MAURÍCIO ASSUERO - PARE, OLHE E ESCUTE

A decisão da Ford de encerrar as atividades de produção no Brasil não se pode dizer que foi surpresa, afinal, em 2019 a unidade de São Bernardo do Campo já havia sido fechada e isso acendeu uma luzinha de alerta nas concessionárias em todo Brasil. Este ano, precisamente, faria 20 anos que a empresa atuava em Camaçari – BA num acordo fruto de uma “violenta” guerra fiscal entre os estados, até Pernambuco se ofereceu.

Quando Antônio Brito foi governador do Rio Grande do Sul, ele negociou com a GM e com a Ford a instalação dos parques de produção em terras gaúchas. Havia um pacote de incentivos fiscais que foi renegociado pelo governo Olívio Dutra, dentre os quais, o aporte de R$ 420 milhões, mais ou menos, como contrapartida do estado para financiamento do capital de giro. Olívio Dutra vetou esse financiamento e Ford não aceitou. Antônio Carlos Magalhães, Senador pela Bahia em 1999, ofereceu tudo que a Ford pleiteou, vendendo, inclusive, um terreno a preço simbólico. A Ford ganhou isenção de impostos federais, estaduais e municipais, tais como 100% de redução do imposto de importação, redução no IPI sobre a aquisição de bens de capital e, salvo engano, havia também isenção do imposto de renda sobre os lucros. Isso mesmo.

ACM brigou com FCH ameaçando, inclusive, deixar a base de apoio do governo caso o congresso não mudasse a lei para permitir a instalação da Ford na Bahia. Marco Antônio Maciel, então Vice-Presidente, colocou o PFL na defesa do pleito e a lei foi mudada. Dilma, mais tarde, criou o INOVACAR que atrela benefícios fiscais à investimento em P&D.

A SUDENE concedeu benefícios fiscais por 20 ou 30 anos para empresas que se instalarem no nordeste. O parque industrial do Curado, em Recife, tinha empresa como Tintas Coral, Romi, Phillips, Gerdau, Microlite, enquanto em Paulista você encontrava a Hering, Pirelli, etc. Acabou o benefício fiscal estas empresas fecharam suas portas. Estavam aqui porque os custos de produção eram menores, mas não me recordo que alguma parcela do lucro fosse reinvestida na região. Assim, do ponto de vista dos benefícios que a Ford recebeu, trata-se de uma grande sacanagem sua saída do país. Agora, não estou aqui me colocando como advogado do governo federal, mas não foi o presidente FHC quem levou a Ford para a Bahia, foi um senador e até onde sei a Bahia tem três no exercício do mandato. A Bahia tem um governador e Camaçari tem um prefeito. O que fizeram? Nada. Transferiram a responsabilidade que é mais fácil e encontraram respaldo nas redes sociais.

O balanço patrimonial da Ford e o demonstrativo de resultados estão disponíveis na internet. Entre 2015 e 2019, o passivo cresceu 14,94%. Eu destaco três pontos: aumento de 19,65% na dívida de longo prazo, aumento de 11,91% na dívida de longo prazo com o Ford Credit e o mais interessante, um aumento de 65,10% em ações em tesouraria. Sabem o que é isso? É o registro contábil que a empresa faz quando ela própria compra suas ações no mercado. Por que a Ford estaria comprando suas ações? Há um registro de prejuízo de US$ 315 milhões, mas não consegui separar por unidade produtiva.

O dano causado pela saída da Ford não vai ser apenas nos seus funcionários. De cara a Bahia vai perder, por baixo, uns R$ 5 bilhões, mas há uma cadeia produtiva que será afetada duramente que é formada por fornecedores da empresa, alguns desses, exclusivos. Vamos tomar como exemplo o caso dos fornecedores de tinta. Na linguagem econômica chama-se Monopsônio ao tipo de mercado onde há somente um comprador. O Monopsônio é uma imperfeição do mercado tanto quanto o Monopólio, caso em que há apenas um vendedor. Ambos geram custos sociais, mas entendo que o monopsônio é pior do ponto de vista da reestruturação. A Ford fechou, mas seus fornecedores possuem capacidade de continuar ofertando seus produtos em outros mercados. Não é fácil, mas é na crise que surgem as boas ideias.

