram cada vez mais para entrar na vida adulta. No século passado, praticamente todos os alunos universitários trabalhavam durante as férias, em atividades que iam de cortar grama a fritar hamburgers. Hoje, universitários que trabalham são raros. Também aumenta sem parar o número de jovens que termina uma faculdade, recebe um diploma e não sabe o que fazer com ele.

Li um comentário de um produtor agrícola norte-americano um tempo atrás que dizia “Hoje em dia qualquer um que consiga chegar aos vinte e cinco anos fora da cadeia acaba conseguindo um diploma, mesmo sendo incapaz de fazer contas ou ler um manual de treinamento. Em consequência, para as empresas um diploma tem o mesmo valor de um pedaço de papel higiênico usado.” Por outro lado, o jovem, mesmo semi-analfabeto, acredita que seu diploma lhe dá o direito de obter um emprego em que se trabalhe pouco e se ganhe muito, e mostra-se ofendido quando lhe oferecem empregos que não atendam a estas expectativas.

Contribui para o problema a postura cada vez mais comum de que a época da universidade é a época de “aproveitar a vida”, de participar do maior número possível de festas, baladas, churrascadas e qualquer outra forma de diversão. Estudar é relegado ao último plano, porque o diploma passou a ser visto como um “direito”, que exige apenas o ritual de assistir X horas de aula – e “assistir” é geralmente um eufemismo para “estar sentado em uma cadeira dentro de uma sala de aula”. Nesta visão, ser reprovado é visto como uma violação deste direito, e para evitar dramas as faculdades adotam a postura de aprovar todo mundo, desde que o dinheiro das mensalidades continue entrando.

Durante muito tempo, as famílias americanas tinham o hábito de “guardar dinheiro para a faculdade” desde o nascimento dos filhos. Hoje este hábito diminuiu, enquanto as mensalidades aumentaram, e cada vez mais estudantes pagam sua faculdade com crédito estudantil. O problema é que cada vez menos jovens conseguem, após se formar, uma ocupação produtiva que permita pagar os empréstimos. O total de empréstimos estudantis nos EUA hoje é de um trilhão e meio de dólares, com uma dívida média por estudante de aproximadamente trinta mil dólares. Muitos estão prevendo uma grande crise nos próximos três ou quatro anos devido à inadimplência cada vez maior no pagamento destes empréstimos.

O relatório aponta que os jovens de hoje estão morando com os pais por muito mais tempo do que antes. Também é cada vez maior a idade média dos casamentos e do primeiro emprego. Por outro lado, a quantidade de jovens que são donos de um imóvel tem aumentado, mas 20% destes imóveis foram comprados com dinheiro dos pais. E quase 20% destes jovens (até 39 anos, não esqueça) recebe dinheiro dos pais para ajudar nas despesas.

E no Brasil?

Se existem estatísticas semelhantes, eu não as encontrei. Mas me parece óbvio que estamos no mesmo caminho. Temos 48 universidades federais e 42 universidades estaduais onde se estuda de graça, e muitos alunos não demonstram a menor pressa em concluir o curso. Nas universidades particulares, mais de um quarto dos alunos tem as mensalidades financiadas pelo governo, através do FIES, cuja inadimplência também vêm crescendo.

Hoje, ser estudante virou profissão, com jovens acreditando em seu direito de passar anos à fio (quanto mais, melhor) vivendo às custas do governo ou da família, esperando o dia em que ele receberá o diploma que o transportará (supostamente) à elite da população. O fato de, mesmo tendo seu nome escrito no diploma, o tal jovem não possuir nenhum conhecimento produtivo parece não ter nenhuma importância.

Isso não vai acabar bem.

