JOSÉ PAULO CAVALCANTI - PENSO, LOGO INSISTO

Depois dessa lama do caso Master (com envolvimento de ministros do Supremo), e das eleições, voltamos a nosso dia-a-dia. Com atrasos. E isso faço ao lembrar dois amigos, com notícias faz pouco – uma ruim, outra boa. Amigo é coisa pra se guardar bem dentro. Shakespeare até dizia (Ricardo II), “É numa alma que se lembra dos bons amigos”.

Recordo ainda, nesse começar de texto, bela mensagem de Fernando Pessoa (Soares, no Desassossego) ao amigo Sá Carneiro: “Não reparamos que éramos um só,/ Que cada um de nós era uma ilusão do outro,/ E cada um, dentro de si,/ O mero eco do seu próprio ser”. Aqui, agora, falo desses dois.

1. GUSTAVO SÁ CARNEIRO, médico, especialista em acupuntura, e roqueiro. Estava eu com dor nas costas, por conta de saque mal dado no tênis. Recomendaram que fizesse acupuntura, com o melhor do Brasil. Gustavo, claro. E o procurei. No consultório, a secretária disse que poderíamos entrar na sala. Não o conhecia, então. Mas o lugar estava sem ninguém, chegou pouco depois e foi logo dizendo: – “Estou atrasado porque acabei de vir de Júpiter”. Após o que completou, olhando para mim, – “E o senhor, que me diz?”.

Respondi com uma pergunta – “Isso é metáfora ou descrição física de alguma aventura estelar?”. – “Foi uma viagem interplanetária”. – “Então digo que você é uma lapa de doido, grande”. – “Sou, mas o senhor é o primeiro cliente que teve coragem de me dizer. E sabe por que?” – “Não”. – “Porque o senhor é mais um jupiteriano. Também nasceu lá”.

E ficamos os dois rindo, juntos. Tanto que, nas consultas seguintes, só me chamava de Jupiteriano. Bela pessoa. De bem com a vida. Pena que tenha partido. Para Júpiter, quem sabe?, onde nasceu. Ele e eu, parece. Viva Gustavo!!! Saudades.

2. JESSIER QUIRINO, arquiteto, artista e gênio. Ele ainda é do tempo em que se escrevia cartas. E, aqui, lembro curiosa citação de Pascal (Cartas Provinciais), “Só fiz esta carta mais longa porque não tive tempo de a fazer mais breve”. Sem contar que Jessier escreve com letra desenhada, bonita, própria de arquitetos. Semana passada recebi, dele, essa que lhe bateu nas mãos e transcrevo a seguir:

“Itabaiana, 15 de agosto de 2026. Meu bom e velho cumpadre Zé Paulo. É sobre avareza, o assunto:

“A estrada de ferro de Crato p’ra Fortaleza parava em Iguatu – CE. O Major José Procópio de Souza (homem de extrema avareza) foi para a capital – Fortaleza, e deixou um seu trabalhador, Antônio Gomes, esperando no terminal ferroviário. Por três dias, findando na sua passagem de retorno ao Crato.

“Nisto, o pobre matuto teve que se virar, p’ra sobreviver em terra estranha. O Coronel, por ser muito sovina e desumano, deixou pouco dinheiro p’ras refeições e outras necessidades do matuto. Este, ao encontrar um amigo que ia até Fortaleza, escreveu carta ao Major, p’ra ser entregue em mãos. Eis a Carta:

“Major Zé Procópio. Eu quero lhe perguntar se EU, Antônio Gomes (o popular Gominho), seu trabalhador, EU SOU SANTO? Porque, se eu sou santo, vosmecê traga um oratóro, p’ra me incolocar dentro, aqui em Iguatu. Porque, quem deixa vinte real, prum pobre trabalhador passar três dia, solto como jumento em sombra de igreja, esse pobre, só sendo santo. Ass. São Gominho de Zé Gome”.

Só mesmo Jessier. Por falar nele, em conversa, lembrei que Aurélio Buarque de Holanda, cadeira 30 da Academia Brasileira de Letras, considerava palavra mais bonita, em nossa língua, ‒ “Libélula”. E perguntei, ‒ Compadre Jessier, e qual a mais feia? Respondeu, na hora, ‒ Fome.

Grande resposta, grande figura, grande personagem, Viva Jessier!!!

Um comentário em “GUSTAVO E JESSIER”

  1. Meu nobre Doutor Jurista, Tri-Acadêmico e Alvirrubro,
    grandes histórias. Feliz de quem desfruta da ventura de ter amigos jupiterianos, como Gustavo, e terráqueos, como Jessier. Melhor deles falar, que de eleições.
    Receba meu sempre abraço,
    Xico

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