DEU NO JORNAL

Luís Ernesto Lacombe

A Nau dos Insensatos, em gravura alemã do século 16.

A Nau dos Insensatos, em gravura alemã do século 16

A ordem é perseguir, caçar, prender, tirar os proventos, cada centavo. A insanidade tem risinhos terríveis e mete-se em tudo, cerca, aprisiona. A loucura rompe direitos, garantias, a privacidade, o sigilo. Os desvarios invadem casas, bagunçam armários, gavetas. O mundo é dos loucos, dos raivosos, dos tiranos, dos violentos.

Não haverá mais opinião, críticas, não haverá mais leis, só as leis doidas dos doidos. Não haverá mais mundo real, só o mundo dos doidos. Eles exigem silêncio, inexistência. Não haverá mais horizonte, não haverá mais amplidão. Todo espaço será reservado aos malucos da pior espécie. Eles andam por aí, abraçados, se esparramando.

Estão destruindo tudo, definindo com delírios o que é verdade e o que é mentira. Eles são um grande erro com poderes totais. É deles que vêm a intolerância, a discriminação, a injúria. Vêm deles a ameaça e a violência. Toda forma de injustiça, de descalabro, de incompetência. E o que se oferece nesse caos? A impossibilidade de defesa.

Tudo se inverteu, está tudo ao contrário. Sanidade e loucura foram viradas do avesso. E os loucos de verdade não querem oposição, decidiram que jamais serão desmascarados. Não aceitarão sua doença, não se fecharão no hospício. São autoridades do abuso, do absurdo. São a ilegalidade e o veneno.

São o poder absoluto, insano, a arbitrariedade, a ditadura, a tirania, o estado de exceção. São a exclusão do que realmente é certo, correto. São o veto a soluções. São criadores de caso. Loucos, mentirosos, é isso que eles são. Dão de comer ao ódio e se chacoalham em gargalhadas esganiçadas.

Querem tirar o ar, sufocar, esganar, estrangular, enforcar. Querem quebrar braços e pernas, esmigalhar. Liquidar, suprimir, exterminar, com a pose mais louca de salvadores da pátria, da humanidade tão pobrezinha. Estariam em camisa de força numa democracia de verdade, mas se estabeleceu o descompasso, e suas ordens passaram a ser cumpridas e aplaudidas.

Não ficará ninguém. Há loucos no poder. E precisamos fazer alguma coisa, incansavelmente. Precisamos, no mínimo, gritar contra eles. Há loucos no poder, e os que deveriam nos defender estão tratando cuidadosamente de seus conchavos. Há loucos no poder, e a maior loucura é não atuar contra eles.

3 pensou em “HÁ LOUCOS NO PODER

  1. Navio dos Loucos
    O Navio dos Loucos ou A Nave dos Loucos ou, ainda, A Nau dos Insensatos é uma pintura do artista brabantino Hieronymus Bosch (1450 — 1516), executada em óleo sobre madeira, com 58 cmx 33 cm. Faz parte do acervo do Museu do Louvre, em Paris, onde chegou em 1918 e é exibida com o título de La Nef des fous. Como as demais obras do autor, carece de uma datação precisa. Alguns especialistas indicam que seja de 1503-1506 (Wundram indica, simplemente, que é posterior a 1490). De todo modo, parece claro que se trata de uma obra tardia de Bosch.

    Um barco, sobrecarregado de ocupantes que estão se banqueteando com comida e vinho, forma o centro do quadro. Está à deriva e já está muito longe do continente. Seu mastro não tem velas, é uma árvore caducifólia de cuja copa uma face demoníaca espreita. Em vez de remo, um dos ocupantes do barco segura uma colher de madeira na água. Um bobo se senta bem acima e de costas para a cena. Ele parece desinteressado, talvez entediado, como se ele, um bobo, fosse menos tolo do que as pessoas que passam o tempo no barco de maneira viciosa e blasfema. Um pequeno grupo se diverte, tentando pegar com a boca, sem usar as mãos, um espécie de pão que está pendurado. Algumas pessoas nuas estão na água, onde um passageiro, ao fundo, vomita. Em meio à folhagem, uma coruja, símbolo da sabedoria. No mastro, uma bandeira com um crescente, interpretado como símbolo muçulmano – e portanto, não cristão – ou como uma alusão aos lunáticos, ou seja, aos loucos, condenados a vagar em um navio sem rumo.

