Numa controversa entrevista para o portal UOL (em 13/07/2026), no programa Frente a Frente, dona Rosângela (Janja) Lula da Silva declarou que o Brasil “nunca teve uma primeira-dama que trabalhasse efetivamente”. O que só agora se dá, comigo, talvez estivesse pensando. Fosse pouco, sobre dona Ruth Cardoso, disse ter ela recebido tratamento diferenciado da mídia “por ter mestrado e doutorado”; por fim reclamando sofrer “preconceito de classe”, dado não ter maiores estudos.
Em respeito à sua relevante função, e para ficar dentro dos limites da boa educação, deixo de fazer maiores comentários sobre o estilo exótico de nossa atual primeira-dama, seus gostos extravagantes, os inadequados pronunciamentos fora da hora ou gastos excessivos nas opulentas viagens que faz, paremos por aí. Sem nenhuma relação com sua modesta escolaridade. E longe de qualquer preconceito, claro. Mas me sinto obrigado a contestar essa opinião que deu.
Sobre dona Ruth cumpre, antes de tudo, reconhecer que era diferenciada e não por ter doutorado, sobretudo por conta de suas ações sociais. Listo, aqui, só algumas. Como a criação da Comunitas, para desenvolver programas sociais mais eficientes. Ou a Comunidade Solidária – que reunia governo, empresariado e ONGs, sobretudo no Combate à pobreza extrema.
Desenvolveu o programa Universidade Solidária, com o qual estudantes e professores participavam juntos no desenvolvimento de comunidades específicas. E levou a educação básica para milhões de jovens em cidades carentes do país – na linha de Paulo Freire (Política e Educação), “Não há mudança sem sonho, como não há sonho sem esperanças”.
Faltando lembrar o Bolsa-Escola, um programa de renda mínima buscando garantir educação e futuro às novas gerações, que depois se converteu no Bolsa-Família. Com certeza bem melhor que o atual, assistencialista e eleitoreiro. A ironia é que quando seu marido elogia o Bolsa-Família, dona Janja, e diferentemente da senhora, está na verdade elogiando é nossa dona Ruth, que criou o programa.
Aproveito e segue um pouco de história para dizer como nos conhecemos. Em fins de 1998, telefonou assessor, ela queria falar comigo e marcamos almoço no Hotel Glória (Rio). Explicou que deveria desenvolver projeto da UNESCO para fazer uma nova legislação de regulação do Terceiro Setor (ongs e afins); espraiando em seguida, o resultado, para a América Latina. Perguntou o que achava do tema.
‒ Nada (respondi), nunca pensei nisso.
‒ “Mas se não tem ideias, doutor, qual o motivo de estamos aqui perdendo tempo?”
‒ Talvez, dona Ruth, porque saiba redigir uma lei assim. Como fazíamos no Ministério da Justiça.
– “Por favor explique”.
– Pegávamos 10 países. Estados Unidos, Canadá e Austrália por serem fisicamente grandes, como o Brasil; também os 6 mais importantes da Europa (Alemanha, Espanha, França, Inglaterra, Itália, Portugal); e, por fim, um da Escandinávia, qualquer, as legislações são muito parecidas.
Continuando,
– Depois, púnhamos as 10 leis na frente. O art. 1º era igual, em todas, então copiávamos. Sem inventar nada. Art. 2º, idem. Art. 3º, era diferente. Em vez de copiar, tentávamos entender a razão dessas diferenças. Após o que redigíamos artigo novo, com base em nossas características. E assim por diante, até o último artigo. No fim, o projeto básico da lei estava pronto, faltando só complementos que considerássemos importantes para os fins desejados.
Aparte para dizer que, curiosamente, não pude usar o sistema ao redigir o Decreto 3.551/2000, para o governo Fernando Henrique Cardoso, que criou o Programa Nacional do Patrimônio Oral e Imaterial brasileiro. Atendendo recomendação da UNESCO, de 1985. Por não haver ainda, em nenhum país, uma normativa assim. Esses outros copiaram, depois, reproduzindo o nosso. E até recebi medalha da UNESCO, por isso. Voltando à conversa, ela
‒ “É tão fácil assim?”
‒ Creio que é.
Pensou um pouco. Então, virou-se para um assessor em mesa próxima,
– “Augusto (de Franco), por que perdi tempo ouvindo tantos especialistas?”
E concluiu,
– “O senhor coordena esse projeto para nós?”
Assim se deu, por quase dois anos, qualquer dia conto isso com mais detalhes. Contratamos consultorias pelo mundo, editamos alguns livros importantes, dei curso em Harvard; e fizemos diversas normativas, entre elas o Decreto 3.100/1999 que criou as OSCIPs.
Para encerrar, segue historinha divertida de uma das vezes quando foi passar tempos em nossa praia. Elogiou chapéu de palha usado por dona Lectícia, então lhe disse
– É seu, dona Ruth. Cuidado só que vão dizer estar, a senhora, fazendo caridade com chapéu alheio.
Pelo exposto, pois, devemos todos confirmar ter sido uma pessoa muito especial. Que sempre colocou o interesse coletivo acima dos partidários ou pessoais. Que pensava, antes de dar qualquer entrevista. E com cuidado, no falar, para não ofender ninguém. Com mil perdões à nossa atual primeira-dama, e em vez de críticas, merece é ser louvada. ‒ Viva dona Ruth!!!