CÍCERO TAVARES - CRÔNICA E COMENTÁRIOS

Texto escrito em parceria com o especialista em filme de faroeste mestre D.Matt

Cenário de Era Uma Vez na América na Ponte do Brooklyn, em Nova York

Era Uma Vez Na América é o deleite audiovisual definitivo de todo cinéfilo que se preza. Uma grande História de temas universais, que fala um pouco para todo mundo sem muito esforço. Longo – exatamente como tinha de ser -, este não é apenas um filme de gângster do qual nós já estamos habituados. É uma verdadeira aula de narrativa, com um desenvolvimento meticuloso magistral com começo, meio e fim. Ao fim da verdadeira jornada que é assisti-lo, Era Uma Vez na América, já faz parte da vida do espectador, e assim permanece por dias e dias; anos e anos.

Assim como Magnólia, O Senhor dos Anéis, Bem Hur e outros longas de mais de 3 horas de duração, há vários momentos que à primeira vista poderiam ter sido cortados, mas que ao repassá-los na memória nos damos conta do quanto belos e essenciais são e chegamos à conclusão de que nenhum deles deveria ser cortado. Não se mutila uma obra de arte.

Do elenco, nem precisa delongar muito, absolutamente perfeito, dispensa maiores comentários. Robert De Niro é o protagonista perfeito de todo filme que se possa imaginar, mas quem consegue roubar a cena mesmo é James Woods. Enfim, poder-se-ia escrever um livro inteiro apenas exaltando o quanto primoroso é este filme, os poucos problemas que podemos encontrar aqui e ali são completamente perdoáveis dado ao saldo positivo colossal do conjunto da obra. E a culminação dos arcos de Noodles e Max naqueles 25 minutos finais é de um brilhantismo narrativo rico de significados e entrega emocional de um nível que não se vê mais no cinema. Uma fábula perfeita das várias imperfeições humanas. Uma obra-prima atemporal.

De início chama atenção o local escolhido pelo diretor para o cenário do filme. Um bairro Judeu de Nova York e todos os personagens, cenários, movimentos de ruas, negócios, tudo gira em torno dos judeus. Em todo desenrolar do filme não se escuta um sotaque italiano. Os atores principais Robert de Niro, James Wood, Elizabeth MC Govern, e até Joe Pesci num pequeno papel se vestem em personagens judaicos, com leveza, sem qualquer vestígio de caricatura ou preconceito.

O filme depende quase que cem por cento da montagem, porque não tem uma continuidade definida e passa por diversas épocas entrelaçadas, montadas com grande genialidade por Nino Baragli, que com certeza teve a orientação do mestre Sergio Leone, pois só uma mente cinematográfica genial poderia dar um sentido naquele enorme caldeirão de acontecimentos, todos entrelaçados com tempos definidos claramente.

Todos os atores souberam captar as instruções do mestre Sergio Leone e se entregaram de corpo e alma, criando personalidades distintas, bastante reais, com um resultado de alta qualidade. As atrizes principais, Elizabeth MC Govern e Tuesday Weld têm um desempenho fora de série, principalmente a excelente atriz Mc Govern que pouco aparecia em filmes e durante vários anos participou da premiadíssima Série de TV inglesa Dawton Abbey, com um trabalho realmente extraordinário. E no filme em curso não fez diferente.

Os personagens de grande parte do início do filme foram interpretados por atores jovens muito talentosos e com atuações estupendas, dignas dos seus companheiros atores adultos. Uma cena extraordinária, inesquecível, é quando um dos garotos compra um doce para oferecer à namorada, com sentido de seduzi-la sexualmente. Enquanto espera a chegada da garota, ele começa a provar o doce e cada vez mais gulosamente vai comendo-o, numa ânsia de prazer, até devorá-lo completamente. Isto com gestos chaplinianos. Grande atuação do jovem ator, numa cena que mesmo dirigida pelo mestre Sergio Leone deve ter sido resultado de uma dezena de takes até chegar ao resultado extraordinário desejado pelo diretor.

É necessário ressaltar o trabalho primoroso da menina atriz que faz o papel da Elizabeth Mc Govern quando jovem. Que presença de cena, que mestria na exibição da sua expressão corporal! É uma grande atriz, num corpo infantil.