7 pensou em “JOVENS

  1. ***
    Grande Marcelo!
    Sim, nossa sociedade está perdendo o futuro.
    Os jovens, como você cita brilhantemente no texto, estão sendo infantilizados e subaproveitados.
    Logo eles que são o potencial criativo da espécie.
    Acresça-se a isso o fato de a população dos ditos países desenvolvidos está com a taxa de reposição muito baixa o que faz acreditar na sua extinção se continuar sem perspectivas de desenvolvimento realmente humano.
    Sem se dar valor a vida e ao fato de estar vivo.
    Ninguém quer liberdade, quer mesmo irresponsabilidade.
    Logo, para que ter filhos e ser responsável por outros?
    Os tubarões do mercados são o suprassumo do egoísmo, vamos imitá-los. É o que pensam.
    ***
    Como não gosto de ser rotulado, vou logo dizendo que ganhei muito dinheiro com as puts de Vale e Petrobrás da série O.
    Agora, neste momento, estou comprado na série D em Petro, muito de leve.
    Assim, antes que você diga que minha crítica ao sistema provém de um socialista, saiba que não sou e o que faço é procurar ver o que está acontecendo da maneira menos enviesada possível.
    E isso dá dinheiro.
    ***
    Dito isso, lá vai.
    ***
    Um sistema social mediado por dinheiro e onde valor é o mesmo que preço é desagregador, excludente, segregacionista e, como se percebe pela taxa de natalidade e no desperdício do potencial da juventude, completamente ineficiente em gestar um futuro minimamente civilizado e humano.
    A derrocada dos mercados nesta atual crise de crédito (o sistema capitalista é uma alternância entre o inflar e desinflar de bolhas) os bancos centrais do mundo estão provendo liquidez para bancos e fundos falidos não venderem seus ativos mais líquidos (ações, petróleo, ouro…) e assim pararem o derretimento dos mercados bursáteis.
    Todos estão correndo para o cash (dólar e treasuries).
    Isso, na prática, é uma estatização da economia e criação de mais e mais bolhas para futuros crashs nos quais ganharei muito dinheiro, obviamente.
    Mas isso também é insustentável e inumano.
    Digo inumano, porque para ser desumano seria preciso ter sido humano primeiro.
    E humano é civilizatório, digno, moral e responsável.
    Está claro que este sistema não funciona.
    ***
    Agora já sei que você dirá que sou socialista, ou pensará, mas a realidade não tem rótulos.
    Ela é o que é.
    ***
    Com os balanços inflados os bancos centrais só tem uma saída que é o juro negativo para poder deflacionar e extinguir a montanha de créditos podres que comprarão para salvar agentes financeiros em bancarrota.
    Isso é um fio de esperança, pois significa a tentativa de um pouso suave, em meio a esta turbulência.
    Será que os tubarões do mercado serão altruístas?
    De acordo com a teoria dos jogos, sim.
    ***
    Por óbvio, comprei TD IPCA+ para marcação a mercado.
    Se eu estiver errado na marcação a mercado ainda preservo uma parte do valor do meu dinheiro da inflação medida pelo IPCA.
    ***
    Bons trades a todos.
    Bora simbora!
    Vamo que vamo!
    *

    • Grato pelo comentário, Saniasin. Concordo com muita coisa.

      Discordamos no seguinte:

      Você diz “Um sistema social mediado por dinheiro e onde valor é o mesmo que preço é desagregador, excludente, segregacionista”. Para mim. um sistema social mediado por dinheiro é o único viável, na medida em que fornece uma referência que é igual para todos. Seres humanos não são anjos, é por isso que eu não acredito em teorias que dizem “ah, como seria lindo o mundo se…”. Seria, mas não é.

      O desperdício atual é fruto da fartura, que nosso cérebro não está preparado para processar. Durante milênios, desde os neandertais, toda pessoa tinha a consciência de que se não conseguisse caçar o mamute, passava fome, e se não juntasse lenha para a fogueira, passava frio. Se esforçar não era uma escolha, era uma necessidade.

      Em menos de um século, o progresso da tecnologia e das fontes de energia criaram a fartura: nos países desenvolvidos, 3% da população produz comida suficiente para todos, e sem fazer força, dirigindo tratores e colheitadeiras com ar condicionado. Smartphones, computadores, TVs de 75 polegadas e tudo o mais aparece nas lojas, vindos da China, da Coréia ou da oficina do Papai Noel no Pólo Norte, tanto faz. As gerações mais novas nascem e crescem acreditando que o mundo é um lugar mágico onde todos os desejos se tornam realidade quando se diz as palavras mágicas “eu tenho direito!”. Claro que os governos, donos da educação, tem boa parte da culpa.

      “O sistema capitalista é um inflar e desinflar de bolhas” por culpa destes mesmos governos, que montaram uma máquina de doutrinar que transformou 99% da população em crentes fanáticos, daquele tipo que repete tudo que mandam, jamais questiona, e ainda xinga quem tem opinião diferente. Todo mundo acredita que governos são bonzinhos, necessários, que inflação é bom, que moeda desvalorizada é bom, que quanto mais imposto melhor, que os “mercados” e as empresas precisam ser regulados e vigiados pelos sábios e incorruptíveis funcionários do estado. Isso sim é que é insustentável e inumano. Nossos jovens, sem capacidade de raciocínio lógico, jamais se libertarão disso.

      O sistema que funciona, para mim, tem muito menos governo, têm bancos que não são “o poder por trás do poder”, tem liberdade para empreender e para trabalhar. Nesse sistema, quem quiser ser improdutivo pode, mas arca com as consequências. Para mim é muito mais humano do que o sistema atual onde todos são ensinados (na verdade, amestrados) a gritar sem parar: “governo, cobre mais impostos dos ricos e dê para mim”.

