João Paraibano:
Faço da minha esperança
Arma pra sobreviver
Até desengano eu planto
Pensando que vai nascer
E rego com as próprias lágrimas
Pra ilusão não morrer.
Onildo Barbosa:
Quando o dia vai embora
A tarde é quem sente a queixa
O portão da noite abre
A porta do dia fecha
A boca da noite engole
Os restos que o dia deixa.
Zé Saldanha:
Fiz versos bonitos e com estilo
Olhando as belezas do vergel;
Na promissão da terra leite e mel
Vi de perto a estátua de Berilo,
Medi as águas que tem no rio Nilo
Estudei muito tempo o hemisfério,
Dei certinho as lições do isotérmico
Estudei tudo do livro herogramático,
Trabalhei muito tempo de astronáutico
Conhecendo o segredo planisférico.
Sebastião Dias:
Quando o chão está molhado
aparecem coisas boas:
se levantam cogumelos
que as capas parecem broas;
os sapos chocam de ruma;
bordam com cachos de espuma
o cenário das lagoas.
Diniz Vitorino:
Na terra paraibana
foi onde eu pus os meus pés.
Caminhei pintando os lírios
dos majestosos painéis,
que formam telas sedosas
nos aromáticos vergéis.
Vi os dias infantis,
cheguei na adolescência,
cantei olhando pra o céu,
bebendo divina essência
dos frutos que Deus espreme
na taça do inocência.
No tempo da mocidade
fui ídolo dos cantadores;
dos cantadores que foram
meus fãs, admiradores,
e hoje me negam bom-dia
pra magoar minhas dores!
Eu sei que não estou seguro
nesta profissão que estou:
sou ferido sem ferir,
chorando pra festa vou,
sofro, mas só deixo o palco
depois que termina o show.
Siqueira de Amorim:
O chifre pra muita gente
Seja linheiro ou com dobra
Serve para corrimboque
E guarda rapé com sobra
E ainda sendo queimado
Serve para espantar cobra
Se numa casa qualquer
O chifre é dependurado
Serve para trazer fortuna
E pra tirar mau-olhado
Cura também dor de dente
Se for chifre de veado
O chifre sendo linheiro
Lá pras bandas do sertão
Bota-se na prateleira
Da bodega ou no balcão
Para tirar a coragem
Do caboclo valentão
Mas o chifre na cidade
É coisa mais diferente
Serve para fazer palheta
Botões de ceroula e pente
E só não dá muito certo
Sendo na cabeça de gente.
* * *
DICIONÁRIO PARAIBÊS – Vicente de Campos Filho

Todos sabem no Brasil
Que o idioma é português
Assim como lá na França
Todos falam o francês
Por isso, na Paraíba
Falamos PARAIBÊS.
Quem não tem dinheiro é LISO
Quem é rico é ESTRIBADO
NÃO TER COMO CAIR MORTO
É ser LISO E LASCADO
Quem não dá sorte é PÉ FRIO
Quem tem sorte é CAGADO.
Axila é SUVACO
Cisco no olho é ARGUEIRO
Longe é LÁ NA CAIXA PREGO
Matuto é BERADEIRO
O alcoólatra é PINGUÇO
Mas também é CACHACEIRO.
Um mal cheiro é uma CATINGA
Também pode ser INHACA
Na axila é SUVAQUEIRA
Quem fecha um botão ATACA
Quem se vai PEGA O BECO
Quem entra em casa EMBURACA.
Longe é a BAIXA DA ÉGUA
O ali é ACULÁ
Devagar é SÓ NA MANHA
Correr é DESIMBESTAR
O de cima é o de RIBA
Botar no chão é ARRIAR.
Mulher bonita é VISTOSA
Mulher feia é CANHÃO
Quem se zanga DÁ A GOTA
Quem dá bronca DÁ CARÃO
Menino que anda lento
OH… MENINO REMANCHÃO!
O otário é MANÉ
O malandro é MALAQUIA
Estar com pressa é AVEXADO
Dizer: “Vem logo” é “AVIA”
E quem se espanta com algo
Diz assim: “AFF MARIA!”.
Caprichar é DAR O GRAU
Mal feito é ARRUMAÇÃO
O que é bom é ARRETADO
O medroso é CAGÃO
Pessoa boa é FILÉ
E puxa saco é BABÃO.
Briga grande é ARRANCA RABO
Briga pequena é ARENGA
Problema grande é BRONCA
Na justiça é PENDENGA
A mulher virgem é MOÇA
Mulher da vida é QUENGA.
Mulher grávida é BUXUDA
E parir é DESCANSAR
Falar alto é DAR UM BERRO
Falar baixo é COCHICHAR
Quem se cala FECHA O BICO
Confessar é DESEMBUCHAR.
