Uma vez, no tempo em que eu era empresário, um fiscal da prefeitura visitou minha empresa e depois de olhar por tudo disse que havia uma irregularidade na instalação de esgoto. Eu procurei uma empresa especializada e pedi que eles resolvessem o problema. Quando o fiscal voltou e ficou sabendo, não ficou nada satisfeito – meu palpite é que ele queria que eu perguntasse quanto custaria para “quebrar o galho”, mas isso é só especulação minha. O fato é que ele começou a passar lá dia sim dia não perguntando se a obra já estava pronta e ameaçando me multar. Fui até o departamento da prefeitura que cuida disso e não consegui passar da portaria, onde uma mocinha muito jovem com um enorme crachá de estagiária disse que não era possível falar com ninguém.
Mas eu sempre participei da entidade de classe que nos representava, então liguei para o presidente e perguntei o que fazer. “Fale com o nosso vereador”, disse ele. Fiz isso. O vereador só perguntou qual o departamento e disse que me encontraria lá em meia hora. Quando nos encontramos, ele entrou comigo no prédio, passou reto por todas as secretárias e recepcionistas e entrou na sala de alguém que eu descobriria que era o chefe do chefe do chefe do tal fiscal. Cumprimentou o sujeito, me apresentou dizendo “Esse é o Marcelo, meu amigo, ele está com um problema”, virou-se para mim e disse “Pode falar sem medo, você está entre amigos”. Depois da conversa, o tal fiscal nunca mais apareceu.
Vocês repararam na expressão “nosso vereador”? Pois é, uma das atividades da nossa associação, como todas as outras, era escolher um vereador e um deputado estadual para “apoiar” em cada eleição. O tal apoio significava uma doação em dinheiro para a campanha, um ou dois jantares para o candidato discursar, e acesso liberado nas empresas para o candidato pedir votos. Depois de eleitos, eles passavam a ser “o nosso vereador” e “o nosso deputado”.
Porque é assim que as coisas funcionam no Brasil. Se alguém tenta resolver um problema na qualidade de cidadão, dá com a cara na porta. Mas acompanhado do “nosso político”, você entra na sala das “autoridades competentes” sem sequer marcar horário. Claro que dependendo do tamanho da empresa e da associação, o político pode ser um vereador, um deputado estadual, um deputado federal ou até um senador, isso para falar só do legislativo. O sistema é o mesmo para o executivo e o judiciário: uma mão lava a outra, o favor de hoje será retribuido amanhã, e assim por diante. Quem ignora isso, ou pior, nega essa realidade, não conhece o país onde vive.
Dito tudo isso, eu fico realmente espantado com a “indignação” que todos expressam com o tal “caso Master” e a sucessão diária de escândalos: “O político A falou com o Vorcaro!!”. “O político B telefonou para o Vorcaro!!!”. “O político C recebeu um favor do Vorcaro!!!!!!”. “O político D viajou às custas do Vorcaro!!!!!!!!!!!”. As exclamações aumentam mas o conteúdo é sempre o mesmo: alguém com muito dinheiro troca favores com gente do governo. Isso é a essência do funcionamento de nossa sociedade desde a chegada de D.João VI em 1808. Ou ninguém mais lembra da conversa de Michel Temer com Joesley Batista na garagem da residência presidencial? Alguém realmente acredita que políticos passeando de jatinho, se hospedando em hotéis caros ou se divertindo em festas com farta presença de “novinhas” é algo que só aconteceu agora, e que o dono do Banco Master foi o único a fazer isso? É uma ingenuidade espantosa, para dizer o mínimo.
O pior disso tudo é que estamos em época de eleição. É verdade que nas últimas décadas o país parece estar sempre em época de eleição, e uma semana após a posse dos recém-eleitos a imprensa e as redes sociais começam a debater a próxima eleição, mas no momento estamos MESMO no auge do período eleitoral, e a situação é a seguinte: Cerca de 80% do eleitorado é torcedor devoto de um dos dois grandes times que dominam o campeonato: a Direita Futebol Clube e a Esquerda Futebol Clube. Para estes 80%, toda notícia a favor do seu lado é automaticamente verdadeira e toda notícia contrária é fake news. Para estes 80%, os escândalos são irrelevantes. Se envolvem o partido adversário, é apenas chover no molhado; se envolvem o seu partido, são armação, mentira, intriga da oposição.
As pesquisas eleitorais e os resultados das eleições anteriores mostram que estes dois grupos são de tamanho muito similar. Isto significa que a eleição será decidida por uma fatia de aproximadamente 20% do eleitorado que é genericamente chamada de “indecisos”. Esse grupo envolve gente completamente desinteressada por política que admite decidir seu voto por motivos banais (muitas vezes no momento de votar), e também gente que tenta escolher o melhor (ou menos pior) candidato acompanhando os escândalos noticiados pela imprensa. Geralmente estes eleitores lembram-se apenas do escândalo mais recente, o que leva à seguinte conclusão: se nos últimos dias antes da eleição o escândalo predominante envolver o partido A, bom para o partido B. Se envolver o partido B, bom para o partido A. Em outras palavras, a eleição pode ser decidida por quem tem o poder de determinar o “timing” com que os escândalos chegam à imprensa.