    • ***
      Gratidão por não ter utilizado o argumentum ad hominem.
      Quando buscamos o discurso fundamentado, portanto lógico, e baseado em evidências, não em falácias, convergimos para o conhecimento.
      Não esquecendo que eu disse, e isso considero o mais relevante argumento para superarmos de uma vez por todas a ordem social capitalista e seu deus mercado, que ela é sobejamente INEFICIENTE, melhor dizer ineficaz, em criar um futuro esperançoso para a humanidade.
      É só lixo, venenos e crises o que este sistema tem produzido.
      ***
      Espero que o senhor não se guie por nenhum index e nem esteja a volta de uma fogueira aonde são lançados livros, assim, acredito que lendo o xaroposo Marx entenderá que a mercadoria é um grande fetiche e sua forma valor (dinheiro) o fetiche do fetiche.
      Um delírio, uma coisa inexistente. Algo semelhante a um surto esquizofrênico.
      Em nada do que produzimos e em nenhum serviço que prestamos existe nem sombra de dinheiro.
      O que existe, e sempre existiu, é o espírito humano, diverso do irracional, que sabe que cooperar é a única forma de sobrevivermos como espécie e cujas generosidade e inteligência inatas estão obliteradas pelo surto esquizoide da mercantilização.
      Ocorre que o atual colapso financeiro de crise de crédito global não tem solução dentro da lógica capitalista e, os caras sabem disso, só será contornado pela superação das categorias: mercadoria, dinheiro e acumulação de riqueza abstrata.
      Isso já está sendo tramado pela destruição sistemática de valor abstrato (moeda fiduciária e seus correlatos) e pela implantação discreta dos protocolos blockchain.
      ***
      O que direi a seguir são meras conjecturas e não tenho como provar, mas…
      Esses protocolos não tiram o mérito de quem produz riqueza, porém não permitem a sua acumulação, posto que, diverso da perversão doentia do capital, o VALOR
      do produtor/compartilhador se restringirá ao mérito de ter contribuído para o bem da sociedade, como são hoje os likes das redes sociais.
      Tudo devidamente documentado e rastreável no protocolo (blockchain) que sempre remontará a origem de qualquer coisa que seja transacionado entre seres humanos.
      Como disse, não tenho como provar isso, mas já se ouve rumores de estudos neste sentido realizados pelos grandes capitalistas.
      *
      Acredito na humanidade e num futuro melhor para todos e essas dores momentâneas são apenas a preparação para uma época muito boa para todos nós.
      Namaste.
      *

  2. Conheço casos de estudantes que recebiam quase R$ 2 mil em bolsas. Terminavam os créditos e se matriculavan em disciplinas isoladas. Conheço o caso de uma pessoa trabalhou comigo. Ela sempre se maninha como aluna ora ter bolsa. Nunca terminou um curso e era inteligente porque quando o curso estava acabando ela fazia outro vestibular. Quando sai da diretoria pra pró reitorua de pesquisa, recebi o currículo dessa jovem e falei com o pro reitor sobre o caso. Ele não a aceitou lá e ela, ainda hoje, continua como estagiária. Isso deve durar 16 anos porque ela foi aprovada em história, geografia, serviço social e tem outro que não lembro. Todos eles de baixa concorrência.

    • Pois é, Maurício. E gente assim vai de graça (ou a troco de pão com mortadela) em qualquer manifestação que um político chame para gritar “ensino público, gratuito e de qualidade!”.

      O Brasil “investe” tanto em educação, como porcentagem do pib, quanto vários países desenvolvidos. Mas falar em eficiência quando se fala de ensino é palavrão. O povo acha que quanto mais dinheiro gastar, melhor.

  3. O Produtor agrícola norte americano citado no artigo acertou em cheio seu prognóstico.

    Criou-se no ensino uma fábrica de canudos onde os formandos, em grande maioria não estão capacitados para o mercado de trabalho, cada vez mais exigente.

    Com todo o respeito, não concordo quando se diz que há faculdades públicas em que se estuda de graça. Não há.

    Há faculdades públicas onde os alunos estudam financiados a fundo perdido pelo pagador de impostos.

    O pior é que estes alunos não têm compromisso algum com a sociedade que lhe pagou os estudos.

    Os 1/4 dos alunos das escolas particulares que são financiados pelo Governo com o compromisso de pagarem seus estudos depois de formados estão sendo empurrados para a inadimplência, o que irá recair sobre os pagadores de impostos novamente.

    Quem ganhou com isso foram as instituição de ensino, pouco ou nada capacitadas que estavam em situação econômica difícil. Recebem em preço cheio.

    Passou a ser um grande negócio manter estas instituições.

    • É “de graça” para eles, claro. Para a sociedade é caríssimo.

      As particulares subiram suas mensalidades em mais de 100% na última década, afinal é o governo quem paga.

      Não deve ser coincidência que o dono de um dos maiores grupos universitários do país costumava emprestar seu jatinho particular para um certo ex-presidente de nove dedos.

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