CORRESPONDÊNCIA RECEBIDA

PÃO SOVADO FAZ MAL

Teodósio, camponês de mãos calosas, residia na localidade denominada Riacho Grande. Se notabilizara por ser detentor de um rancho de filhos sem par, fábrica própria. Isso não encerrava cumprimento de promessa aos santos, era a praxe no sertão das parideiras.

Certa feita Teodósio acometeu-se de febre sobrenatural, que lhe incendia o corpo, consorciada a delírios, calafrios e dores nas articulações, particularidades que delatavam a presença da temida e extravagante moléstia: a malária. A sulfa redentora estava longe, lá na povoação: rala, grandemente descalça, nove léguas a cavalo.

Às pressas, abriu-se um processo seletivo para identificar que membro da prole se faria emissário em busca de fármaco, de soberana virtude, contra a enfermidade de Teodósio. Eliminados os incapazes, as moçoilas em penugem de franga, os de braços alugados a outras roças e os que se haviam desertados para “Son Paulo”, sobrestou, aprovado, apenas um, oito anos; atendia pelo apelido de Ferrugem.

A vigília tomou conta daquela noite e quando a barra do dia se insinuava:

– Acorda Ferrugem, Acorda Ferrugem, lava a cara e toma uma xícara de café.

Era Luiza, de bilhete à mão, ultimando os preparativos da partida do emissário.

– Eu já selei o Rabo-de-Cuia. Vaia à povoação e entrega este bilhete ao Dr. Mormaço, na botica São Camilo. Com este broche vou apresilhar o bolso da tua camisa para evitar que percas o bilhete. Devidamente apetrechado, estribo regulado ao tamanho das pernas, Ferrugem partiu, pressuroso como exigia a circunstância, no cumprimento da missão, em companhia de dois amigos singulares: Deus e o pangaré, de doma, de estimação.

O pino do sol se avizinhava quando Ferrugem chegou ao seu destino. A custo apeou-se e entregou o bilhete ao reputado boticário. Com o auxílio de um pincenê, visivelmente embaciado, o Dr. procedeu à decifração do manuscrito de Luiza; prontamente aviou a medicação, que fora posta no alforje, este já devidamente preso ao arção da sela.

À azáfama, Ferrugem se pôs de regresso e quando a povoação praticamente havia ficado para trás pode ver, à direita, no derradeiro quiosque do arruamento, sobre um balcão acanhado, uma travessa, de pequizeiro, repleta de pães sovados, desses de lombo adocicado.

Àquela hora, ao calor do meio dia, sem dinheiro, o bucho colado ao espinhaço, sedento, Ferrugem dirigiu-se à vendeira, aliás, bem nutrida conforme denunciavam suas papadas pletóricas, e perguntou, cheio de pejo:

– Dona, a senhora me dá um pão?

– Você tem dinheiro, redarguiu a mulher com ar de pouco apreço.

– Eu não tenho dinheiro, respondeu Ferrugem engolindo a voz reprimida.

– Pois saiba que aqui não doamos pão, vendemos pão; pão de graça faz mal à saúde, disse a vendeira em tom de reprimenda, e sem incômodo de consciência.

A negação, imperativamente acidulada, fez Ferrugem sentir-se escorraçado, mais que isso, açoitado. Meneou a rédea do Rabo-de-Cuia e partiu, à ligeira, triplamente derrotado: pela fome, por uma sede, agora aplacada pelo susto, pelo desamparo. Mas isso era irrelevante se comparado ao quadro de Teodósio.

Cessadas as lágrimas vertidas, Ferrugem, ao som da canção do plac plac do cavalo, ia encurtando o caminho de casa e se refazendo do amargo sabor da malsucedida imprudência cometida; coisas pueris, típicas de bezerro em terra alheia. Sob o torpor de mágoas fundas, sequer percebera que já havia transposto o minideserto da Vaca-Morta, trecho deveras enfadonho. Ruminando o acontecido, dizia para si, em magoada e surda voz: não é o pão que faz mal, mas a fome.

Enquanto isso Luiza, sob a tortura da preocupação, mantinha-se ao terreiro, de olhos afundados na estrada.

Pronto, dissipou-se a inquietação de Luiza, ao longe repontava, visivelmente esfalfado, o Rabo-de-Cuia e seu condutor. Dando graças a Deus, os dois corações de Luiza que batiam (um por Teodósio, outro por Ferrugem) transfundiram-se num só.

Tempos depois Teodósio comprou para Ferrugem os tais pães de espinhaço doce que tanto desejou.

4 pensou em “JACOB FORTES – BRASÍLIA-DF

  1. Essa senhora que negou o pão ao Ferrugem, se não foi, tem que ir pro inferno de cabeça pra baixo, juntamente com o elenco do STF.

    • Conforta a quem escreve saber que o texto mexe com as emoções dos leitores, como é o caso do Edison. Triste é saber que o desábito à leitura prospera e que não muito distante receberá voz de prisão aquele que for flagrado lendo no papel dentro de um trem, de um ônibus, num logradouro, etc.
      Grande abraço. Jacob Fortes..

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