É irônico que o mesmo país que parece acreditar que a escolha do próximo presidente é a única coisa que importa e a única solução possível para todos os problemas parece disposto a deixar esta escolha na mão de marqueteiros, acreditando em escândalos que no fundo nada têm de escandalosos.
Meu caro Marcelo. O seu texto revela exatamente o que eu disse no meu texto anterior. A República de Pindorama morreu. Não existe. Se o cidadão, dono originário do poder necessita de “nosso isso”, nosso aquilo”, seja vereador, deputado, senador, ou chefe de alguma repartição pública, só demonstra nossa falência como nação e a construção de um regime que pode ter o nome de patrimonialista, personalista, ou o catzo de asas, mas República nunca foi.
A pergunta é: Existe alguma saída, tem uma luz, uma microluzinha lá no fim do túnel, oscilando entre o sim e o não? Se alguém sabe, parodiando o larápio, me ajuuuda!!!
Marcelo, Zé Lagoa e Roque do Rei, também euzinha, patrasmente, tive que, após seis meses percorrendo repartições em busca de soluções, “recorrer a um vereador”, pois uma amiga minha, merendeira, ainda em fase probatória, estava sendo “perseguida” pelos chefões setoriais, com final do enredo bem parecido ao que citou o Bertoluci (sim a gora a Berê está segura, podendo fazer o que mais gosta: ver os pequenos merendando seus saborosos quitutes).
Pobre brésil, do jeitinho, do arranjinho, o vereador quebrador de galhos, das pequenas corrupções diárias. A pergunta será sempre a mesma: Existe alguma saída, tem uma luz, uma microluzinha lá no fim do túnel, oscilando entre o sim e o não? Se alguém sabe, parodiando o larápio, me ajuuuda!!!
E, uma vez mais confesso, só não largo esta josta de país unicamenxte por falta de grana.
Hoje Matilde está merendística. kkk
Atento ao que disse Paul Valéry: “É preciso ser leve como o pássaro e não como a pluma”.
Minha amiga Yayoi Kusama (sim, tem quem ama) me informa que não é nada fácil morrer na Terra do Sol Nascente, onde ficar velho é facim, facim… Japón cruza una barrera histórica: ya son más de 100.000 los habitantes que superan los 100 años (del total de 107.677 longevos, 94.298 son mujeres y 13.379 hombres), según el informe anual divulgado el 15 de septiembre por el Ministerio de Salud, Trabajo y Bienestar.
Hoje a idosa Matilde está longeva…
É fácil ficar velho, mas outras coisas não são tão fáceis por lá:
Uma pesquisa do ano passado mostrou que 40% dos homens entre 20 e 24 anos são virgens, e que os homens sem emprego fixo têm 8 vezes mais chance de chegar aos 40 na mesma condição.
Homens que moram sozinhos lá são chamados de sōshoku danshi, que significa “homens herbívoros”: eles não conhecem os prazeres da carne.
Como é maravilhoso aprender com os luminares do JBF. Hoje euzinha, aos 82, aprendi que 40% dos “inteligentes japoneses entre 20 e 24 anos são virgens ( sōshoku danshi, que significa “homens herbívoros”: eles não conhecem os prazeres da carne).
Tadinhos… Nunquinha espocaram a silibrina, vestiram a peruca no careca, molharam o pincel, fizeram saliência, deram uma sabugada, fizeram bobiça, sassaricaram, deram um tapa na periquita, viraram us zoios, amassaram o capô do Fusca, fizeram canguru perneta, deram lapada na rachada? Nunca xnheco-nhecaram, afogaram o ganso,rechearam a perseguida, esquentaram a perereca, nhanharam, comeram o fruto proibido, nadica de pôr a jiripoca pra piar e nem unzinho, tchaca-tchaca na butchaca?
Creio que por gastarem muito tempo estudando e trabalhando, não sobra aos jovens japas um tempinho para o doce, prazeroso e salutar esporte de alcova. kkkkk
Ah, euzinha não conhecia tais apelidos do ato sexual, mas minha amiga e quenga aposentda Zeffa Furunfa telefonou e me explicou cada um deles. kkkkk
Caro Bertolucci, isso aqui não tem jeito, não.. Lamento se pareço pessimista, mas a verdade é que este estado de coisas é tolerado, quiçá desejado pela sociedade. Só reclama quem não tem um “vereador” pra chamar de seu.
Caro Pablo, eu não tenho moral para chamar ninguém de pessimista. Já deixei de ter esperanças faz muito tempo. Meu consolo é que, como Brás Cubas, não transmiti a nenhuma criatura o legado da nossa miséria. Mas me preocupo com meus sobrinhos que tiveram a coragem de gerar crianças para viver nesse hospício.
Em primeiro lugar, Roque, Zé e Matilde, agradeço os comentários.
Tentando responder ao Zé Lagoa: eu acho que o primeiro passo para uma saída de nossa situação seria perdermos o hábito de chamar de “problemas” aquilo que são simplesmente as consequências das nossas escolhas. Enquanto nossa sociedade achar que deputados e vereadores devem ter o poder de passar por cima das leis e das regras para que possam “quebrar galhos”, não podemos esperar que esse poder não seja usado para outras finalidades. É a natureza humana.
Pessoalmente, o que me preocupa mais não é o rumo do Brasil, que já estamos acostumados, mas constatar que aquilo que chamamos “primeiro mundo” está indo na mesma direção.