DEU NO JORNAL

Guilherme Fiuza

Pesquisas eleitorais não são profecias: cabe ao eleitor avaliar os números com discernimento, sem esperar que o Estado regule sua consciência

Muito já se discutiu sobre a definição de regras para divulgação de pesquisas eleitorais. A principal preocupação é que as pesquisas não induzam, de alguma forma, a escolha do eleitorado. É hora de admitir: as pesquisas de intenção de voto nunca foram o problema.

Já se cogitou proibir pesquisa próximo das eleições, já se imaginou restringir avaliações de intenção de voto fora dos períodos de campanha, já se propôs regular os vínculos mercadológicos dos institutos. Nada disso resolveria e jamais resolverá o problema — que está concentrado num lugar só: a cabeça do eleitor.

Assim como nas questões relativas à credibilidade da imprensa, o que vai resolver a questão da escolha eleitoral independente é o discernimento do indivíduo. Essa constatação não simplifica o problema. Ao contrário, estamos na era do policiamento das consciências. Hoje, com o pretexto de salvar as sociedades das más influências (das “ondas de ódio” e de “desinformação”, por exemplo), até censura prévia virou defesa da democracia.

Mas pode ser que não. Às vezes, determinados movimentos históricos surpreendem a inércia aparente e atropelam as nossas percepções. Seria a melhor notícia do mundo a falência, no curto prazo, do modelo de Estado-babá do cidadão.

Essa semente autoritária está na raiz da maior parte dos problemas de comunicação da atualidade. A própria imprensa andou trabalhando pela automutilação ao defender excrescências como a figura da “narrativa antiestatal” — uma forma tosca de estigmatizar o exercício livre da crítica ao poder. A consciência do indivíduo não precisa de regulação.

Assim é também no universo do debate eleitoral. Nenhum disciplinamento de pesquisas de intenção de voto será suficiente para eliminar tendências ou até distorções (falando-se do universo da boa-fé, fora tudo que existe fora dele). O próprio histórico de desencontros frequentes entre pesquisas e resultados de eleição seria suficiente para relativizar as projeções.

Quem tem que fazer essa relativização? O Estado? Alguma norma eleitoral? Alguma agência de checagem? Não. É o próprio eleitor, numa conversa franca consigo mesmo. Neste exato momento, há uma razoável variedade de projeções para a diferença de votos entre Lula e Flávio Bolsonaro. É mais do que suficiente para mostrar que pesquisa não é profecia.

Recentemente, o diretor de um instituto de pesquisa declarou que a rejeição a Lula estava ligada ao fato de o PT, segundo ele, ter tirado os pobres da miséria. É uma leitura, no mínimo, intrigante. Ela precisa saltar sobre todos os escândalos de corrupção verificados nas administrações petistas e até sobre as derrocadas econômicas — como a recessão recorde de meados da década de 2010 — que empobreceram profundamente a população.

Advogar que a razão central para se reprovar o PT é uma espécie de recalque elitista seria exótico para qualquer um. Para um diretor de instituto de pesquisa, fica bem mais do que exótico. E só ilustra como os retratos e as abordagens trazidas via representação estatística não se tornam matemáticas por causa disso.

Se determinado veículo de comunicação divulga sistematicamente pesquisas de determinado instituto, o eleitor tem todas as condições de discernir, por si mesmo, se há alguma tendência a favor de determinada corrente política. E estabelecer sua própria régua de relativização — ou até, eventualmente, de desconfiança.

O poder da consciência individual não pode ficar fora de moda.

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