MARCOS MAIRTON - CONTOS, CRÔNICAS E CORDEIS

Há poucos dias, fiquei sabendo que a canção “Admirável gado novo”, de Zé Ramalho estava completando 42 anos. Dizia o jornal que “até hoje, o cantor e compositor, de 72 anos, não deixa de incluir o hit em shows ao vivo. Quando o faz,’levanta’ o público”. 

Dizia ainda o jornal que, “no último dia 21, a canção virou assunto nas redes sociais após ser mencionada no caderno de provas do primeiro dia do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem)”.

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Nada disso me surpreende, porque “Admirável gado novo” – uma referência à obra “Admirável mundo novo”, de Aldous Huxley, é uma dessas canções que não se desgastam com o tempo.

Aliás, no tempo atual do Brasil, marcado por grande polarização política, com numerosos grupos de pessoas que apoiam cegamente um ou outro líder, chamar o outro de “gado” virou um xingamento bem popular.

Tocado pelas reflexões que me foram trazidas pela inclusão de “Admirável gado novo” no ENEM, chamei uma turma que gosta de tocar, para darmos a nossa própria interpretação da música.

10 pensou em “GADO NOVO

  1. Muito legal, MMM! São realmente exatos 42 anos quando alguns diziam o protestavam usando as músicas e suas letras. Belchior, Ednardo, Zé Ramalho e Amelinha. Belchior/Ednardo com seu Pavão Misterioso e, depois outras letras imortalizadas pela voz inesquecível e sempre reverenciada de Elis Regina (cuidado meu bem, o sinal está fechado pra nós, que somos jovens…!). Antes, bem antes. Luiz Gonzaga e João do Vale utilizaram outro tipo de linguagem de protesto.

  2. Existe uma enorme diferença entre o gado de direita e o de esquerda. Apenas uma coisa une os dois lados e não é o chifre. O ódio a Moro.

    • Penso que a essência da gadice é a falta de vontade própria. Gado que é gado vai pra onde indica o tocador do berrante.
      Nessa linha, talvez Moro também tenha seu próprio rebanho. Será?

      • Todos nós cometemos nossos enganos. Em 2018 escolhi convicto o presidente que não tinha programa bem-acabado, mas em linhas gerais prometia o que eu julgava ser o modelo correto. Tenho comigo os discursos do dia da vitória e da posse do atual presidente, na época meu escolhido. Infelizmente nada, ou quase nada (para ser mais preciso), do que foi proposto foi executado. Tenho fidelidade as ideias, não as pessoas, por isso não posso repetir o erro.
        Não acho que errei ao acreditar nas promessas, assim como 57 milhões de eleitores, mas seria muito errado defender posturas opostas ao compromisso assumido. Assim como muitos deixaram de seguir Lulla, muitos deixarão Bolsonaro na saudade. O gado continua cegamente fiel ao Mentiroso e ao Corrupto. A maioria não é cega nem gado.
        Deixo para o amigo Marcos Mairton e outros que porventura venham a ler, um trecho muito interessante do livro “Autoengano” de Eduardo Gianetti, que expõe a consequência da fé sem consciência (até rimou). Desculpe pelo comentário longo.
        “O fervor religioso, por exemplo, com frequência mobiliza aquilo que um homem tem de melhor e de mais elevado para colocá-lo a serviço do que há de pior e mais abominável. Da mesma fonte sincera de onde brota o sacrifício e a abnegação genuína pelo próximo parece nascer, também, a espantosa e atroz cegueira que santifica, aos olhos do crente, a brutal perseguição e extermínio do semelhante. Combinação análoga de grandeza e perversidade – de uma superestrutura “divina” no acreditar a serviço de uma infraestrutura “demoníaca” no fazer – parece acompanhar, mutatis mutandis, os casos mais aberrantes de entusiasmo ideológico e fanatismo político. O grau de cegueira, nesses casos, é função direta da força do acreditar.
        Um padrão de conduta recorrente nos tempos da Lisboa inquisitorial revela até que ponto pode chegar o autoengano do fanatismo religioso. As sentenças dos autos de fé continham uma cláusula pela qual os hereges que fizessem uma retratação convincente receberiam o “privilégio” de serem enforcados antes de serem lançados as chamas. Para o público devoto, contudo, tamanha indulgência era descabida. Tomados por uma fúria divina e de um sentido irreparável de justiça, os fiéis frequentemente atropelavam a decisão das autoridades, sequestravam o herege e garantiam a todos o espetáculo público e incomparável da queima do penitente em carne viva.
        Haverá exemplo mais patético que este de como o prazer diabólico e inconfessável com o sofrimento alheio pode se fazer passar, na subjetividade do crente, pela mais piedosa e imaculada boa-fé?
        Há um fio secreto ligando o autoengano trágico de coletividades tomadas por imagens delirantes de justiça, regeneração e superioridade, de um lado, e o autoengano pedestre e prosaico do cotidiano individual, de outro”
        Meu abraço fraterno e meus votos de um final de ano feliz e de muita paz.

        • Puxa vida! Que riqueza sua resposta!
          Não é à toa que tantos passam a frequentar o JBF e não largam mais!
          Assim como você, me ligo mais às ideias que às pessoas. Mesmo assim, às vezes é difícil admitir que alguém que admiramos cometeu um erro, ou pior, uma indignidade.
          Alguns não conseguem sequer perceber quando isso ocorre. Somos menos razão do gostaríamos.
          Muito obrigado por enriquecer tanto nossa coluna!

  3. Marcos Mairton e C. Eduardo,

    Esse debate enriquecedor entre os nobres literatos só eleva o ibope do JBF, que se torna referência Nacional pela credibilidade e confiabilidade que nos passa a cada dia.

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