Economicamente, a Ford está fazendo uma reestruturação de investimentos com foco para produzir mais na América do Norte. Saiu da Austrália, saiu do Brasil, optando pela Argentina cujo mercado é 10 vezes menor que o nosso, mas que produz o SUV que custa mais caro do que os carros produzidos no Brasil que se situam na faixa dos R$ 50 mil. O que a Ford está fazendo é valorizando a margem de contribuição do seu produto. Por que usar uma estrutura grande para fazer um carro que custa R$ 50 mil quanto se pode usar uma estrutura menor para fazer um carro que custa R$ 200 mil? A questão é custo e competividade. A Ford foi fundada em 16/06/1903, em Michigan, EUA, portanto, trata-se de uma empresa que tem 118 anos de existência e vale no mercado US$ 39,95 bilhões, enquanto a Tesla, fundada em 2003, vale US$ 96,96 bilhões. É preciso desenhar?

A Argentina possui condições econômicas piores que a nossa, mas a estrutura operacional da Ford no Brasil é muito grande e com a queda em vendas e produção gera-se uma ociosidade difícil de reverter, ainda mais porque a empresa ocupa o 5º lugar em vendas no Brasil. A decisão, portanto, é uma questão de sobrevida de uma empresa centenária. Até onde eu sei, o governo tentou negociar, mas como eu disse isso também era dever dos gestores da Bahia porque os empregos principais estão lá. Uma questão precisa ser tratada: a indústria automotiva precisa de apoio. As vendas estão despencando e, de fato, é preciso atrair investimentos. Acredito que é hora de rever o INOVACAR para tornar a indústria mais competitiva.

Em adição, a tecnologia na indústria vai continuar crescendo e aquelas que não se prepararem vão mesmo sair do mercado. Pessoas serão substituídas por robôs que não adocem, não recebem salários, não tem encargos sociais, trabalham 24 horas por dia e não são sindicalizados.

Assista ao vídeo a seguir e veja um sistema de produção inovador que já existe:

Enquanto isso ocorre, as universidades criam disciplinas como ento-afro-matemática.

Muito útil para competir com esse tipo de mudança tecnológica.

20 pensou em “FORD: DECISÃO PRECIPITADA?

  1. “A matemática é tradicionalmente ensinada de uma maneira que os alunos são expostos a um ensino por si só já doutrinário, mas não necessariamente ideológico. O problema é se transformarem essa disciplina em caráter ideológico, o que não é muito difícil de acontecer”.
    Leia mais em: https://www.gazetadopovo.com.br/educacao/afro-matematica-sera-materia-obrigatoria-em-curso-de-universidade-federal-1625q3gzbok0ijlhw0x6iecsj/
    Copyright © 2021, Gazeta do Povo. Todos os direitos reservados.

  2. Pois é Marcos. Eu ensinei Matemática e Física no ensino médio. Ensino cálculo diferencial, e adjacências, mas prezo pela beleza da ciência. Meus alunos usam HP 12C, planilhas de Excel, e diversos softwares para análise de dados.

  3. Mauricio ……

    Acho que a Industria Automobilística sempre foi protegida e nunca gerou resultados , para o Brasil é claro, de que dela se esperava …….

    Acho que ainda continuamos na dependência da importação de “inteligência” externa para “montarmos” nossos carros

    É como a lei da informatica (1984) que nos obrigou praticamente a comprar os piores produtos “montados” no Brasil, com os piores preços do mercado mundial …….

    Com relação a matemática fico indignado quando ouço “… não gosto de matemática,,”

    Considero isso uma absoluta falha do professor ……
    = Uma disciplina que não precisa decorar, é coerente, lógica e consistente.
    = Disciplina que não preciso esperar correção “de professor” pois se o resultado está correto é fácil de verificar
    = Depende apenas de organizar o raciocinio e, finalizando …… ……
    = É usada diuturnamente “todo dia a toda hora” até pelos “anarfas” em outras disciplinas……

    Na 3a. ou 4a série do primário tive uma professora de Matemática (Dona Zeca) que me ensinou
    = regra de três da maneira mais criativa possível, com balas (produto) e feijões (grana)
    = experiências com entrada e saída dágua em um tanque (banheira), função dos tempos para enchimento e esvaziamento do mesmo, já que naquela época, náo existia a “vazão” de entrada e saída

    Depois Dona Marly, com a explicação do teorema de pitágoras, fazendo as bolinhas dos quadrados dos catetos, preencherem perfeitamente o quadrado formado pela hipotenusa……..

    O importante não era aprender matemática, mas sim, ONDE usaríamos o aprendizado daquela aula…………

    Aprender assim tornava a matemática simplesmente sensacional …….

    Cinemática com as nossas viagens de férias, para saber se nossos pais corriam ou não pelas estradas, medindo distâncias, tempos de viagem e tempo das paradas……..

