MARCELO BERTOLUCI - DANDO PITACOS

Esta semana, a celebridade Elon Musk está nas manchetes por anunciar que a compra do Twitter finalmente aconteceu. Mas no início do mês ele foi notícia no mundo em outro assunto, até mais importante, com a diferença que ninguém gostou.

No dia 3 de outubro, Musk tuitou o seguinte:

“Paz Ucrânia-Rússia:

– Refazer eleições de regiões anexadas sob supervisão da ONU. A Rússia sai se essa for a vontade do povo.

– Criméia formalmente parte da Rússia, como tem sido desde 1783 (até o erro de Khruschev).

– Abastecimento de água à Criméia assegurado.

– A Ucrânia permanece neutra.”

A postagem enfureceu o mundo das redes sociais e do jornalismo tradicional, porque ignorou o roteiro politicamente correto que exige que todos xinguem Putin e lambam as bolas do Zelensky. Para quem quiser deixar as modinhas politicamente corretas de lado, é uma boa oportunidade de refletir.

O primeiro ítem enfureceu a mídia ocidental porque mexe em um assunto inconveniente: o fato de que as províncias de Luhansk, Donetsk, Zaporijia e Kherson sempre foram mais ligadas à Rússia do que à Ucrânia, e a maior parte de seus habitantes se considera russo. Não devemos esquecer que as fronteiras que tem sido mostradas como “históricas” ou “tradicionais” da Ucrânia foram na verdade impostas na canetada pelos vencedores da 1ª Guerra Mundial, com quase nenhum fundamento histórico. Como logo após a guerra a Ucrânia passou a fazer parte da URSS, a fronteira passou a ser apenas uma formalidade. Se um novo plebiscito for realizado, existe uma grande chance de que o lado pró-Rússia ganhe novamente e deixe o ocidente com um enorme sorriso amarelo.

O segundo ítem segue a linha do primeiro e é ainda mais óbvio. A Criméia nunca fez parte da Ucrânia, nunca teve população ou cultura ucranianas. Se alguém tem “motivos históricos” para querer a Criméia de volta, seria a Turquia, que controlou a região entre os séculos 15 e 18 (obviamente um absurdo). O “Erro de Khruschev” que Musk cita ocorreu em 1954, quando a Ucrânia fazia parte da União Soviética, e a classificação da Criméia era apenas uma questão burocrática, já que Moscou mandava em tudo.

O último ítem, curto como é, põe o dedo na ferida. Desde o início do ano, a mídia ocidental vêm insistindo na estorinha que diz que a Ucrânia estava quietinha e tranquila, sem fazer mal a ninguém, até que um dia o bruxo malvado Putin acordou de mau humor e mandou atacar a pobrezinha, sem motivo nenhum, porque nos contos de fadas os bruxos malvados não precisam de motivos para ser malvados.

Essa narrativa é uma enorme bobagem, claro. Para começar, esquece o fato de que um golpe muito mal-explicado tirou o presidente Yanukovych do poder em 2014. Esquece, claro, que as províncias do oeste da Ucrânia apoiaram o golpe (desculpe, “Revolução”) enquanto as províncias do sul e leste, incluíndo as quatro agora anexadas, foram contra, e foram caladas com violência pelo novo governo pró-ocidente. E esquece de falar o mais importante: as conversas sobre a entrada da Ucrânia na OTAN.

A OTAN é uma aliança militar criada nos tempos da Guerra Fria com o único propósito de se opor à União Soviética. Reconhecer que a União Soviética não existe mais e que a Rússia não é uma ameaça implicaria em reconhecer que a OTAN não tem mais utilidade, e isso tiraria o emprego de muita gente, e tiraria um monte de dinheiro das mãos dos políticos (só a construção da nova sede em 2016 custou um bilhão de euros). Então, para manter o dinheiro circulando, foi necessário inventar uma guerra.

No momento, eu não arrisco uma previsão sobre a Ucrânia. O presidente Biden parece decidido a entregar o máximo possível de dinheiro aos fabricantes de armamentos enquanto fala sobre a “luta pela liberdade e pela democracia”, o que sempre soa bem na imprensa, especialmente quando quem está morrendo são estrangeiros desconhecidos. Os políticos da Europa estão contentes em ter um bode expiatório em quem colocar a culpa de seus erros (em especial a inflação crescente), mas podem mudar de idéia se Putin se ver acuado e resolver cortar o gás e o petróleo de vez.

A única certeza é que, como disse um sábio, “a paz não dá lucro”.

7 pensou em “ELON MUSK E A UCRÂNIA

    • Gengis Khan ocupou a Criméia sem aprovação da ONU, então a ocupação é ilegal. A Criméia deve voltar a fazer parte do Império Bizantino.
      Aproveitando o ensejo, podemos expulsar os anglos e saxões das Ilhas Britânicas e os visigodos da Península Ibérica, e devolver Cartago aos fenícios.

  1. Falando sério, caso algum dos meus leitores ache que na guerra Rússia-Ucrânia eu estou do lado da Rússia: NÃO, não estou. Estou do lado da paz, e acredito que em uma guerra não há lado bonzinho. Como diz o ditado popular, quando um não quer dois não brigam. Não existem governos “inocentes” na guerra há vários séculos, se é que algum dia existiu.

