IPHONE E PRAIA

Na semana passada comentei sobre os “pseudoliberais de praia” e sua pauta, bem como os canhotinhas de DCE – Diretório Central de Estudantes – das universidades públicas. Apesar do discurso antagônico, essas duas vertentes ideológicas têm mais coisas em comum do que se possa imaginar. E, ainda estou esperando o surgimento de um liberal da envergadura de um Roberto Campos, ou Eugênio Gudin.

Nossos canhotinhas, como sempre, usando camisa Lacoste, Iphone X, tênis Adidas, ou de calibre maior, dirigindo um jeep, land rover, ou Mercedes, com o bolso forro adivindo da mesada do papai, acordando ao meio-dia, grita pelos corredores das universidades que é contra o sistema, contra a opressão do capital, contra a burguesa, mas para os outros. Não para eles.

Já nossos pseudoliberais de praia, ou de clube, por sua vez clamam que querem menor intervenção do Estado nos negócios, na vida privada, nos lucros, mas…, e sempre haverá esse MAS, essa conjunção adversativa que nega a sua essência liberal e mostra que, por traz dessa casca de modernidade está mesmo alguém que não consegue viver sem a tutela do Estado.

Veja o caso de uma famosa montadora de carros no Brasil que há sessenta anos vive com subsídios estatais. E alardeia que sua produtividade é excelente, que seus veículos são top de linha. Quando o governo disse que retiraria os ditos subsídios, a empresa fez beicinho, fechou a montadora e foi embora. De duas uma: se ela era tão excelente como proclamava, após quase sessenta anos não necessitava de subsídios, agora, se após esse mesmo período não conseguia viver sem o subsídio, então não o merecia.

E aí vem as discussões sobre privatização. E todos os liberais de praia estão prontos a dar a sua contribuição ao modelo de empresa privada que se quer. E, de repente, lá está aquele MAS. É preciso privatizar, tirar empresas das mãos do Estado, MAS tem que haver um modelo que atenda a comunidades mais afastadas, e aí o Estado tem que regular, regulamentar, decretar, etc. isto é, o capitalismo brasileiro é um dos melhores do mundo, pois não se toma risco, e sempre que o capital privado está em vias de revés, o cidadão é chamado para cobrir os prejuízos.

Veja-se o caso da indústria cultural, de cinema, teatro e shows. A gritaria é imensa porque o governo de plantão cortou a safadeza de se financiar com milhões de reais filmes, peças e documentários de qualidade duvidosa. Mundo perfeito esse. O artista, o produtor, seja lá quem for, não temiam prejuízo. Não deu bilheteria, sem problemas. O povão, esse mesmo, o desdentado, o que anda de busão em um calor infernal para ir e voltar do trabalho, que ganha um salário mínimo, acorda as quatro da manha e nunca vai dormir antes da meia noite, era convocado para cobrir as despesas e o prejuízo. Mas, o artista, o produtor, o elenco e os diretores saiam no lucro. Assim é fácil defender a indústria da cultura nacional.

Mas, alguém pode dizer que não se tratava de dinheiro público, mas sim de investimento privado. Engano. Os recursos da Lei Roer, né? (Rouanet) são oriundos de renúncia fiscal, isto é, o empresário deixa de pagar o imposto para o Estado. Como o Estado não fabrica dinheiro, ele tem que compensar esse valor a menos em outro lugar. Como ele não diminui despesas, a grana sai do bolso do “Zé Povinho”, que é quem financia esses espetáculos, em sua maioria ruim, de qualidade duvidosa e que não acrescenta nada ao imaginário nacional.

Eu, particularmente sou a favor do liberalismo em sua essência. Por mim, o Estado só ficaria com as atividades de natureza estatal: segurança, diplomacia e moeda. O resto iria tudo para a iniciativa privada e o Estado ficaria proibido de subsidiar, ser sócio, acionista, ou mesmo financiar a atividades. Nosso capitalismo precisa crescer, sair do berço. E o cidadão precisa ser desmamado dessas tetas. Nos acostumamos a ter o Estado que fornece da primeira fralda que o cidadão suja quando nasce, à última pá de terra que lhe cobre o caixão.

Essa dinâmica que se estabeleceu no Brasil fez surgir essa elite política canalha, que chantageia todos os governos de plantão. Fez surgir uma justiça que está voltada para atender a seus próprios interesses e aos dos amigos da corte, ou amicus curiae, como se diz na boa língua de Virgílio e deixa o cidadão que mais precisa de justiça a ver navios.