    Cinemática aplicada a balística, já que era importante o angulo de lançamento, seja das pedras para quicar nos lagos, seja para atingirmos os adversários com nossos estilingues e nossa munição de mamomas ……

    Fisica e Matemática ……. Depois de entendida não era preciso estudar, no máximo fazer exercicios, o que era uma delicia pois só acertávamos tudo…….

    Nem dependia de esperar o professor para corrigir …. ..

    Quem não gosta de samba bom sujeito não é ….
    Quem não gosta de matemática, bom sujeito não teve como professor……..

  4. Matemática é a ciência das ciências. Não gostava e não gosto. Mas me esforcei pra aprender e agradeço meus professores por um ter noção de integral, derivada e outra coisitas mais.

  5. Vestibular JBF EAD 2021. Berto irá dar aulas à distância para o público fubânico de ento-afro-matemática? Como não temos na pátria educadora alguns milhares de Assueros, Bertolucis, Rômulos, Maurinos, Adônis, Rodrigos Leoninos à frente da educação brasileira (uma andorinha só não faz verão), “a produtividade média do brasileiro é de apenas um quarto da do trabalhador americano e de um terço da do alemão ou do coreano. Perdemos muito mercado [lá fora] porque a baixa produtividade dá como resultado baixa competitividade”, POIS somos péssimos em português (interpretar textos), matemáticas (os cálculos mais simples aterrorizam nossos estudantes, que de história e geografia continuam sem nada saber.

    Lamentável era…. lamentável é!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

  6. A Ford e a indústria automobilistica dos EUA são o retrato perfeito do “crony capitalism” ou capitalismo de compadres.

    No início, havia um monte de empresas brigando pela preferência do consumidor. Inovações surgiam a toda hora.

    Com o tempo, algumas empresas que iam mal eram compradas por outras, que ficavam maiores, até que uma hora só sobraram Ford, GM e Chrysler. A Chrysler quebrou nos anos 80, foi salva com um empréstimo bilionário do governo, quebrou de novo, foi comprada pela Mercedes, depois de um tempo a Mercedes desistiu, a Chrysler acabou sendo comprada pela Fiat. A GM faliu na crise de 2008, a empresa que existe hoje foi “recriada” pelo governo.

    Com a concentração, as empresas pararam de se preocupar em agradar o consumidor e passaram a bajular o governo em troca de vantagens e subsídios. Subsídio vicia igual jogo, cachaça e droga, o viciado sempre quer mais.

    A Ford não sabe mais produzir com eficiência para concorrer com os japoneses, coreanos e europeus, e está recuando para os segmentos menores e mais rentáveis. Daqui a pouco vai estar só fabricando picapes ou vai ser comprada por algum grupo chinês.

    No caso específico do Brasil, as montadores sempre fizeram chantagem para conseguir benefícios e com a saída da Ford as demais ganharam poder de barganha. Pode ser o começo de uma avalanche. O país precisa pensar quanto custa manter uma montadora aqui e fazer a conta para saber se vale a pena.

    É fácil olhar só o lado do “temos que manter os empregos”, sem olhar quantos empregos são destruídos em outros setores, pelos impostos que subsidiam as montadoras e pelo próprio custo do produto: qualquer empresa que precise de veículos na sua atividade já começa em desvantagem no Brasil porque nossos veículos estão entre os mais caros do mundo.

    Vale lembrar uma coisa importante: o pobre aqui subsidia o carro do rico. O cara que compra um Celta ou um Uno para trabalhar, paga ICMS, IPVA e licenciamento maior, e só pode usar gasolina, que é mais cara. Enquanto isso, o rico tem IPVA menor na sua Range Rover, Pajero, Hilux, Ram, etc, e pode usar diesel que é mais eficiente e também paga menos imposto. É por isso que a Ford da Argentina (ainda) não fechou: para vender Ranger cabine dupla subsidiada pelos pobres que compram Uno.

    • Marcelo, um colega de departamento me mandou um vídeo de Jacques Wagner informando ao povo baiano que, após uma reunião com Guedes, a ford continuaria. Antes de avaliar a veracidade eu disse que isso era chantagem e se o governo fizesse isso estava se submetendo porque daqui a um ano eles fariam de novo. O vídeo era de 2019. No governo Dilma veio o INOVACAR. As montadoras investem em projetos de pesquisas e o que for investido é deduzido dos impostos. Você tem razão: querem sempre mais. Aqui, falei sobre a Sudene, quem tinha incentivos fechou quando acabou. Eu não lembro de nenhum protesto de governo nenhum contra a saída das empresas.

Deixe uma resposta