    Para dar um exemplo prático de como a narrativa majoritária é o contrário disso: desde o início da guerra em fevereiro, jornalistas que noticiavam as alegações russas sobre neonazistas ucranianos pouco se esforçavam para disfarçar o sarcasmo. Para quem assistia, era óbvio que isso era mais uma mentira nojenta do vilão Putin. Imagine só, neonazistas em um país bonzinho e pacífico como a Ucrânia? (vamos fingir que não sabemos que 99% das pessoas que juram que a Ucrânia é um país bonzinho e pacífico nunca tinha ouvido falar dela antes do início da guerra).

    Alguns fatos:

    – Em 1941 a Alemanha invadiu a Ucrânia, então parte da União Soviética.
    – Em 30/06/1941, Yaroslav Stetsko, líder (juntamente com Stepan Bandera) da Organização dos Nacionalistas Ucranianos declarou a formação do Governo Nacional Ucraniano, teoricamente independente e anti-URSS. Na prática, não era tão independente assim, já que o Ato de Proclamação oficial dizia que o país “teria estreita cooperação com a Grande Alemanha Nacional-Socialista, conduzida pelo seu líder Adolf Hitler, que estava criando uma nova ordem para a Europa e para o mundo”.
    – Dias depois, Stetsko escreveu uma carta a Hitler agradecendo ao exército alemão pelo apoio à proclamação do Governo Nacional Ucraniano e desejando a ele “uma rápida vitória” contra a URSS.

    A guerra acabou e os nazistas da Alemanha foram julgados e condenados. E na Ucrânia?

    – Stepan Bandera é nome de uma importante avenida em Kiev
    – Em 2010 Stetsko foi homenageado pelo presidente Yushchenko com uma placa colocada na casa onde ele morreu, em Munique.
    – A viúva de Stetsko, Slava, foi eleita três vezes deputada na Ucrânia entre 1997 e 2003.

    Para entender melhor: imagine se a viúva (ou filha, ou neta) de Himmler, Goebbels ou Meissner se elegesse deputada na Alemanha. Imagine uma avenida Hermann Goring em Berlin. Imagine o governo alemão colocando uma placa na casa onde Eichmann morava em Buenos Aires.

    Estou dizendo que toda a Ucrânia de hoje é neonazista? Claro que não. Mas também não acho que as notícias que surgiram sobre grupos paramilitares neonazistas devam ser sumariamente descartadas como mentiras. Por isso, repito: não estou “do lado” de nenhum deles. Estou do lado da paz, e acho que todos os governos envolvidos deveriam estar também.

    Por último: tenho lido gente se expressando na linha “Putin é comunista, eu odeio comunistas, todo mundo que odeia comunistas é meu amigo”. É bom lembrar que Hitler e seus amigos também odiavam comunistas.

  2. Marcelo,

    Eu estava em Kiev, na Ucrânia, quando a Rússia invadiu a Crimeia. Tentei fugir para a Bielorrússia e fui preso na fronteira entre os dois países.

    Conversei com muita gente e vi o real sentimento de ânsia por liberdade e integração com o ocidente, fugindo da nefasta influencia Russa. Tem muito mais coisa nessa estória do que supõe a vã filosofia.

  3. Adônis, eu nunca estive na Ucrânia, só sei o que li. De meus antepassados, o que lembro é que todos, sem exceção, tinham ódio dos “polacos”, não sei exatamente o porquê.

    Mas o que me parece inegável é que essa Ucrânia unida, pacífica e bem-intencionada só existe no desejo dos jornalistas, e a causa é um fato histórico inegável: essa Ucrânia com as fronteiras atuais nunca existiu. O povo de Kiev tem uma cultura e uma identidade completamente diferente do povo de Sebastopol ou de Luhansk.

    Veja estes mapas: se eles não mostram um país dividido, quero ser mico de circo:

    Azul é o partido pró-russia do Yanucovych (que foi derrubado no golpe de 2014), Rosa é o partido pró-ocidente da Yulia Timoshenko (que aliás se chama Partiya Bat’kivshchyna, traduzido em inglês como Fatherland Party. Será só coincidência que um certo alemão de bigodinho também falava muito em Vaterland?)

    Eleições para o parlamento em 2012:

    https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/6/6d/Ukr_elections_2012_multimandate_okruhs.png

    A eleição presidencial em 2010 (não sei se vai funcionar porque tem caracteres em cirílico):

    https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/2/26/%D0%94%D1%80%D1%83%D0%B3%D0%B8%D0%B9_%D1%82%D1%83%D1%80_2010_%D0%BF%D0%BE_%D0%BE%D0%BA%D1%80%D1%83%D0%B3%D0%B0%D1%85-en.png

    Se o segundo mapa não abrir, vá por aqui:

    https://en.wikipedia.org/wiki/2010_Ukrainian_presidential_election

    Em resumo, é claro que tem muito mais coisa nessa estória. Tem as grandes potências guerreando entre si mas no quintal dos outros e com o sangue dos outros. E tem esses nacionalismos bobos que acham que fronteiras desenhadas num papel são mais importantes do que seres humanos e devem ser defendidas com a vida (alheia, claro).

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