MARCELO BERTOLUCI - DANDO PITACOS

Eram dois irmãos. O mais velho era sério, sisudo, daqueles que parecem nunca ter dado um sorriso na vida. Acreditava que a vida de um homem de bem se resumia a acordar cedo e trabalhar duro o dia inteiro. O mais novo era brincalhão, risonho, amigo de toda a cidade. Gostava de fazer negócios de todo tipo, para raiva do irmão que achava que isso não era coisa de gente séria.

Um dia surgiu para o irmão mais novo a oportunidade de um ótimo negócio com umas terras que estavam à venda, mas ele não tinha o capital necessário. Ele sabia que o irmão tinha dinheiro guardado, mas o orgulho o impedia até de pensar no assunto. Alguns parentes souberam da situação e resolveram ajudar. Com jeito, procuraram o irmão mais velho e falaram da situação, mostrando que ele poderia ajudar o irmão e ainda ganhar uns trocados (nenhum dos dois consideraria a hipótese de um empréstimo sem juros: negócios são negócios). Depois de algum tempo, o primogênito concordou. Faltava convencer o outro. Com mais alguma conversa dos parentes, tudo se resolveu.

No dia marcado, o mais novo chegou à casa do irmão, cumprimentou-o com um “bom dia” meio constrangido, mandou outro “bom dia” para a cunhada na cozinha, e sentou-se à mesa da sala. O irmão já tinha preparadas as promissórias, preenchidas e devidamente seladas, esperando sua assinatura.

Após recolher as promissórias assinadas, o irmão foi até o quarto de dormir, guardou-as em uma gaveta e voltou com um maço de notas. Entregou-as ao irmão. Enquanto este contava o dinheiro, o mais velho não aguentou mais e expressou seu desagrado:

“Mano, você me perdoe, que eu não tenho nada com sua vida, mas você sabe que eu só estou fazendo isso porque nossa família pediu. Mas com essa crise, se meter em um negócio desses fazendo dívida? Você é maluco de pedir dinheiro emprestado.”

O mais novo permaneceu em silêncio, contando as notas. Quando acabou, colocou o dinheiro no bolso, foi até a porta, voltou-se para o irmão e respondeu, já indo embora:

“Maluco é você de emprestar!”

*  *  *

Era um namoro que já durava mais de ano. Passeios no domingo, sorvete na praça, cinema. Mas a moça começou a achar o namorado muito indeciso. Um dia, final de dezembro, chamou o namorado às falas:

“Você vai na missa do galo, não vai? Quando terminar, dê a volta na igreja e me encontre na rua dos fundos. E ai de você se não aparecer!”

Terminada a missa, toda a cidade se despedindo na pracinha em frente à matriz, o namorado se esgueirou até os fundos da igreja. Encontrou o caminhão de seu cunhado, com o próprio sentado na boléia e sua namorada no lugar do carona. Deu boa noite, abriu a porta do Ford e entrou. Foram para a casa do cunhado.

Lá chegando, o rapaz abraçou apertado a namorada, achando que teria sua noite de núpcias. Levou um empurrão e a ordem: “Sossega o facho. Não casamos ainda.” Dormiu no chão da sala.

Bem cedinho foi acordado pelo cunhado e pela namorada. Embarcaram no caminhão e desceram a serra até a cidade vizinha. Pararam em frente à igreja. A namorada entrou na frente e foi procurar o padre. “Queremos casar”, disse ao encontrá-lo na sacristia.

Subiram a serra casados, e assim permaneceram por mais de cinquenta anos.

*  *  *

Dois primos, se criaram juntos, quase como irmãos. Um ficou na sua terra, o outro se mudou para outro estado após enviuvar ainda jovem, mas nunca perderam o contato. Se visitavam com frequência.

Certa vez, lá nos anos setenta, um deles pegou a estrada para visitar o outro. Já sabia que o primo viúvo estava de namorada nova, mas não esperava ver o que viu.

Estava fechando a porta do carro quando o primo apareceu na porta de casa. Rejuvenescido pela namorada, vinte anos mais moça, o primo estava com os cabelos compridos, quase chegando nos ombros, e pintados de loiro. A camisa estampada estava desabotoada até a altura do estômago, deixando à mostra o peito cabeludo onde reluzia uma grossa corrente de ouro.

O primo espantado deu um murro no automóvel e começou a berrar:

“Filho da puta, virou viado depois de velho! Não tem mais vergonha na cara, seu porco! Que cabelo de bicha é esse, animal! Você não é mais homem!”

O dono da casa ficou parado, boquiaberto. E o primo não parava de gritar os palavrões mais cabeludos, num tom de voz que alcançava vários quarteirões. Foi só quando alguns vizinhos apareceram, atraídos pela gritaria, é que conseguiram acalmá-lo. Os dois primos, constrangidos, foram para a casa de outro parente, onde a família costumava se reunir. Um não olhava para o outro. O restante dos parentes, sem saber do ocorrido, batia papo animadamente.

Ninguém reparou quando o primo recém-chegado saiu de fininho da sala. Fuçou vários cômodos da casa até achar o que procurava: uma tesoura grande, daquelas de corte e costura. Voltou como quem não quer nada, foi se chegando até ficar ao lado do primo. Num gesto rápido, agarrou um chumaço das longas madeixas e passou a tesoura. Todos os parentes precisaram agarrar os dois para que a coisa não terminasse em sopapos.

Ficaram uns seis meses sem se falar. Depois, a voz do sangue falou mais alto e voltaram a ser grandes amigos.

2 pensou em “HISTÓRIAS QUE OUVI

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