Acredito que a falta de coerência no ambiente político é uma consequência, também, do processo eleitoral e tenho minhas dúvidas sobre esse modelo proporcional que permite um determinando candidato ser responsável pela eleição de outros, de acordo com o quociente eleitoral. Com base nisso, os partidos pegam alguém famoso, como Clodovil, Tiririca, Romário e, agora, o compositor/cantor da música “Caneta Azul” como puxadores de votos. Clodovil, justiça seja feita, tinha um grau de conhecimento acima dos demais citados. Tiririca, por exemplo, sofreu para provar que sabia ler e escrever.
A legislação enxerga méritos na proporcionalidade, mas não deixa de haver críticas contundentes em vários casos. um deles é cada estado ter apenas 3 senadores. Há muitas críticas em relação a isto porque as pessoas comparam São Paulo – maior PIB do Brasil – com o Roraima cujo PIB representa uma fração de 0,2% do PIB nacional. Alguns defendem que a representatividade deveria pelo grau de importância econômica do estado, mas isso pode ser, de fato, um meio de aumentar desigualdades socioeconômicas.
Em meio a tudo isso, o que mais me incomoda são as coligações partidárias e o discurso medíocre dos pretensos candidatos. No primeiro caso, existem situações de dois partidos contrários, nacionalmente, formarem uma coligação no estado/município. Não era para ser de forma. As discordâncias deixam ser em termos de pautas, projetos etc. no âmbito em que se está. O partido A discorda das propostas do partido B numa eleição presidencial, mas são aliados na eleição para governador. Vejam: cada partido tem sua orientação político-partidária e suas metas.
Em relação ao discurso político há uma vastidão de exemplos, tanto no passado, quanto no presente, que dá nojo. Marina, Boulos, Tebet, Alckmin, Ciro Gomes, dentre outros, chamaram Lula de ladrão, o tempo inteiro. Todos admitiram a corrupção no PT, mas, exceto Ciro, todos estão no governo. Tábata Amaral construiu seu discurso criticando a corrupção – dos outros – , mas esqueceu que seu marido, João Campos, que se envolveu em denúncias de desvio de recursos públicos e o mais graves, mudou a ordem de classificação num concurso para beneficiar o filho do juiz que engavetou um processo contra ele.
Ciro Gomes bateu exaustivamente na corrupção de Lula. Disse nos debates que participou, e em entrevistas que deu, que “viu Lula se corromper”, no entanto, há duas semanas esteve ao lado de Aécio Neves, envolvido até a alma com a JBS, pedindo R$ 2 milhões que o “primo Fred” pegaria com Wesley Batista. Ciro, estava explicando o “chamado” do partido para ser candidato a presidente e não ao governo do Ceará. Ele fala abertamente da relação do pai do governador, Elmano de Freitas, com o PCC.
É nesse contexto que surgem os focos de incoerência: não tem como fechar um olho para os desmandos de quem lhe apoia, enquanto joga nas redes sociais as mazelas de quem está em disputa.
A incoerência abraça as decisões do STF. Alexandre de Moraes, não tem condições morais de condenar, mesmo merecido, quem quer que seja, por atos de corrupção. O grande decisor que defendeu com afinco o estado democrático de Direito, condenando pessoas que estavam no dia 08/01 vendendo água ou com uma bíblia na mão, está mergulhado no mais podre lamaçal de corrupção. E pior em tudo isso são os pares que “não enxergam crime” nas ações de Alexandre. De modo igual a Procuradoria Geral da República, entregue a mero paspalho que atua mais a serviço do descaso do que em benefício da sociedade.
Como se não bastasse, temendo as consequências da delação premiado, Alexandre desenterrou uma decisão do STF, a pedido do PT, sobre deleção premiada com o fito de se enquadrar nos termos daquele penduricalho de desmandos. Ocorre que cabe ao presidente da corte a decisão sobre a pauta de julgamentos e, ao que se sabe, Edson Fachin já avisou que a pauta está definida pelos próximos dois meses, fato que anula a possibilidade de arremedo de lei chegar até o plenário. Uma vitória parcial, mas para que não seja instrumento de proteção de Alexandre, seria importante que as tais delações ocorressem no curto prazo.
No mais, precisamos ter cuidado com tudo que dissermos em público, porque qualquer crítica aos ministros do STF é considerada afronta à instituição e ameaça à democracia. Gilmar Mendes solicitou que Romeu Zuma fosse investigado no âmbito do inquérito das fakes News. Exatamente aquele inquérito aberto de ofício por Toffoli e entregue, sem distribuição aleatória, para a relatoria de Alexandre de Morais e que até hoje, passados 7 anos, não produziu absolutamente nada.