GRANDE MOTES, GRANDES GLOSAS

Moacir Laurentino e Sebastião da Silva glosando o mote:

Sinto a última esperança se queimando
Na fogueira da seca nordestina.

Sebastião da Silva:

Outro mote bonito aqui está,
Vem falando de crise e sequidão
E nessa seca que há no meu sertão,
Piauí, Pernambuco, Ceará,
Não se ouve o cantar do sabiá,
Do canário de crista da campina,
E a cigarra também não faz buzina,
Não tem ave do campo mais cantando.
Sinto a última esperança se queimando
Na fogueira da seca nordestina.

Moacir Laurentino:

Essa dura e cruel situação,
Da maneira que muita gente está
Paraíba, Sergipe e Ceará,
Rio Grande, Alagoas, Maranhão,
Tá despida toda vegetação,
Não tem mais folha verde na campina,
Essa seca cruel e assassina,
Com sol quente que vêm lhe sapecando.
Sinto a última esperança se queimando
Na fogueira da seca nordestina.

Sebastião da Silva:

Na fogueira tremenda do verão,
No sertão está tudo esturricado,
Está magra a criação de gado,
Está morta a nossa plantação,
Acabou-se a nossa produção,
Que a seca pra nós é assassina,
Eu espero uma luz da mão divina,
Que só DEUS é quem pode estar ajudando.
Sinto a última esperança se queimando
Na fogueira da seca nordestina.

Moacir Laurentino:

No sertão é um grande desafio,
Não tem pássaro mais cantando na mata,
Não tem água descendo na cascata,
Está seco do jeito de um pavio,
Falta água em represa lá do rio,
Não tem água de fonte cristalina,
O problema da seca contamina,
E o fantasma da fome rodeando.
Sinto a última esperança se queimando
Na fogueira da seca nordestina.

Sebastião da Silva:

Paraíba que é tão rica e boa
Tá passando a maior dificuldade,
Está seco em Mari e Soledade,
Cajazeiras, Pombal e João Pessoa,
Não caiu mais no chão uma garoa,
Nem em Patos, Teixeira nem Campina,
Só no vale da linda Petrolina
É que a água ainda está passando.
Sinto a última esperança se queimando
Na fogueira da seca nordestina.

Moacir Laurentino:

O sertão vive hoje nu e cru,
Sertanejo não tem mais vez nem voz,
Está seco demais o nosso Orós,
Onde passa tristonho o boi zebu,
Vi a seca perversa em Iguatu,
Aveloz, Castanhal, Araripina,
Até mesmo o espaço de Campina
Não tem nuvem pesada desfiando.
Sinto a última esperança se queimando
Na fogueira da seca nordestina.

Sebastião da Silva:

Nosso povo padece, sofre tanto,
E pra que venha uma chuva pra o sertão,
Muita gente inda faz uma oração,
Inda reza uma prece no recanto,
Inda faz a promessa e rouba santo,
Para ver se essa seca se termina,
Mas a seca é cruel e assassina,
Cada dia, ela vai contagiando.
Sinto a última esperança se queimando
Na fogueira da seca nordestina.

Moacir Laurentino:

No sertão só tem nuvem de poeira,
“redemoinho” por toda tardezinha,
Não tem porco, guiné e nem galinha,
Pelo mato só tem muita caveira,
Vejo o povo matuto lá na feira,
Em cidade maior ou pequenina,
Um matuto se escora na esquina,
Com o outro tristonho lastimando.
Sinto a última esperança se queimando
Na fogueira da seca nordestina.

Sebastião da Silva:

É devido essa seca tão ruim,
Fica o povo enfrentando sofrimento,
Falta pasto pra o bode e pra o jumento,
Nosso gado não come mais capim,
Todo verde que tinha levou fim,
O saguim já não come mais resina,
Tem somente uma ave de rapina
E a fome no campo se alastrando.
Sinto a última esperança se queimando
Na fogueira da seca nordestina.

* * *

Cícero Moraes glosando o mote

Tudo que há de beleza
Deus colocou no sertão.

A suprema divindade
Caprichou no seu trabalho
Não deixou serviço falho
Fez com grandiosidade
Construiu com qualidade
Retocou com perfeição
Quem quiser diga que não
Mas afirmo com certeza
Tudo que há de beleza
Deus colocou no sertão.

Se a seca nos traz penar
Por vermos mata cinzenta
O sertanejo se aguenta
Sabe como se virar
Come o que tava a guardar
Derradeira produção
E o seu silo de feijão
É sua maior riqueza
Tudo que há de beleza
Deus colocou no sertão.

Quando chove em minha terra
A natureza se agita
Cria uma imagem bonita
Matuto o feijão enterra
Planta lá no pé da serra
Porque é de barro o chão
E ali, a produção
Será maior na grandeza
Tudo que há de beleza
Deus colocou no sertão.

Cobra, sapo e caçote
Aparecem na invernia
Eles não têm simpatia
Porque a cobra dá bote
Se correr ou der pinote
Ela pega à traição
Faz de sua refeição
O pequeno sem defesa
Tudo que há de beleza
Deus colocou no sertão.

Um céu bonito estrelado
Que não há noutro lugar
Quem observa o luar
Fica logo encantado
Um vaga-lume amostrado
Completa a orquestração
Da bela composição
Do quadro da natureza
Tudo que há de beleza
Deus colocou no sertão.

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