Há uma estranha patologia social que acomete certos espíritos domesticados: a necessidade quase litúrgica de ver todos agrupados, catalogados, alinhados e, de preferência, ajoelhados diante de alguma engrenagem coletiva que lhes dite o que pensar, o que repetir, a quem reverenciar e em qual direção moral devem inclinar o pescoço. Para muitos, existir parece insuficiente; é preciso pertencer. Não basta raciocinar; urge aderir. Não se admite a solidão intelectual de quem caminha por convicção própria. É necessário um selo, uma bandeira, uma fraternidade, uma comissão, uma sigla, uma ordem, um círculo, uma irmandade ou qualquer outro teatro burocrático onde almas voluntariamente tuteladas possam sentir o conforto pueril de não precisar pensar por si.
Eu, porém, nutro um apreço quase herético pela autonomia.
Não porque despreze a convivência humana — seria uma tolice misantrópica e pueril —, mas porque sempre me causou profunda estranheza essa devoção febril por estruturas que, sob o verniz da organização, frequentemente ocultam mecanismos de conformismo, vaidade grupal, hierarquias de ego e a silenciosa substituição do pensamento pela adesão.
Há indivíduos que, ao descobrirem que alguém não pertence a partido algum, irmandade alguma, confraria alguma, agremiação alguma ou clube de iluminados autoproclamados, olham com a perplexidade quase zoológica de quem observa um animal improvável.
“Mas como?”, perguntam.
“Tu não és filiado?”
“Não participas?”
“Não te identificas?”
“Não te engajas?”
E por trás dessas perguntas, muitas vezes, esconde-se uma premissa tacitamente ridícula: a de que o homem só adquire densidade social quando incorporado a alguma máquina ideológica, cívica, ritualística ou institucional.
Discordo com a serenidade cortante de quem não precisa pedir licença para pensar.
Jamais me encantou a ideia de submeter minha consciência a catecismos partidários, cartilhas ideológicas ou fidelidades de rebanho travestidas de militância esclarecida. A política organizada, quando excessivamente idolatrada, frequentemente transforma homens em repetidores de slogans e mulheres em guardiãs histéricas de ortodoxias ocasionais. Não raro, o sujeito deixa de pensar e passa a reproduzir. Troca o cérebro pela sigla e a reflexão pelo aplauso tribal.
E o fenômeno não se restringe à política.
Há confrarias, ordens, clubes, fraternidades e associações que, embora revestidas de respeitabilidade social, frequentemente carregam consigo o fascínio quase medieval da pertença cerimonial. Reuniões, títulos, protocolos, solenidades, hierarquias, símbolos, formalidades e aquela velha tentação humana de confundir ritual com profundidade. Como se usar insígnias, sentar-se em mesas deliberativas ou participar de encontros regados a discursos autocelebratórios convertesse automaticamente alguém em entidade moralmente superior.
Não converte.
A pompa não fabrica lucidez.
O rito não gera caráter.
A filiação não substitui inteligência.
O pertencimento não garante grandeza.
Sempre preferi o desconforto fértil da liberdade ao conforto plastificado da tutela. Pensar por conta própria é um ofício solitário e, por vezes, ingrato. Exige coragem para contrariar tribos; exige serenidade para não implorar aprovação; exige firmeza para suportar o espanto daqueles que confundem independência com arrogância e autonomia com rebeldia vazia. Mas há uma dignidade rara em não terceirizar a consciência.
Não desejo que estruturas definam o que devo admirar.
Não desejo que grupos ditem o que devo defender.
Não desejo que organizações me instruam sobre quais indignações são permitidas, quais silêncios são elegantes ou quais crenças são aceitáveis no mercado das virtudes públicas.
Se quero refletir, reflito.
Se quero discordar, discordo.
Se quero me afastar, afasto-me.
Se quero permanecer só com minhas ideias, minha música, meus livros, minha ciência e meu silêncio — permaneço.
E nisso não há isolamento patológico. Há escolha. Porque a liberdade, quando compreendida em sua forma mais austera, não é gritaria, exibicionismo ou pose pseudoanárquica de salão. Liberdade é não precisar de tutorias emocionais, ideológicas ou institucionais para validar a própria existência.
Há quem se realize em partidos.
Há quem floresça em irmandades.
Há quem encontre sentido em clubes, conselhos, ordens ou fraternidades.
Que lhes faça bem. Mas não me peçam reverência àquilo que jamais me despertou interesse. Não me seduz o coro. Não me impressiona a liturgia da obediência. Não me encanta a arquitetura social da submissão elegante. Gosto de pensar por conta própria. E não quero minha vida organizada por estruturas que não me interessam. Se isso incomoda alguns, talvez não seja um defeito da liberdade. Talvez seja apenas o incômodo inevitável que a independência causa em espíritos excessivamente acostumados a marchar em fila.