Nossos pseudoliberais de beira de praia adotam o liberalismo, MAS, o Estado tem que sempre estar com um colchão debaixo deles para que, se caírem, não se machuquem, e seus investimentos não vão para o ralo. Esse tipo de capitalista de bloco carnavalesco eu não respeito. O dono do bolicho na esquina de casa, o vendedor de geladinho que passa todos os dias se esguelando na rua de casa, o vendedor de churros na feira aqui perto. Esses são os verdadeiros capitalistas. Esses têm meu respeito e minha admiração.

Ser capitalista sem tomar risco, sabendo que sempre tem o Estado para garantir o retorno de seu dinheiro não é ser capitalista. É ser gigolô da pobreza alheia e cafetão do subdesenvolvimento. Nesse universo que alia canhotinhas que vivem de mesada do papai e capitalistas que adoram as burras estatais, fico com uma máxima, que agora não me vem à memória quem o disse, mas falou de forma elegante e sublime a respeito do Brasil: “Neste país, a única forma de alguém ser oposição de verdade, é sonegando imposto”.

11 pensou em “IPHONE E PRAIA

  1. Seu artigo é muito interessante. No entanto eu sou parte de uma faixa de empresários pequenos que nem estão lá em baixo nem lá em cima e a sobrevida é duríssima e desconheço este Estado que ampara. Só o que toma.

    • Sergio, meu caro. Como em toda regra há exceções, você pode se incluir nela, mas no frigir dos ovos, o empresário honesto é uma gota de água nesse oceano de ilegalidades e de capitalismo amparado no dinheiro dos desdentados.

    • Marcelo, meu querido articulista, dono de verdadeiros monumentos intelectuais… isso são só elocubrações de um vagabundo que passa o domingo olhando pro teto e coçando os bagos dos cachorros daqui de casa.

  2. Roque:

    Trabalho como corretor de imóvel há mais de vinte anos. Conheço várias pessoas que possuem 12, 25, 20, casas não escrituradas. O único documento que possuem dos imóveis ou são um traslados feitos no cartório de NOTAS ou simplesmente um Instrumento particular de promessa de compra e venda. Nada mais.

    Ganham uma fortuna com aluguéis e não prestam conta em imposto nenhum para o Município, o Estado ou a União.

    Quando falo para eles que o legal mesmo é fazer os registros dos imóveis, você sabe qual a resposta que obtenho?

    “Eu, xará, registrar meus imóveis para os governos bandidos me fuderem e em troca não receber nenhum benefício?! No dia que for aprovado pelo parlamento um Projeto de Lei decente onde obrigue a todo proprietário de imóvel registrar desde um barraco até uma mansão sem burocracia como acontece nos Estados Unidos e outros países capitalistas, aí eu vou e registros os meus.

    Mas enquanto não houver essa lei, olhe aqui pro cu desses governos ladrões!! Esticam o braço em forma de banana.

    E o que é pior ou melhor: eles, infelizmente, estão com a razão!

    Para que legalizar aquilo que na prática está dando certo mesmo indo tronxo!!!!??????

  3. Roque, você deu um toque interessante em vários pontos. Eu concordo com você em relação a atuação do estado. Moeda, defesa (pra não se pensar apenas na segurança pública), diplomacia. Um dia desses fiz um comentário num texto de um ex aluno, agora professor, sobre privatização. Ele estava falando que um dos aeroportos privatizados voltaria parto governo. Eu disse “se nem a iniciativa privada quer imagine a situação”. Isso foi bastante pra suscitar uma discussão que acabou com um sugestão estúpida, na estupenda, por parte dele. “Compensa o prejuízo desse com o lucro dos bons”. Esse é o pensamento de quem nunca trabalhou na iniciativa privada e de quem pensa que é governo quem deve fazer tudo.
    Na década de 1970 havia um parque industrial na entrada de Recife, BR 232. Empresas como Romi, Tintas Coral, Philips, Gerdau (aqui aço norte), Rayovac, etc. Em Paulista, na RMR, Hering, Pirelli, dentre outras. Todas elas tinham incetivo fiscal. 20 ou 30 anos com rebate de impostos. Terminou o benefício, encerraram as atividades e pronto. Valia a pena produzir porque o custo era menor por conta dos impostos.
    A questão de apoio pra projetos na área cultural, de fato, é renuncia fiscal assim como a lei do bem e a lei de informática. A diferença é que esses dois últimos geram produto e patentes, em boa parte dos casos.