A trilha sonora, soberba, está com certeza entre as duas melhores entre as centenas de trilhas compostas pelo mestre Ennio Morricone. Que são, respectivamente, “Era Uma Vez No Oeste” e “Era Uma Vez Na América.”

É uma trilha no sentido clássico Ennio Morriconne, suave, melodiosa; sem altos e grandes movimentos auditivos. É uma música para ser ouvida e mais ainda para ser sentida, muito nostálgica, sempre ao fundo das cenas, numa melancolia triste que nos enleva. O tema principal é apresentado por intermédio de uma flauta de Pann. Pontua todo o filme e quase não chama atenção, porém o efeito é inesquecível.

Este filme, devido a sua montagem inédita e também por sua duração de várias
horas, não foi devidamente apreciado na época de lançamento. Porém, hoje é considerado um clássico e um dos mais geniais filmes do diretor Sergio Leone.

A conclusão a que se chega é que palavras não são suficientes para descrever a grandiosidade desta obra-prima, dirigida pelo inovador e sensacional Sergio Leone. Primeiro filme lançado em DVD no mundo, tamanha é a sua importância. Era uma Vez na América é um dos filmes mais injustiçados de todos os tempos, devido à falta de liberdade do diretor, no que tange à edição. O filme foi lançado com um corte de mais de uma hora e meia, pois, foi considerado longo demais pelos produtores. Um verdadeiro pecado que, dizem, causou o declínio na saúde do diretor. Quem assistiu ao filme na íntegra não consegue imaginar o corte de qualquer cena, muito menos de quase a metade da película.

O tema é épico. A trilha sonora de Ennio Morricone é impecável e o elenco, fantástico. A referida obra, fosse ela lançada em condições ideais, conquistaria, de certo, inúmeros Oscar. Melhor Filme, melhor diretor, melhor ator coadjuvante (James Woods), melhor roteiro original, melhor fotografia, melhor figurino, melhor trilha sonora, dentre outras categorias do tão relevante prêmio da academia. Assistir a este filme é fazer uma imersão em uma história que envolve a amizade, o romance, a lealdade, a violência do mundo dos gângsters, além de abordar questões sociais atemporais, tudo isso ao som da belíssima trilha sonora de Ennio Morricone. Era Uma Vez na América é imperdível para qualquer amante do cinema.

Trailer oficial legendado de Era Uma Vez na América

7 pensou em “ERA UMA VEZ NA AMÉRICA

  1. Hoje Cícero superou a Cícero… Once Upon a Time in America

    Este filme é sem dúvidas uma obra-prima da sétima arte. Na minha opinião pessoal é o melhor filme de todos os tempos, assim como Robert de Niro é Robert de Niro.

    “Era uma vez na América” é um epopeia de quase 4 horas, se eu dizer que essas 4 horas não cansam, é uma mentira, mas elas não pesam. Um drama épico no sentido mais cru possível do termo. Sergio Leone se superou a cada trabalho e encerrou sua carreira com o filme perfeito. Once Upon a Time in America é o deleite audiovisual definitivo de todo cinéfilo de verdade, que fala um pouco para todo mundo sem muito esforço.Esse é daquele tipo de filme que recomendo para todos meus amigos assistirem.

    Quando vi pela primeira vez, na hora que acabou eu não sabia o que dizer, só fiquei parado contemplando os créditos.

    Acho que é a sensação que todo cinéfilo busca ao assistir um filme. Esse me arrebatou de forma única, talvez seja meu filme favorito hoje, e por causa de Era uma vez na américa, Robert de Niro se tornou meu ator favorito, filme impecável, que o mestre Sérgio Leone seja louvado sempre por sua obra!

    Toda vez que alguém me fala dessa obra prima, aproveito minha insônia crônica para fazer amor com as quadrigêmeas amantes tailandesas e rever mais uma vez. Já perdi a conta de quantas vezes assisti.

  2. Mestre Sancho Pança,

    Seu valoroso comentário sobre Era Uma Vez na América nos honra e muito.

    Você não imagina!

