Vejo-me triste, abandonada e só
Bem como um cão sem dono e que o procura
Mais pobre e desprezada do que Job
A caminhar na via da amargura!
Judeu Errante que a ninguém faz dó!
Minh’alma triste, dolorida, escura,
Minh’alma sem amor é cinza, é pó,
Vaga roubada ao Mar da Desventura!
Que tragédia tão funda no meu peito!…
Quanta ilusão morrendo que esvoaça!
Quanto sonho a nascer e já desfeito!
Deus! Como é triste a hora quando morre…
O instante que foge, voa, e passa…
Fiozinho d’água triste… a vida corre…

Florbela Espanca, Vila Viçosa, Portugal (1894-1930)
As imagens simbólicas do poema “Hora que Passa”, de Florbela Espanca, são profundamente expressivas da dor existencial, solidão e fugacidade da vida. Entre as principais, destacam-se:.
“Cão sem dono” – Símbolo da solidão e abandono, representando a poeta como uma figura desamparada, à procura de amor e pertença.
“Mais pobre e desprezada do que Job” – Referência bíblica a Jó, conhecido por sua imensa paciência diante do sofrimento, reforçando a intensidade da dor e resignação.
“Judeu Errante” – Imagem de um ser condenado a vagar eternamente, sem descanso, simbolizando o desamparo, a marginalização e o destino trágico.
“Alma sem amor é cinza, é pó” – A alma reduzida a cinzas e pó expressa a destruição interior, a ausência de sentido e a morte emocional.
“Vaga roubada ao Mar da Desventura” – Metáfora do destino trágico, como uma onda arrancada de um mar de sofrimento, indicando que a vida da poeta é fruto de um acaso doloroso.
“Ilusão morrendo que esvoaça” – As ilusões são comparadas a pássaros ou borboletas que morrem em voo, simbolizando sonhos que se desfazem no ar, sem se concretizarem.
“Fiozinho d’água triste… a vida corre” – A vida como um fio de água que escapa representa a passagem rápida e irreversível do tempo, com um tom de melancolia e impotência.
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