
O senador Flávio Bolsonaro (PL) dá declarações à imprensa em Brasília (DF) após a apuração dos resultados oficiais do primeiro turno
As primeiras pesquisas do segundo turno colocam Flávio Bolsonaro numericamente à frente de Lula. Na Quaest (registro no TSE BR-02197/2026), divulgada no sábado, antes do primeiro turno, o senador já aparecia 44% contra 42% do presidente. No Datafolha (registro no TSE BR-01708/2026), também divulgada na véspera do primeiro turno, o placar ficou 47% a 46% para Lula, diferença que cabe inteira na margem de erro e lembrando que esse instituto sempre infla o candidato à esquerda. Atlas e outros institutos repetem o mesmo filme: vantagem de meio ponto para cá, meio ponto para lá. O PoderData, na primeira pesquisa após o primeiro turno (registro no TSE BR-08134/2026) coloca, de forma mais realista, Flávio com 53% contra 47% de Lula. Quem lê manchete e já marca o churrasco da vitória está se precipitando, porém.
O primeiro turno serviu para medir o tamanho do antipetismo e a capacidade de Flávio de herdar o eleitorado do pai sem desabar. Passou no teste. O segundo turno é outra eleição. Lula deixa de ser o incumbente cansado disputando com uma meia dúzia de nomes e vira o candidato único da máquina, do medo e da mentira organizada.
E máquina, o PT ainda tem. Ministério, estatais, emendas, prefeituras aliadas, o caixa que não aparece na prestação de contas e a rede de artistas que troca cachê por palanque. A campanha de Flávio vai enfrentar o terrorismo eleitoral de sempre: o fim do Bolsa Família, o fim da aposentadoria, o tanque na porta da favela, o fim do voto feminino e a democracia em risco. Nada disso precisa ser verdade. Precisa apenas caber num vídeo de trinta segundos e circular antes que alguém chegue à fonte. A direita que trata isso como folclore já perdeu eleição assim.
O outro lado, porém, não está em festa. Casa onde falta pão, todo mundo briga e ninguém tem razão. Kátia Abreu, recém-chegada ao PT e responsável pela campanha no Tocantins, foi aplaudida na reunião da cúpula ao pedir menos Janja e mais Alckmin. Chamou o comando de “paulistas sem voto” e tratou o gospel da primeira-dama no comício como erro de estratégia. Janja respondeu que não sai do palanque, porque quem decide é o marido. Alckmin, o vice que deveria costurar o centro, continua de figurante.
Do lado do entretenimento militante, José de Abreu decretou a morte política de André Janones. Rachadinha, liderança usurpada da esquerda, gritaria de pastor: o ator velho de guerra não engoliu o deputado que montou o “Exército do Lula” no WhatsApp e prometeu virar a eleição na marra digital, mas teve pouco voto em sua própria candidatura. A briga é patética e, ao mesmo tempo, reveladora. Quando o projeto perde o chão, a militância passa a disputar o microfone. Ninguém ali está discutindo o preço da comida. Estão discutindo quem manda no resto do circo.
Nada disso absolve a direita da obrigação de trabalhar. Briga interna do PT não transfere voto sozinha; só mostra o clima de desespero com o resultado do primeiro turno. Artista ressentido não anula o alcance da tevê pública nem o pavor fabricado nas periferias. A rejeição a Lula continua alta, o Nordeste continua petista e o eleitor de centro ainda pode ser assustado na reta final. Quem já “ganhou” no grupo de família costuma ser o mesmo que some da rua quando o adversário liga a máquina.
A campanha do PL não está dormindo, ao menos. Tem apostado na política tradicional e atraído o apoio do centro, compensando a falta da máquina estatal petista. Além da capilaridade que o centrão oferece, esse apoio representa um termômetro melhor do que pesquisas tradicionais: essa turma só gosta de apostar no cavalo favorito. A reação dos mercados e as bolsas de apostas acrescentam lenha na fogueira do otimismo conservador. Mas deve ser um otimismo cauteloso, sempre.
O recado das pesquisas é simples. Flávio sai na frente no número que mais importa neste momento, o do segundo turno, e sai na frente sem ter a caneta, a verba e o horário eleitoral gratuito do governo. Isso é ativo. Tratar o ativo como título provisório é o jeito mais rápido de devolvê-lo. Arregaçar a manga não é slogan. É visita, é santinho, é palanque, é resposta rápida à mentira, é não entregar o centro de bandeja para o discurso do caos. E, como alertou Nikolas Ferreira, evitar bola dividida que em nada agrega.
Lula chega desgastado, com a família política em pé de guerra e um eleitorado que já o conhece demais. Pode tentar usar uma máscara, mas todos sabem o que ele fez nos últimos verões. Flávio chega com o vento das urnas e a desconfiança de quem ainda não o viu governar. A distância entre os dois cenários cabe numa margem de erro. Cabe também numa semana de preguiça. A direita que quiser o Planalto não tem o direito de relaxar. O outro lado, mesmo brigando por pão que não tem, ainda sabe ligar a máquina.