    A obra critica, de forma alegórica, os costumes da sociedade da época: o desregramento dos costumes presente em todos os grupos sociais (incluindo o clero, como se pode ver, em primeiro plano, na pintura). Os protagonistas são uma monja franciscana e um goliardo que se divertem, tentando fincar os dentes no pão pendurado por um fio.

    A pintura, tal como a conhecemos hoje, é parte de um tríptico que foi cortado em várias partes. A Nave dos Loucos correspondia a um dos painéis do retábulo e atualmente tem cerca de dois terços do comprimento original. O terço inferior do painel pertence à Universidade Yale e é chamado Alegoria da Intemperança. O outro painel remanescente, que manteve aproximadamente o seu comprimento total, é a Morte do Avarento, e se encontra na National Gallery of Art, Washington, DC. Os dois painéis, juntos, representariam os dois extremos, prodigalidade e avareza, condenando e caricaturando ambos. O Caixeiro-viajante (ou O Vagabundo ou O Filho Pródigo) foi pintado atrás do painel direito do tríptico. O painel central, se existia, é desconhecido.

    A obra de Bosch situa-se entre os séculos XV e XVI, época de profunda crise religiosa e social. A pintura flamenga é fiel à tradição religiosa. Na Itáia emergiam os princípios do Renascimento, a partir do descobrimento da perspectiva e do conhecimento da anatomia, enquanto nos Países Baixos ainda se conservava uma estética ligada às tradições medievais, conforme atesta a obra de Bosch, marcada pela eterna luta entre o Bem e o Mal.
    A nave dos loucos é um tema recorrente nas tradições de Flandres no século XV. De fato, a obra de Bosch encontra suas fontes também na literatura do período. Em 1494, foi publicado na Basileia o poema satírico moral alemã A nave dos tolos (Stultifera Navis ou Das Narrenschiff), de Sebastian Brant. Em sua simbólica nave, Brant acolhe loucos de todo tipo para apresentar um desfile das fraquezas humanas. Uma de suas estrofes diz: «É melhor seguir sendo laico do que comportar-se mal dentro das ordens». Há muitas semelhanças entre o livro e a representação pictórica de Bosch, e é bem possível que o pintor se tenha baseado no poema. Segundo Louis Desmonts, o quadro era parte de uma série de pinturas que ilustravam os cantos principais do poema de Brant. No poema, um grupo de loucos embarca em uma nave para Narragonien, a terra prometida dos insanos e, antes do naufrágio, chegam a Schlaraffenland, a terra da riqueza.

    Também há semelhanças notáveis com o Elogio da loucura, de Erasmo. De fato, a metáfora da barca era uma das mais frequentes na Idade Média e se encontra igualmente em Die blau schuÿte (“A barca azul”), de Jacob van Oestvoren.

    Portanto, a relação que Bosch estabelece entre «vício» e «loucura» é uma constante na literatura do século XV. Nesse quadro, o artista adverte de forma burlesca sobre a perda dos valores eclesiásticos, a corrupção do clero e a negligência dos homens no tocante à religião, no ocaso da Idade Média. Como escreve Foucault em sua História da Loucura na Idade Clássica (1964), as diversas formas plásticas e literárias nos mostram que, desde o século XV, a face da loucura tem assombrado a imaginação do homem ocidental.

  2. O Brasil, vulgo Banânia, virou uma caquistocracia.
    Derivada do grego kakistos (superlativo de “mau”) e kratos (“poder”), a palavra significa “o governo dos piores”. Inventada no século XVII para descrever a ascensão política de cidadãos menos qualificados ou menos escrupulosos, se aplica perfeitamente a esse bando de ladravazes que se apoderaram da nação.

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