Leonardo Bastião, matuto legítimo, analfabeto na leitura e na escrita, oculto no sertão de Itapetim-PE, porém, um vertedouro de poesias sábias e puras.
Para ele, aqui vai a minha homenagem:
“Minha infância foi muita destruída
No começo eu errei a direção
Viajei no caminho da ilusão
Só parava no ponto da bebida
E com esse apagão em minha vida
Eu perdi o meu tempo iluminado
O caminho que eu andava estava errado
Mas dei fé que eu andava no escuro
O presente não mostra o meu futuro
E eu não posso viver do meu passado”.
Estimada leitora Ana Paula,
Relativamente ao meu texto, publicado no Jornal da Besta Fubana de Recife, PE, muito me agradou conhecer os comentários de sua mãe acerca dos matutos. Aliás, deixo aqui o meu abraço, tão afetuoso quanto matuto, para a sua mãe.
Ainda que os matutos não tenham o verniz intelectual, são, apesar disso, pessoas sábias; eles escutam muito mais do que falam. O homem praciano, a bem dizer, do asfalto, ainda não se desapegou da idiotice incorrigível de pasquinar o matuto, isto é, caricaturá-lo de tolo, de mané. Exemplificativamente, repare as festas de quadrilha e juninas. Nessas ocasiões os figurantes se exibem com calças rasgadas no fundo e dentes pintados de carvão, tudo para representar o modo de trajar dos matutos. Essa ridícula e injusta imitação não honra a gente simples, porém decente, do sertão, que não está obrigada a andar sob os rigores da moda. As indumentárias tanto servem para dissimular o que de fato é, quanto para fazer parecer o que não é. Ademais, muitos pracianos não têm a estatura moral dos matutos. O pior é que desde o berço assisto a este esculacho e até hoje, com idade abeirando Matusalém, a satirizarão se repete.
Mas, tudo bem, se os pracianos, por meio das suas obras burlescas, se comprazem em escarnecer os matutos, a bem dizer, referirem-se a eles com escárnios e zombarias, então que sejam feitas as suas vontades. Eu é que não irei desmerecer a quem tanto merece. Como dizia Arnaldo Jabor, “o que importa não é o que pensam deles, mas sim o que realmente são”. O matuto não é, como fazem parecer, um boneco recortado em papelão.
Por falar em matuto, envio à sua mãe, a pérola a seguir, do fenomenal Rogaciano Bezerra Leite. Apesar de jornalista, escritor, compositor, cordelista, repentista, orador colossal, poliglota, reverenciado na Rússia, Rogaciano jamais deixou de ser o matuto genuíno, brotado do sertão de Cacimba Nova, PE:
“Não sou um Manuel Bandeira
Drummond, nem Jorge de Lima
Não espereis obra prima
Deste matuto plebeu
Eles cantam suas praias
Palácios de Porcelana
Eu canto a roça, a cabana.
Canto o Sertão que ele é meu”.
Grande abraço. Jacob Fortes de Carvalho.