    • Meu caro Maurício. Nosso mal costume é achar que o Estado tem que prover tudo. se ele se concentrar nessas quatro áreas que você mencionou, saindo das outras, as despesas correntes caem, os impostos podem baixar na mesma proporção e incentivar aquele que quer produzir, a produzir, mas sem essa mão boa do Estado que cria incentivos, que incentivos não são, para que empresas permaneçam em alguns lugares. Depois que esses incentivos acabam elas simplesmente vão para outra região que oferece esses incentivos, e por aí vai. Esse é o típico capitalismo gigolô que não se arrisca e nega a ideia matriz de adam Smith sobre essa ciência. E, sempre vamos ter pessoas que se acostumaram a achar que o Estado faz milagres e que dinheiro nasce em árvore. Quando essas pessoas vão entender que “dinheiro público” é uma falácia? Não existe dinheiro público. O que existe é dinheiro de quem trabalha e que o Estado toma na mão grande para, principalmente manter uma rusma de privilegiados. E digo isso, sendo um funcionário público com 30 anos de serviços prestados ao Glorioso Mato Grosso do Sul.

    • Pesquisei algumas fábricas e não encontrei notícias do fechamento das mesmas no nordeste. Exemplo: Hering, Coral (AkzoNobel). A Ford encerrou atividades na fábrica de São Paulo. Rayovac (Microlite), a notícia que encontrei foi de fechamento da fábrica em Guarulhos-SP para concentrar a produção em Jaboatão. Concordo plenamente que incentivos fiscais e reserva de mercados. A reserva de mercado imposta por Sarney na área de informática atrasou o desenvolvimento tecnológico d Brasil nesta área por anos enquanto o mundo avançava vertiginosamente no avanço tecnológico. O mercado tem que ser livre, todos temos que ser livres para administrar nossas vidas e nossos bens. Só com o pleno desenvolvimento tecnológico, liberdade de empreendimento, de expressão, poderemos avançar e proteger os mais carentes, aqueles que realmente, sem pilantragem, precisam de nossa assistência. O brasileiro precisa aprender o verdadeiro significado das palavras: Mérito, ética, responsabilidade e honestidade, privilégio.e solidariedade. Solidariedade com bastante com discernimento.

  4. As grandes corporações são “viciadas” em incentivos e subsídios, e vão de lugar em lugar procurando os políticos mais ingênuos (ou corruptíveis).

    Aqui no Paraná o governador Jaime Lerner, assumidamente desenvolvimentista, conseguiu convencer Renault, Volkswagen e Chrysler a montarem fábricas no estado, em troca de muitos favores, inclusive sigilosos.

    Seu maior adversário político, Roberto Requião, fez o maior escarcéu com os tais acordos sigilosos. Na época não conseguiu nada. Mas se elegeu governador, sucedendo Lerner.

    Uma de suas primeiras iniciativas foi anunciar que iria “renegociar” os subsídios das montadoras, com base no discurso populista de “se o pequeno paga imposto porque o grande não vai pagar?”.

    Marcou uma reunião na Renault. Chegou com cara de Clint Eastwood entrando no saloon, com um discurso prontinho que ele achava que iria abafar. Mas antes que dele começar, o cara da Renault, logo após o “bom dia”, falou: “Governador, fomos informados que o motivo desta reunião é rever os contratos firmados entre a Renault e o governo do estado. Queremos dizer que estes contratos não são negociáveis. Se o governo nos disser que não respeitará estes contratos, suspenderemos todos os investimentos aqui no mesmo dia e em um ano esta fábrica estará fechada, e a Renault estará produzindo em outro lugar.”

    Dizem que o Requião ficou branco feito um fantasma, olhando para seus assessores. Estes balançavam a cabeça, como quem diz “é verdade”. O governador levantou e foi embora sem dizer mais uma palavra. A Renault está aqui até hoje, e todos os favores prometidos pelo governo foram cumpridos.

    • Mas é isso meu caro. Uma gigante como a Renault recebe um monte de benefícios fiscais, enquanto o trabalhador, principalmente aquele que anda de busão lotado e um dia calorento arca com todos os impostos, sem ter um centavo de incentivo. E essa dinâmica não depende de governo, ou ideologia de plantão. É modus operandi em todos os países de terceiro mundo que ainda tem a indústria de base e de transformação como principais geradores de empregos. Quando o Brasil descobrir que a maior riqueza que ele possui se chama intelecto e criatividade humana – investimento em educação de qualidade e talento – aí a gente consegue quebrar esse círculo vicioso.

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