    Não basta só gostar da obra-pima “Once Upon a Time in America”, do genial diretor Sergio Leone, que a cada filme se superava. A Trilogia dos Dólares é um grande exemplo. Quando mais se assiste mais se quer assistir! É preciso amar o que é bom, como as três tailandesas.

    Uma pena Sergio Leone ter se encantado em pleno auge da criatividade. Segundo se comenta (e é verdade!), sua saúde fragilizou-se por causa da crueza dos produtores que mutilaram Era Uma Vez na América que possui uma das fotografias mais clean do cinema de todos os tempos.

    O diretor Sergio Leone, apesar de ter se encantado cedo, revolucionou a maneira de fazer filme. Isso a história não apaga!

    Gostaria de lhe pedir um grande favor, Querido Colunista do Bom e do Bem: escreva mais sobre bêbados e cabarés. Você que quase nasceu num, conheceu o mundo todo numa boleia de caminha, e foque mais uma história dessas no Cabaré do Tio Berto.

    Minha próxima crônica vai ser sobre um bêbado chato, incomodatício, e vai ser dedicada ao nobre Colunista.

    • Bêbabos muito me apetecem, pois meu pai era um deles (minha mãe o salvou ao procurá-lo nas margens do Paraíba do Sul e encontrá-lo agarrado à vegetação marginal); cabarés muito me apetecem pois Tia Carmem, uma cafetina gaúcha lá da Azenha foi o grande amor da vida de Sancho. Vida que seque e histórias que contamos na boléia do caminhão fubânico dirigido por Berto e guiado por Deus. Olho na estrada, grande Cícero, que esburaca sempre está.

  3. Prezado Luiz Carlos

    Não é tão difícil assim, haja vista que aqueles amigos com que tenho mais afinidades, sempre nos encontramos e rezamos pela mesma cartilha. Como o
    amigo (peço licença para chama-lo assim ) pode ver pelo nosso trabalho
    publicado hoje, temos muita sintonia pois o texto que escrevemos a quatro mãos,
    além de muito trabalho, saiu primoroso e muito verdadeiro, isto confesso devido
    a insistente exigência do nobre colunista Ciro de publicar somente o melhor
    sem quaisquer desvios na verdade e análise do texto em pauta. Para confirmar
    o que digo, basta lembrar que este texto acima, já vinha sendo pautado e rabiscado
    a quase seis meses, e podado, acrescido , chorado, encantado e amado por tanto tempo, devido a qualidade superior do filme em questão, qualidade esta denunciada pelo amigo no seu excelente comentário, o qual foi de grande surpresa para nós, pois tenho certeza que o meu ilustre parceiro também desconhecia o seu extremo bom gosto cinematográfico

    Quanto a dificuldade de ser encontrado, não é por estrelismo. Simplesmente não concordo com essa explosão de exibição, cultuada atualmente, por isso cancelei
    Celular, Câmera de computador, o facebook que considero pornográfico e
    estou me refugiando cada vez mais dentro dos livros que chegam às minhas
    mãos. Esses sim são meus mais valiosos amigos de longos anos, sendo a
    meu ver a principal razão de estar ainda hoje aqui neste mundo ilusório
    depois de 85 anos de vivência corporal e agradeço a Deus por não ter
    ilusões materiais e vaidades estúpidas.

    Fico muito grato pela sua lembrança à minha humilde pessoa, e aproveitando a
    oportunidade, agradecer pela homenagem que o Amigo presta ao grande escritor
    espanhol criador de um dos melhores livros já publicados e um dos meus favoritos.
    Sancho Pança não não é mais um personagem fictício , ele ganhou vida
    graças `a sua criação inteligente e às páginas grávidas de bom gosto e
    de confraternização deste magnífico Jornal da Besta Fubana, sem similar
    em toda internet,

    Retribuo o abração.

    • Sempre um prazer imenso qualquer texto seu, grande mestre. E aumenta a sensação quando usa extenso texto para se dirigir ao tal Luiz Carlos.

      Creio que o amigo resolveu incluir-se nestes versos de Pessoa:

      Senta-te ao sol.
      Abdica
      E sê rei de ti próprio.

      É isso que acho. Que és rei de ti próprio na sabedoria de seus 85 belíssimos anos.

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