JOSÉ RAMOS - ENXUGANDOGELO

Cesto com ovos de galinha caipira

Um amigo fraterno que viveu e morreu em Pindaré-Mirim, por anos foi o responsável pelo abastecimento da cidade, com pães. Início da madrugada, todos os dias, já levantava da cama e começa “bater a massa do trigo”. Quem não conheceu Paulo, e jamais comeu o pão que ele fazia, não nasceu em Pindaré-Mirim ou nunca acordou naquela cidade.

Pindaré-Mirim é um antigo município do Maranhão, cidade onde primeiro foi instalada neste Brasil, energia elétrica como força motriz. As demais cidades, onde antes de Pindaré-Mirim “chegou a energia elétrica”, são capitais dos estados.

Engenho Central “São Pedro” em Pindaré-Mirim no Maranhão

Mandado construir por um grupo de canavieiros da região, o Engenho Central São Pedro, aproveitando o leito do caudaloso rio Pindaré para transportar seus produtos no abastecimento das cidades vizinhas com o açúcar produzido no engenho, contratou a construção, instalação e funcionamento de uma linha férrea para fazer a ligação entre o Engenho e a Fazenda Santa Filomena, onde era produzida a cana-de-açúcar.

Após incompreensível abandono, o Engenho Central São Pedro foi totalmente restaurado no ano passado pelo Iphan, sendo transformando num Centro de Atividades para os moradores da cidade e ponto turístico onde abriga peças e valores da Cultura Popular do Maranhão.

Pois, dito isso e informado, num início de tarde qualquer, depois da sesta habitual, Paulo encostava a cadeira de macarrão plástico na varanda frontal da casa e, além de “esquentar os miolos” com um litro da cachaça Pitu, tinha e mantinha ao seu redor um selecionado grupo de pinguços para escutar suas prosas. Nenhum Pedro Bó no grupo que escutava, mas ninguém se ausentava, pois bebida de graça prende qualquer um.

Não faz tanto tempo assim, Paulo, numa prosa muito divertida sobre algumas figuras emblemáticas da cidade, contou que, certo dia alguém entrou no comércio de Pepeu (nome fictício!) procurando ovos de galinha caipira. Um cesto cheio de ovos estava sobre o balcão de madeira, ao lado de ossos, carne de porco e peixes salpresados. Pepeu apontou para o cesto e perguntou debochadamente:

– Ovos, é isso aí?

O freguês já ficou um pouco sem graça pelo deboche, mas continuou com as perguntas, passando também a escolher os ovos caipiras. Pegou um ovo, balançou ao lado do ouvido; separou. Pegou outro ovo, balançou novamente ao lado do ouvido, separou. Pegou o terceiro ovo, balançou ao lado do ouvido e, quando ia separar, foi interrompido por Pepeu, que gritou:

– Pare amigo! Pare! Você não quer comprar ovo! Você quer comprar é maracá! E, maracá eu não vendo. Quem vende é Zé Bimbim (nome fictício), o maior boieiro da cidade!

“Maracá” – instrumento de percussão usado no bumba-boi do Maranhão

4 pensou em “FREGUÊS DE BODEGA

    • Maurício, na realidade, existe no “sertão cearense” uma expressão popular que nunca procurei entender: “o ovo tá gôro”, ou “o ovo tá gouro”. Quando a gente diz que tá “chôco”, tá querendo dizer que a galinha já chocou e aquele ovo já tem pinto dentro. E, quando a gente “balança ou sacode o ovo no ouvido” embora não dê para ouvir nada, é para testar se ele está “desunerado”, que, traduzindo, quer dizer que a clara misturou com a gema. Coisas do sertão. Mas, que uma gemada de ovo é saudável, isso é!

      • Dom José:

        Na minha zona de fronteira, dizer que “o ovo go(u)rou”, significa que – por qualquer razão – “o ovo não chocou”.

        E, por analogia, o verbo “go(u)rar” significa que “não ir adiante, falhar (definitivamente), não dar certo”, como por exemplos:

        “O meu namoro go(u)rou”;
        “O negócio dele go(u)rou.”;
        “A foda go(u)rou.”;
        “Cumé qui tu gorô, seu burro?!?”;
        “Nem tenta!!! Vai gorá.”

        Aliás, há uma expressão bem comum, subentendo uma enorme falha(da) de algo ou de alguém;

        “Má, qui baita gorada!”

        Quanto a compra de ovos, o bolicheiro tinha (e tem) sempre uma vasilha com água, para tirar a dúvida se o ovo está bom ou não.

        Posto o ovo nela, se fica (na horizontal), no fundo, é porque está bom.

        Como a casca do ovo não é interissa, ou seja, tem furinhos microscópicos, as bactérias do ar ou da sujeira, podem facilmente penetrá-lo, iniciando o seu apodrecimento, que se traduz na produção de gazes putrefatos, no seu interior, o que fará com que comece a flutuar.

        Qualquer inclinaçãozinha ou semiflutuação ou flutuação, indica o grau de dias da postura à extrema putrefação, isto é, de velho a podre.

        Naturalmente, que os que (no fundo) ficam já se aproximando dos 45º, e em diante, serão rejeitados.

        E isso, de ficar sacudindo – primeiro que não se ouve nada, só serve para misturar a gema com a clara.

        Se o freguês ou a freguesa fazia ou faz isso, o bolicheiro o/a obriga a levá-lo.

        Bueno…, como tu disseste, que um ovo – preparado a gosto ou uma gemada – é coisa bem boa, isso é!!!

        E, na expectativa da publicação dos teus livros – Deus queira e os anjos digam amém!!! – que isso, tão prometido, não “go(u)re”!!!,

        Um baita abraço,
        Desde o Alegrete – RS,

        Adail.

        • AAA: arred égua, macho véi! Vou tentar dizer mais o que, depois de uma aula de “ovocultologia” dessas? Num sô nem besta, né não?

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