WELLINGTON VICENTE - GLOSAS AO VENTO

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Mote de Wélio César e glosas deste colunista

Eu vim ver o valor que papai tinha
Só depois que o mesmo faleceu.

Quem diria que o homem pequenino
De um metro e sessenta de altura
Possuía tão grande envergadura
No acervo do folclore nordestino?
“O Autor da Natureza” virou hino,
Zé Ramalho regravou depois que leu,
Geraldinho, um colega do Alceu,
Fez Marília cantar na mesma linha.
Eu vim ver o valor que papai tinha
Só depois que o mesmo faleceu.

Foi Pocinhos o seu ponto de chegada,
Situada na poética Paraíba,
Se o frevo foi tudo pra Capiba,
Para Zé, foi a rima improvisada.
A viola sustenida e afinada
Foi parceira em tudo que viveu,
Com seu canto, tantos cantos percorreu
Tendo ao peito a famosa violinha.
Eu vim ver o valor que papai tinha
Só depois que o mesmo faleceu.

O primeiro poeta cantador
A gravar no Brasil um LP,
Numa época sem a força da TV
O poeta foi um grande inovador.
Ele próprio foi o seu divulgador,
Pelo canto deu fama ao nome seu,
Lá no Rio de Janeiro defendeu
Nossa arte ao cantar com Arrudinha.
Eu vim ver o valor que papai tinha
Só depois que o mesmo faleceu.

Percorreu dezessete capitais
Difundindo a cultura do repente,
Quem ouvia os versos de Vicente
Percebia os lampejos magistrais.
O que soube passou para os demais
Repentistas que ele conheceu,
Na escola de Deus tudo aprendeu
E essa dádiva divina ele mantinha.
Eu vim ver o valor que papai tinha
Só depois que o mesmo faleceu.

Pernambuco lhe deu toda guarida,
Onde ele chegou ainda novo,
Adotado pela arte e pelo povo
Deu a vida ao repente e ganhou vida.
Difusora, emissora mais ouvida,
A primeira que um dia o acolheu
E nas ondas do rádio foi Orfeu
No lirismo que a sua voz continha.
Eu vim ver o valor que papai tinha
Só depois que o mesmo faleceu.

Foi a terra do Mestre Vitalino
Que lhe deu projeção nacional,
Sendo aquela a vitrine natural
Do mais puro folclore nordestino.
Correu léguas igualmente um beduíno,
Ganhou mais festivais do que perdeu,
Na Bahia chegou ao apogeu
Ao cantar pra Getúlio na pracinha.
Eu vim ver o valor que papai tinha
Só depois que o mesmo faleceu

Foi no ano dezenove, meia, três
Que o vate cantando em nossa Altinho
Quis formar por aqui um novo ninho
Pra livrar-se da incômoda viuvez.
Enedina foi a musa dessa vez
E ao vê-la o poeta estremeceu,
Desse novo casamento nasci eu
E o mais novo chamado de Cesinha.
Eu vim ver o valor que papai tinha
Só depois que o mesmo faleceu.

Jeová e Josafá foram os primeiros
Filhos deste poeta do sertão,
César e eu da segunda geração,
Mas amigos fiéis dos pioneiros.
Como fãs, nos tornamos escoteiros,
Seguidores das lições que ele deu,
Se na vida nenhum crime cometeu
Com certeza hoje está com a Mãe Rainha.
Eu vim ver o valor que papai tinha
Só depois que o mesmo faleceu.

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