Conversa mole é ARESIA
Escapar é ESCAPULIR
Precisar é CARECER
Dar risada é SE ABRIR
Desistir: PEDIR PINICO
Torcer o pé: DESMENTIR.
Quem mora pra lá de longe
Mora na CAIXA BOZÓ
O barulho é ZUADA
Homem brabo é MORORÓ
E quem nunca se casou
Já FICOU NO CARITÓ.
Mulher é RABO DE SAIA
O sem valor é FULEIRA
O chifre chama-se GAIA
Diarreia é CAGANEIRA
O rapaz que tá solteiro
Tá SOLTO NA BAGACEIRA.
O termo “entendeste?” é “VISSE?”
Consertar é EMENDAR
“Me admira” é “SOXTÔ!”
Dedurar é ENREDAR
Molho de carne é GRAXA
Dar um encosto é TRISCAR.
Frango assado é GALETO
Dar aperto é ARROXAR
Puxa saco é XELELEU
Folgar mais é AFROXAR
Pedaço de pedra é XEXO
Passar ferro é ENGOMAR.
Quem tem raiva é ENFEZADO
Quem não escuta é MÔCO
O pão-duro é AMARRADO
O botão de som é PITOCO
Pernilongo é MURIÇOCA
Resto de lápis: COTOCO.
Demorar-se é CUSTAR
Até logo é INTÉ
Regar a planta é AGUAR
Cambalhota é CANGAPÉ
Comprimido é CACHETE
Forró é ARRASTAPÉ.
O arrogante é BESTA
Apertado é ACOCHADO
Sandália é ALPERCATA
Com folga é AFOLOZADO
Tumulto é FUZUÊ
Escondido é ACOITADO.
Sujeito medroso é FROUXO
Destemido é ARROXADO
Rapaz alto é GALALAU
Tímido é ENCABULADO
Homem alto é VARAPAU
Homem bobo é ABESTALHADO.
Confusão grande é MUÍDO
E folgado é FOLOTE
Desbotado é FRANGOTE
Grampo de cabelo é FRISO
Bando de ladrão: “MAGOTE”.
O assanhado é ENXERIDO
Se assanhar é SE ENXERIR
A flor chama-se FULÔ
O fecho ecler é RIRRI
Sapo grande é CURURU
Deflorar moça é BULIR.
Correr é DAR UMA CARREIRA
O cismado é ESCABRIADO
Coisa ruim é FULERAGEM
Se não presta é DERRUBADO
O pedinte é ESMOLÉ
Cansado é ESTRUPIADO.
Palavrão é NOME FEIO
Vigiar é PASTORAR
Enganar é DAR UM MIGUÉ
Rir dos outros é MANGAR
Fofoca chama FUXICO
Persistir é PELEJAR.
Dar a volta é ARRUDIAR
Malandro junto é CAMBADA
Gente sem classe é MUNDIÇA
Porrada é CIPUADA
Ousadia é CABIMENTO
E cuspida é GOIPADA.
Passar vergonha é VEXAME
Pessoa inquieta é DANADA
Abóbora é JERIMIM
Fácil é BRONCA SAFADA
O mal-estar é GASTURA
Dose da cana é LAPADA.
Sanitário é APARÊI
O GALEGO é todo louro
O bombom chama CONFEITO
Chifre é CHAPÉU DE TOURO
Dizer: “venha” é dizer: “CHEGUE”
Namorar é FURAR O COURO.
Do homem que é mulherengo
Diz-se que é RAPARIGUEIRO
Tudo que é ruim é PEBA
Dirige mal é CANGUEIRO
Toda planta é PÉ DE PAU
Todo último é DERRADEIRO.
Zangado é TÁ COM A BIXIGA
A nuca chama CANGOTE
Do bobo diz-se que é LESO
Dar cascudo é COCOROTE
Estourar é DAR PIPÔCO
Dar um pulo é DAR UM PINOTE.
Perna fina é CAMBITO
Perna aberta é ARREGANHADO
Perna torta é CAMBOTA
Perna em cima é ESCANCHADO
Perna desigual: ZAMBETA
Não rimar é PÉ QUEBRADO.
Olho aberto é ARREGALADO
Amalucado é DOIDIM
Água com açúcar: GARAPA
E sacolé é DIM-DIM
Zombar de alguém é ZONAR
E frescura é PANTIM.
É assim mesmo que se fala
Na Paraíba da gente
E se quiser aprender
Mostre que é CABRA QUENTE
Mostrando admiração
Comece dizendo: “OXENTE!”.