MAURÍCIO ASSUERO - PARE, OLHE E ESCUTE

O covid-19 arrasou economias mundo a afora, até o momento, e não se tem ainda noção do tamanho do estrago. Não se sabe a velocidade de recuperação dos sistemas econômicos e nesse instante a preocupação maior tem sido no sentido de evitar mais mortes ou atenuar o número de mortes. Para alguns, a doença será um grande susto, mas para todos será uma necessidade de reaprendizagem econômica, sem precedentes.

Embora as ações do governo sejam na direção de manter renda das pessoas, não se vislumbra nenhuma garantia de manutenção de empregos. Por uma razão simples: o emprego aumenta (cai) se a produção aumentar (diminuir) e a renda que está sendo transferida só sustenta consumo em bens específicos. Serviços como turismo, gastronomia, lazer, responsáveis pela empregabilidade em regiões como o Nordeste, não são contemplados por essa renda emergencial.

Uma das ações do governo foi a redução do depósito compulsório. Foram R$ 135 bilhões injetados na economia que causaram pouco efeito porque a liquidez dos bancos não aumentou, como esperado, o volume de empréstimos, pelo contrário, prevendo aumento de risco em função do desemprego que ronda a economia, os bancos aumentaram a taxa de juros. Uma forma de atenuar o problema do consumo, sem a necessidade de bancos, seria através de cartão de crédito. O aumento do Bolsa Família, por exemplo, poderia ser um limite de credito concedido no cartão do beneficiário para pagamento exclusivamente na modalidade débito. Nesse mesmo sentido, o governo deveria flexibilizar as regras do cartão de crédito. Hoje, uma pessoa que amortiza o saldo devedor num mês, no outro deve liquidar o saldo remanescente de uma única vez. Fica difícil para quem está com a renda achatada e também porque os encargos cobrados pelas administradoras é muito alto. Assim, bastaria determinar que o consumo realizado nesse período, via cartão de crédito, poderia ser liquidado em 12 parcelas sem qualquer incidência de encargos.

O lado cruel da história é a politização da doença. O uso de cloroquina, assim como de qualquer medicamento, precisa ser assegurado pela Anvisa e para isso se testa a eficiência, a toxicidade, pra verificar a janela terapêutica, ou seja, a diferença entre a dose que mata e a dose que cura. Todo remédio tem seus efeitos colaterais. Uns podem trazer lucros, outros podem trazer indenizações. O Viagra era um remédio para tratar de doença cardíaca e serviu para disfunção erétil (em vez de angina, vagina). A Pfizer lucrou US$ 1 bilhão só no primeiro ano de lançamento. A talidomida gerou indenizações porque criou deformidades em fetos.

Existe uma pressão muito grande, em alguns pontos do país, para a reabertura das atividades econômicas. Existem cidades no Brasil que não registraram qualquer incidência e, mesmo assim, permanecem sem atividade. Os “especialistas midiáticos” alertavam que o horror de mortes no Brasil seria no fim de março e começo de abril. Estamos terminando a primeira quinzena e a quantidade de óbitos segue numa linha abaixo do que o resto do mundo. Junte tudo isso, que já não é bom, a participação do congresso e do judiciário.

Os cenários para a economia, tanto nacional quanto local, estão envoltos de incertezas. O mercado vai retomar suas atividades, os shoppings voltarão, mas as vendas não serão instantâneas e como no comércio as vendas via cartão são, geralmente, parceladas. Isso significa que a receita principal só entrará no caixa 30 dias após a venda e pra vender o comércio precisa estar funcionando.

Como atores nesse circo de horrores, o deputado Rodrigo Maia escancarou de vez a opção de se colocar contra o governo. Ele foi responsável por um sem número de medidas provisórias que, deliberadamente, caducaram, além de sua ferrenha oposição em liberar o fundo partidário para combater a pandemia. Um juiz bloqueou o fundo eleitoral, mas a decisão foi revogada a pedido da mesa do senado. O mais interessante foi um comentário que vi atribuído ao deputado Raul Henry aqui de Pernambuco. Segundo ele “como pagar a militância sem o fundo partidário?”. Gostaria muito de encontrar o nobre deputado para lhe dizer que “militância” se move por ideais, não por dinheiro. No fundo isso é retrato natural da nossa política: apoio por dinheiro.

O cenário que temos para sair da crise tem essa cara: o presidente da câmara com contas abertas com a justiça; o presidente do senado recuperado da doença já disse a boca miúda “que o governo acabou” e o ministro Lewandowski envolvendo sindicatos nos possíveis acordos entre empregados e empregadores trouxe, como consequência, a cobrança de um percentual sobre o valor homologado que vai induzir demissões, não negociações. Importante destacar que sindicatos são erguidos nas promessas de luta pelos direitos dos trabalhadores, mas o que fazem na prática é isso: extorsão.

4 pensou em “EFEITOS COLATERAIS

  1. Em uma só coluna um quadro completo.
    Imparcial como deve ser.
    Cada assunto tratado com muita propriedade e concisão.
    Já espalhei o link da coluna pelo oco do mundo.

  2. Caro Mauricio Assuero suas verdades revelam a face do Brasil, maquiada de pós de segunda categoria no setor político. Os exemplos citados retratam a verdade que amarrota a cara do Brasil inocente, obrigado a aceitar hipocrisias. Ver oportunistas que nada fazem de produtivo, querer aparecer nas costas dos outros. Para garantir votos.

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